Em Obrehim...
Ácura acordou junto com o sol, naquele momento do dia mais da metade dos soldados do acampamento já estavam acordados, a princesa havia sido gentil ao deixá-la dormir em sua tenda, talvez se sentisse menos entediada compartilhando seu tempo com outra mulher. Vários carros de madeira haviam chegado da capital antes do amanhecer, todo carregados com barris de piche que seriam atirados do alto da muralha, alguns andaimes improvisados subiam e desciam a muralha levando os barris para cima.
O portão da muralha se ergueu devagar, quase melancolicamente, como se desse ênfase a chegada dos que iriam entrar. Um grupo de soldados passou, todos vestiam armaduras pretas e usava um capuz que afastava a luz dos seus rostos, entraram devagar, homens grandes e com uma postura fria, o tipo de pessoa com quem não se arranja brigas.
- São as hienas, a guarda de elite do rei. – Respondeu Lucian aparecendo do lado de Ácura, ele havia dormido em seu acampamento, mesmo tendo se afeiçoado a ele a princesa não achou prudente que um homem dormisse na mesma tenda que ela. – São os soldados mais cruéis que Obrehim tem, só são chamados em situações extremas.
- O que faziam fora da muralha? – Ácura perguntou.
- Alguns soldados foram fazer uma vigília fora da muralha e não voltaram mais, então o irmão do rei os enviou para saber o que aconteceu. – Lucian respondeu entristecido ao ver uma carroça entrar logo após eles. – Aquele ali é o carniceiro, ele cata os corpos dos mortos em combate para levar para as famílias. – A carroça era f**a, toda pintada de vermelho para disfarça o sangue, o homem que conduzia os cavalos usava uma roupa que o isolava completamente e tinha uma máscara com uma espécie de bico onde ele colocava diversas ervas cheirosas para disfarça o cheiro de morte que saia da carroça.
- Então os soldados... – Ácura não completou a pergunta, como se não quisesse ouvir a resposta.
- Sim. – Lucian respondeu friamente, então virou as costas e saiu, provavelmente queria arranjar alguma ocupação que distraísse sua mente dos pensamentos que aquela carroça trazia.
Ácura sabiamente decidiu fazer o mesmo, Tratou de preparar seu desjejum, na guerra não se tem o privilégio de comer comidas prazerosas, tudo que tinha para se alimentar era um tipo de ração sem gosto que o exército distribuía, por precaução Ácura havia comprado sua própria comida antes de chegar ao acampamento, não era muito , mas pelo menos ela não tinha que comer sempre aquela gororoba.
Lucian abriu a tenda com pressa fazendo Ácura tomar um susto. – Estão atacando o centro de Obrehim, cercaram a cidadela. – Ele falou quase sem folego.
- O que? Como assim? – A princesa pulou da cama ao ouvir aquilo, Lucian estava tão agitado que esqueceu que a princesa repousava naquela tenda.
- Majestade, Kandaram invadiu o reino, não sabemos por onde entraram, mas estão com um exército cercando a capital, um cavaleiro chegou agora trazendo a informação. – Ele respondeu ofegante.
- Minha família está toda lá. – Ela falou preocupada.
- Tem muitos soldados na capital, com certeza vão protegê-los, mas não podemos deixar que o cerco dure mais tempo, estamos enviando a maior parte dos soldados que aqui estão para emboscá-los. – Lucian falou. Antes que suas palavras sumissem no ar o som de várias trombetas soaram forte do alto da muralha, Ácura sabia bem o significado daquelas trombetas, inimigos se aproximavam.
Uthean invadiu a tenda às pressas. – Princesa temos que ir. – Ele falou pegando no pulso da princesa e a puxando para fora da tenda, ninguém ousaria tocar na princesa daquela forma, mas naquela situação Uthean se importava bem mais com a segurança da princesa do que com os pensamentos dela sobre ele, do lado de fora da tenda uma carruagem a aguardava, Uthean a jogou lá dentro e gritou para que Ácura e Lucian também entrassem e por fim ele entrou, m*l tirou os pés do chão e o carroceiro saiu com os cavalos às pressas.
- Para onde vamos? – Ela perguntou a Uthean, o anão parecia muito impaciente, não era do feitio dele perder a calma, o que mostrava que a situação era muito maior do que Ácura imaginava.
- Vamos para a vila dos anões, é o lugar mais seguro para fugirmos no momento. – Ele respondeu olhando pela janela para a muralha o tempo todo, dava para ver os soldados catando suas armas e os barris sendo atirados por cima da muralha, o que mostrava que os inimigos estavam muito perto.
A princesa engoliu seco, não havia nada que ele pudesse fazer a não ser confiar em seus oficiais, ela conhecia Uthean e confiava nele, então seguiu as ordens dele sem questionar, era estranho ver a princesa daquele jeito, com o cabelo desarrumado e com roupas simples de dormir, dava a impressão de que ela era uma pessoa normal. Do lado de fora da carruagem quatro cavaleiros marchavam para fazer a guarda da princesa, os cavalos corriam apressados e a carruagem chacoalhava muito, naquela situação era quase impossível não ficar tenso.
- Kandaram invadiu o reino de alguma forma, provavelmente fomos traídos, na minha vila estaremos seguros , ela é naturalmente escondida e tem muralhas que podem nos proteger mesmo se a gente for cercado, precisamos chegar lá o mais rápido possível, com os soldados de Kandaram vagando por dentro das muralhas não sabemos quando podemos encontrar um batalhão deles, preparem-se para proteger a princesa com suas vidas. – Uthean falou olhando para Ácura e Lucian, Ácura segurou firme o cabo de sua espada, nunca havia lutado com alguém que tentasse matá-la de verdade, mas sentia que antes daquele dia terminar precisaria lutar por sua vida.
Uthean reparou que um cavaleiro os perseguia a passos rápido. – Preparem-se. – Ele disse para os cavaleiros que seguiam a carruagem do lado de fora. Os cavaleiros pararam na estrada para bloquear a passagem do possível inimigo, a carruagem seguiu ainda mais apressada e logo os perderam de vista.
Não demorou muito e os cavaleiros apareceram novamente na estrada os seguindo junto com o outro cavaleiro, Uthean olhou bem e reparou que se tratava do capitão Gariam.
- Senhor, eu vim auxilia-los. – Gariam falou para uthean assim que conseguiram acompanhá-los.
- É bom tê-lo aqui. – Uthean respondeu.
- Então para onde iremos. – Ele perguntou.
- Vila enânica, temos muito caminho para percorrer ainda, temos que chegar lá o quanto antes, só assim a princesa estará segura. – Uthean respondeu.
...
Mais de uma hora se passaram e Uthean ainda não tinha se acalmado, olhava o tempo inteiro para trás enquanto mexia na sua barba. Ácura aguardava tentando manter a calma, mas ficava difícil naquela situação.
- Mais cavaleiros. – Disse um dos cavaleiros que acompanhava a carruagem, Ácura olhou para trás e viu que cerca de uma dúzia de cavaleiros os perseguiam, esses obviamente não pertenciam a Obrehim, estavam com espadas e lanças nas mãos, não haviam sido mandados para negociar.
- m***a, eles sabem que você está aqui. – Uthean disse a princesa.
- Como? Quase ninguém me viu entrar nessa carruagem, nem eu mesmo sabia que isso aconteceria. – Ela respondeu.
- Temos espiões dentro do reino, com certeza. – Uthean falou. – Bloqueiem a estrada, Ele ordenou para os quatro cavaleiros que acompanhavam a carruagem. Sem pensar duas vezes os homens pararam e montaram uma formação para impedi-los, era morte certa, eles sabiam disso, não venceriam aqueles homens nem na melhor das situações, mesmo assim pararam e esperaram o inimigo chegar até eles, escolheram dar suas vidas para tentar atrasá-los o máximo que podiam, apenas para dar uma chance de fuga a princesa, homens bravos.
A carruagem seguiu em frente e os homens sumiram de vista, no entanto Uthean não conseguia relaxar, sabia que a qualquer momento os cavaleiros os inimigos os acompanhariam novamente. – Vamos sair da estrada, entre aqui. – Ele ordenou para o carroceiro que seguisse para dentro da floresta ziguezagueando a carruagem entre as árvores.
- Para onde estamos indo? – Gariam perguntou. – Você sabe que tem um rio enorme bem a frente, vamos ficar cercados comandante.
- Eu sei o que estou fazendo Gariam. – Uthean gritou com o capitão, Lucian engoliu seco, nunca havia visto seu tio ser gritado por ninguém e Ácura nunca havia visto Uthean gritar daquela forma. Gariam se calou, sabia se manter leal mesmo não concordando com as ordens que recebia e confiava em Uthean o suficiente para saber que ele sabia mesmo o que estava fazendo.
O Caminho era duro para os cavalos passarem, mas eles eram fortes, puxaram aquela carruagem por cima de paus e pedras sem fazer nenhum esforço a mais. A Princesa estava assustada, sabia que aqueles cavaleiros queriam sua cabeça para exibir como troféu.
- Não se preocupe princesa, você vai ficar bem. – Uthean falou.
- Eu sei, confio no seu comando Uthean, mas é difícil ficar calma nessa situação. - A princesa respondeu.
- Eu entendo bem, mas no fim desse dia você estará segura dentro das muralhas da minha vila, eu a prometo. – Uthean falou a olhando nos olhos, ela acenou com a cabeça e respirou fundo tentando se acalmar.
- Senhor, estamos chegando no rio. – Gariam avisou.
- Pare a carruagem nas margens. _ Uthean ordenou para o carroceiro e assim ele fez. Todos desceram e sacaram suas armas.
- Ouça bem, nós vamos ficar aqui, mas eu quero que você atravesse o rio com a princesa, você consegue fazer isso, não consegue? Consegue andar por cima do rio? – Uthean perguntou para Ácura a olhando no fundo dos olhos dela.
- Eu só andei poucos metros e nunca carregando alguém. – Ela respondeu olhando para o rio que era tão largo que as árvores na outra margem pareciam minúsculas. – Mas eu posso tentar.
- Nós precisamos de você, nesse momento você é a única pessoa entre a espada daqueles cavaleiros e o pescoço da princesa, precisamos que você consiga. – Uthean a pressionou, talvez ele não quisesse fazer isso, mas todos ali estavam pressionados era só questão de tempo para que os cavaleiros os achassem encurralados nas margens daquele rio. Ácura cerrou os olhos e acenou com a cabeça para Uthean, tudo que vinha em sua mente naquele momento eram os quatro cavaleiros que haviam ficado no caminho para tentar proteger a princesa, provavelmente àquela altura já estavam mortos, não era o momento para ser fraca.
- Majestade, suba em minhas costas. – Ácura pediu. A princesa subiu e ela caminhou em direção ao rio e depois andou sobre as águas, m*l ela tinha dado dez passos e quando olhou para trás os cavaleiros apareceram no fundo da floresta. Uthean a olhou indo embora, segurando firme seu machado, naquele momento ela sabia o que aquele olhar significava, ele não falou nada, todavia aquele era o adeus mais profundo que alguém poderia dar.
Ácura seguiu seu caminho sobre as águas sem olhar para trás, ela tinha muita luta pela frente e não queria que as cenas daquela batalha assombrassem seus pensamentos, mais do que nunca ela precisava ficar firme, seu caminhar lento sobre as água se tornou uma corrida, o caminho era longo e mesmo já tendo andado bastante ela não havia chegado nem ao meio do rio, a princesa pesava em suas costas, essa por outro lado olhava para trás, queria testemunhar o sacrifício dos seus soldados, queria carregar aquela lembrança em sua mente e nunca mais esquecer o que aqueles homens fizeram por ela sem nem sequer questionar.
O treinamento de carregar troncos pesados que Ácura havia feito nos caruncis não poderia ter sido mais útil, mesmo com todo o peso da princesa em suas costas Ácura ainda conseguia se manter firme com o único objetivo de não submergir naquelas águas profundas.
A princesa percebeu quando o ritmo dos passos de Ácura havia diminuído, já havia atravessado mais da metade do rio , mas ainda tinha uma longa parte pela frente e Ácura já havia começado a fraquejar em alguns passos, como se sua magia já não fosse o suficiente para manter a água firme, ao olhar para a água abaixo dos pés de Ácura a princesa viu uma imensidão escura, como um abismo de águas, cair lá dentro era a última coisa que ela desejava.
- Aguente mais um pouco. – A princesa pediu. Ácura não pôde responde, de fato estava usando suas forças até o limite e precisava se concentrar, se errasse um passo não teria forças o suficiente para voltar para a superfície da água. – eu conto com você.
Ácura conseguiu aguentar mais alguns metros, todavia sentia que não chegaria a outra margem e em um instante de fraqueza sua perna direita não conseguiu apoio na água e afundou e logo em seguida as duas tombaram na água e se separaram, Ácura estava esgotada, sem forças para nadar, havia gastado até o limite das energias do seu corpo, então apenas sentiu-se afundando lentamente naquela imensidão, o sol brilhou forte e ficou muito claro lá embaixo, de certa forma parecia tudo muito bonito, não lhe restava forças nem para se desesperar, ela deixou que a água preenchesse seus pulmões, parecia ironia que uma maga de água morreria afogada ou talvez fosse para ela a melhor forma de morrer, isso já não importava mais, naquele instante nada mais lhe importava, então ela fechou os olhos e aceitou a morte.
Continua...