Meu dia pode ter começado r**m com uma ligação indesejável e esse trânsito maravilhoso que o Rio de Janeiro tem, mas irá melhorar, pelo menos é o que espero. Deixo Erick na escola e vou direto para a agência, agenda está totalmente lotada e espero que o Guilherme não esteja bravo comigo e querendo me estrangular pelos 20 minutos de atraso. Chego correndo e só está a Helena no balcão de recepção.
– Bom dia Helena, cadê a Renata? – perguntei uma figura morena que estava um pouco desesperada por estar fazendo toda a papelada e relatórios dos clientes. Alguns eram da casa e outros eram novos.
– Bom dia Senhorita Louise, Renata ligou tem uma hora e não pode vir, está no hospital sendo examinada.
– Depois me resolvo com ela, não é possível que toda semana ela esteja doente. Pode me passar os Jobs do dia? O pessoal do marketing está quase me estrangulando.
– O Senhor Guilherme pegou alguns – disse-me entregando uma pasta e um papel com anotações de horários – Aqui está o briefing de um novo contrato e esses são os horários das reuniões do dia.
Peguei sem reclamar, depois preciso agradecer ao Gui por isso, ele é um anjo. Já tinha passado um pouco do horário de almoço, estava quase me corroendo de fome.
– Finalmente – disse me espreguiçando – Não aguento mais olhar para a tela do computador, e não estou nem perto de acabar.
– Senhorita Louise – Guilherme me deu um susto – Vamos almoçar ou "tá" difícil? Estou te esperando criatura.
– Nem precisa mandar, vamos logo antes que eu acabe praticando o tal do canibalismo – Pulei da cadeira e peguei minha bolsa. – Mas você não tem carne o suficiente.
Saímos num pulo e no outro já estou numa pensão que tinha ali perto, o que a fome não faz, né?
Guilherme falava algo sobre a nova estagiária que tinha uma baixa autoestima, problemas com alimentação, faculdade e família, com isso tudo em mente ainda não executa suas tarefas no prazo e estava com medo de que fosse dispensada. Guilherme é o tipo de pessoa que você encanta logo e acaba se conectando com ele, mesmo a pessoa mais fechada do mundo, acaba se tornando um livro aberto perto dele. O Gui é carinhoso, divertido, tem assuntos diferenciados que nunca te deixa no tédio, ele fala de, sei lá, de batman até arroz doce?! Gargalhei com meu pensamento i****a.
– "Tô" falando um assunto sério e você rindo, Jacutinga?!
– Jacutinga é a mãe, vamos logo que ainda tenho que ligar pra minha mãe e saber do Erick. – Olhei para ele novamente – Ei, o que é Jacutinga?
– Peru do mato – Guilherme riu tanto que quase engasgou – Minha tia chamava a ex-nora assim.
– Vou te bater Guilherme.
O almoço foi bem tranquilo, minha mãe é nutricionista, mas isso nunca me impediu de comer besteiras mais que qualquer coisa, enchi meu prato de salgadinhos e batata frita, como o Gui e ela dizem: sou uma ogra. Aproveito que o Gui foi ao banheiro e liguei para minha mãe.
– Oi mãe, queria saber como se está tudo certinho aí ...
– Oi Lô, "tá" tudo sim, meu sol – disse com carinho – Seu pai já buscou o Erick ...
– Aconteceu algo mãe?! – Senti sua voz um pouco estranha.
– Filha, daqui a uns dias seu pai e eu vamos viajar, seu pai não quer se aposentar ainda e vamos a trabalho para Santa Catarina.
– Ah ... – suspirei – Depois conversamos ok?! Beijos, amo vocês.
– Também te amamos querida – desligou
"E agora quem vai cuidar do Erick ?!" Não tive como não pensar, o desespero bateu.
– Lou?! Que cara é essa, mulher? – Disse me abraçando.
– Ah Gui ... Meus pais vão viajar a trabalho e não tem ninguém para cuidar do Erick.
– Bom, levar ele junto na viagem não dará certo, pelo fato da escola – ficou pensativo, estalou os dedos como se tivesse uma grande ideia – Isso, uma babá.
– Não confiarei em qualquer uma para cuidar do meu filho ...
– Lou, é uma solução única até agora, mas calma, vamos pensar no decorrer do dia. Bom, vamos – seu celular começa a tocar – um segundo.
Observava Guilherme falando e pude perceber que as mulheres ao redor babavam, coitadas, imagina a cara delas quando conhecia que ele é gay. Conheci Guilherme na faculdade, pegamos ao mesmo tempo um livro para um trabalho, nessa de ficar puxando pra ver quem ganha, ele ganhou e que ele fez?! Me deu língua e bateu com o livro na minha cabeça, depois de chutar sua canela como vingança começamos a nos falar e aqui estamos: trabalhando na mesma empresa e praticamente vizinhos, moro num bairro e ele no outro. Guilherme volta com o semblante feliz.
- Arrumou um encontro? Não já sei, ganhou na loteria- perguntei.
- Ainda não, meus tios me ligaram, aqueles que moram no interior de Minas lembra? - fiz que sim com a cabeça - Me avisaram que o ônibus do meu primo vai sair e tenho que ir buscá-lo mais tarde.
- Que bom Gui, terá uma companhia a mais - o abracei com sinceridade e logo o soltei- Vem, vamos antes que Helena arrume mais coisas para a gente, ainda não terminei o da parte da manhã e tenho um artigo para escrever para amanhã.
- Lembrei! Você está me devendo hein ?! - disse fingindo cara de bravo, apenas ri.
*
Já era 18:00 e finalmente acabei com tudo, só deixei uma arte para fazer em casa que é rápida e aproveitei que nenhum encaixe apareceu, terminei de arrumar e organizar as coisas pendentes do escritório e quando percebi, estava totalmente sozinha no trabalho e me pus a pensar na ideia do Guilherme. Acho que não seria uma má escolha, mas teria que colocar câmeras por segurança, não podemos confiar em ninguém hoje em dia.
Em poucos minutos chego na casa dos meus pais e pego Erick, digo a eles que estou cansada, juro que não é desculpa, ficar em frente ao computador cansa demais e ainda tenho o trabalho que decidi levar para casa, saímos de lá com Erick me contando sobre seu dia, o sorriso no seu rosto é o que eu mais gosto nesse mundo, acho que pelo fato de ser parecido com o do pai. Apesar de ter acontecido certas coisas, meu ex-marido é um rapaz bonito, mas não quero pensar nele, principalmente pelo fato ocorrido mais cedo.
Chegamos em casa tomei meu banho e comunitário a fazer a janta e Erick é uma criança muito ativa que prefere brincar do que comer, criança gosta dessas coisas, mas não posso deixar que ele fique sem comer. Acabei de colocar a mesa e percebi que ele ainda não tomou o banho.
– O sr. Porquinho quer ajuda pra achar o banheiro?!
– Mas mãe... – Ele faz bico
– Sem mas, vai tomar banho se não te jogo no chuveiro – ele ri e o acompanho – Anda, Erick Alves Abreu Campos. Você sabe que sou maluca.
Ele sai correndo pro banheiro e vou pro seu quarto vigiar, uma vez ele fingiu que tomou banho, acredita? Deixou o chuveiro aberto enquanto estava sentado no vaso lendo gibi. Assim que ele acaba me dá um beijo e vai jantar, não demora muito e logo o coloco na cama.
– Acho que eu mereço um vinho – Falo fechando a porta do quarto dele.
Sento no sofá, meu notebook está aberto e ao lado está como anotações.
– É, a noite vai ser longa – Bebo um pouco do vinho – Muito bem Senhorita Alves, "vambora".