Capítulo 15

1967 Palavras
Eu não estava nem um pouco surpresa com mais uma das façanhas da Shirley. Àquela altura, já era quase um esporte desviar das armadilhas dela — esporte no qual eu era obrigada a participar, mesmo fazendo de tudo para não permanecer no mesmo ambiente que ela por mais tempo do que o necessário. — Por que ela fez isso? — ouvi Noah perguntar, a voz baixa, porém carregada. Respirei fundo, contendo o impulso de revirar os olhos. — Essa é uma pergunta que você deveria fazer diretamente a ela. — respondi, mantendo o tom neutro. — Embora eu ache que não vai adiantar muita coisa… ela vai mentir. — pausei por um segundo, antes de completar em um fio de voz. — E você vai acreditar. Ele me encarou como se tentasse decifrar um código escondido no meu rosto. Nos olhos dele havia confusão… e algo mais. Talvez dúvida. Talvez curiosidade. Talvez a percepção de que havia muito ali que ele ainda não entendia. Fui eu quem desviou o olhar primeiro, dando de ombros como se não fosse grande coisa Noah inspirou profundamente antes de se virar para a hostess com a postura fria e profissional que ele usava quando decidia que algo precisava ser consertado imediatamente. — Recoloque o nome dela na lista. Ela vai entrar. — ordenou, a voz baixa e firme. — E da próxima vez, confirme diretamente com o cliente responsável pelo agendamento. A hostess ficou vermelha na hora, o pescoço inteiro manchado de vergonha. — Si-sim, senhor. Me desculpe… me desculpem, senhorita. — cruzou as mãos na frente do corpo e fez uma pequena reverência constrangida. Depois que recolocaram meu nome no sistema, seguimos direto para a mesa reservada. — Até que enfim! Noah… — exclamou Shirley, levantando-se como se estivesse diante de uma oportunidade perfeita. — Shirley, pode me explicar por que você tirou o nome da Ayla da lista? — Noah cortou, sem dar tempo para a encenação. Ela congelou por um segundo. Olhou para mim rapidamente — só o suficiente para revelar o brilho satisfeito nos olhos — e depois voltou para ele, assumindo sua expressão coitadolandia. — Ah, me desculpa, maninha… — disse, com aquele olhar caído que não engana nem recém-nascido. — Eu achei que ela não fosse vir, Noah. Juro que não pensei que isso ia virar um problema. E lá estava. A mentira. — Da próxima vez, confirme comigo. Ou com a sua irmã. — respondeu Noah, tom controlado, polido. Exatamente como eu havia dito. Eu apenas ergui uma sobrancelha, encarando-o como quem diz “Eu falei”, antes de revirar os olhos e me sentar — justamente em frente a Shirley — Prazer, Ayla. — ele apertou minha mão com firmeza, me medindo com curiosidade. James, sentado ao lado, soltou um risinho debochado. — Prazer. — sorri. — E esse i****a você deve lembrar. — disse Noah, apontando para James, que me encarava com um sorriso educado, enquanto fuzilava o Noah. No mesmo instante em que me sentei, James se inclinou e beijou minha bochecha, numa provocação tão óbvia, o que funcionou, ele empurrou o James, sem delicadeza. — Mas então… — Bruce retomou, cruzando os braços e me analisando com curiosidade. — Você é irmã da Shirley? Assenti calmamente, sem mudar a expressão. — Sinto muito em dizer, Shirley… — completou ele, olhando entre nós duas. — Mas sua irmã é muito linda. Shirley travou o maxilar tão forte que eu quase ouvi. Antes que ela disparasse qualquer veneno, Noah soltou a ameaça baixa o bastante para ser íntima e alta o bastante para todos ouvirem: — Bruce, você não está com medo de perder os dentes? — perguntou com a mandíbula rígida. Bruce sorriu de canto, levantando as mãos em rendição, enquanto Shirley me encarava com puro ódio. O almoço passou rápido, apesar do ambiente turbulento. Shirley e James se bicavam como duas crianças m*l-criadas disputando atenção, enquanto eu, Noah e Bruce conversávamos sobre assuntos leves. Descobri que Bruce era piloto, o que imediatamente chamou minha atenção. — Você e seu pai são iguaizinhos, Ayla. Não entendo por que ele está treinando a Shirley. — comentou Bruce, casualmente. Senti o Noah tensionar ao meu lado. — O quê? — perguntei, minha voz saindo quase inaudível. Shirley ergueu as sobrancelhas e soltou um falsinho "ops". — Ah, o papai não contou? — disse, dramatizando surpresa. — Eu vou ficar no lugar dele. Vou administrar a empresa ao lado do Noah. Virei para o Noah na mesma hora. — Você sabia? — perguntei. Ele não precisou responder. O silêncio respondeu por ele. Minha garganta secou. — Isso não pode ser verdade. — murmurei. — Você não presta, não estuda e nunca se importou… como ele tem coragem? Shirley apoiou o queixo nas mãos, sorrindo como quem aprecia o caos que cria. — Sou a mais velha. É meu direito. — Você só faz gastar. Gastar e… gastar. — falei por entre os dentes. — Estou apenas realizando o sonho do papai. — respondeu com um sorriso sínico que me deu vontade de arrancar. — Ele está realmente te ensinando a administrar a empresa? — perguntei. Ela assentiu com a cabeça, inflando o peito como se estivesse prestes a receber um prêmio. Quase suspirei de alívio. — Não importa. — dei de ombros. — Eu quero trabalhar com as minhas mãos, de qualquer forma. — Então você não está mais com raiva? — perguntou, como se tentasse ler minha expressão. Devolvi apenas um semicerrar de olhos. — Bom… eu não posso deixar você trabalhar na oficina quando eu oficialmente herdar a empresa. — Primeiramente — comecei, inclinando para a frente — a empresa não seria só sua. Seria dividida corretamente. Eu vou fazer parte do conselho. Então, resumindo: se você fizer merda, eu vou ser a primeira a votar contra você. O rosto dela ficou vermelho, quase pulsando de raiva. Bruce riu baixo. — Então você estuda engenharia como seu pai? — perguntou. Finalmente sorrimos de verdade naquela mesa. — Engenharia aeronáutica. Sempre amei trabalhar com meu pai quando era criança. — Se um dia você abrir sua própria empresa, conta comigo. — piscou um olho. Antes que eu respondesse, Noah rosnou: — Além de querer que eu quebre os seus dentes, você quer que eu te dê um soco no olho também? Soltei uma risada curta. — Você é muito ciumento. — provoquei, aproximando meu rosto do dele e dando um selinho rápido. — Vai me ajudar pilotando o avião que eu criar? — Pilotar é só um hobbie. Sou engenheiro de software. — respondeu Bruce, recostando-se. — Mas se quiser, posso ser piloto de teste. — Obrigada, Bruce. — sorri. Shirley, que até então estava em silêncio — provavelmente engolindo a própria raiva — finalmente murmurou: — Com licença. Eu até esqueci que ela ainda estava ali. Ela deu a volta na mesa e desapareceu em direção ao toalete. Quando virei de volta para o Noah, ele pegou minha mão, acariciou devagar e levou um beijo suave à minha palma. — Para com isso… — sussurrei, sentindo o rosto esquentar. Ainda mais quando ele subiu para o meu pulso, lento demais. E então eu senti. Um líquido escorrendo pelo meu peito. Frio, viscoso. Desci o olhar. Um jato vermelho-escuro manchava meu vestido, se espalhando rapidamente pelo cetim claro, descendo em trilhas irregulares. Shirley. Parada atrás de mim, com os olhos arregalados e a boca aberta em um falso choque. E então eu senti. Um frio súbito no peito. Líquido. Espesso. — Você tá louca?! — exclamei, sentindo meu coração disparar. — Foi sem querer, maninha… — murmurou com a voz baixa, quase um sussurro ensaiado. Revirei os olhos, ríspida. — Você acha que eu não conheço suas artimanhas? Sem pensar duas vezes, alcancei minha taça de água e joguei direto no rosto dela. O choque estampado na expressão dela durou menos de um segundo antes de se transformar em pura raiva. Noah entrou na minha frente antes que qualquer outra coisa saísse do controle, segurando meus ombros. — Ayla, foi sem querer — repetiu, tentando me acalmar. — Não, Noah. Não foi — respondi firme, tirando as mãos dele do meu corpo. — Você pode até cair nesse papel de boa moça dela. Eu não. — Mas eu juro que não fiz nada de propósito… — Shirley choramingou atrás dele, com aquela voz falsa que eu já escuto desde criança. Noah virou de lado, ficando ao meu lado, agora realmente analisando a cena. A testa dele franzida, o olhar dividido entre mim e ela. Será que agora ele está duvidando dela? James soltou um suspiro alto e cruzou os braços. — Eu acredito na Ayla. Essa bruxa faz qualquer coisa pra ser o centro do universo desde criança. — James — Noah repreendeu, cansado. — Ah, pelo amor de Deus. Se a própria irmã acha que ela é o d***o em pessoa, você quer que eu pense o quê? — rebateu James, revirando os olhos. Virei para ele. — Você também não confia nela? James respondeu, direto: — Desde criança ela tenta chamar atenção de todo mundo. Você não percebeu, mas eu percebi. E ela me odeia até hoje porque eu nunca caí no papinho dela. Shirley suspirou, fingindo magoada. — Você não está exagerando, James? Éramos crianças… — Noah argumentou. Ela aproveitou o gancho. — Pois é, James. Eu tento ser sua amiga até hoje e você continua preso no passado… — disse em um tom doce demais. Revirei os olhos tão forte que quase vi meu cérebro. Em segundos, Shirley e James já estavam discutindo, os dois elevando o tom. O ambiente inteiro parecia prestes a explodir. Bruce me observava em silêncio, mãos no bolso, expressão indecifrável. Eu simplesmente desviei o olhar. Noah soltou um longo suspiro e colocou meu casaco sobre meus ombros, ajeitando minha bolsa em seguida. — Vamos. Já deu por hoje. — pegou minha mão com firmeza e me guiou pra saída, ignorando o caos ficando para trás. No carro, o silêncio parecia mais alto que a discussão que deixamos no restaurante. Depois de longos minutos, perguntei baixinho: — Você está bem? — Tô... só pensando. — Ele manteve os olhos na estrada. Quando ele estacionou em frente à minha casa, saiu do carro e abriu a porta para mim. Me acompanhou até a porta, os dedos entrelaçados nos meus, quentes, firmes. Ali, sob a luz amarelada da varanda, ele se inclinou e beijou meus lábios devagar, como se estivesse tentando prolongar aquele momento. — Tem certeza que não quer ir lá em casa? — sussurrou contra minha boca. — Você ainda me deve aquela promessa… lembra? A que envolvia eu realizar meu desejo com esses seus lábios vermelhos. Fechei os olhos por um instante. Se fosse qualquer outro dia… — Eu prometo que vou cumprir. — murmurei, cansada, apoiando minha testa no peito dele. — Só… hoje não. Eu tô exausta. E era verdade. Shirley tinha esse poder. Shirley sempre consegue drenar minhas energias, meu humor. Até hoje eu não sei por qual motivo ela me odeia tanto. Será que inconsciente eu a machuquei de alguma forma? Os braços de Noah me envolveram, o queixo dele pousando suave sobre a minha cabeça. — O que tá se passando nessa cabecinha, hein? — perguntou baixinho. Eu poderia desabafar ali. Contar tudo. Cada detalhe. Todo o peso que carrego desde criança. Mas de que adiantaria? Se nem o melhor amigo dele - que conhece ele e a Shirley há anos, enxerga quem é Shirley de verdade. Se nem eu, que cresci ao lado dela, sendo o alvo favorito de suas maldades, consigo fazer ele entender. Não. Eu teria que esperar. Esperar ele enxergar sozinho. Esperar ele descobrir por conta própria quem é a melhor amiga de verdade.
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