Capítulo 14

2054 Palavras
Acordei rindo, gargalhadas leves que escaparam antes mesmo que a consciência voltasse por completo, enquanto o Storm atacava minha bochecha com lambeijos entusiasmados. — Bom dia, filho… — sussurrei, fazendo carinho entre as orelhas dele. O quarto estava silencioso, iluminado só por uma faixa de luz entrando pela cortina. Quando passei a mão pela outra metade da cama, encontrei frio. O Noah tinha saído há horas. Suspirei, ajeitando o cabelo enquanto olhava em volta, até ver a bandeja sobre o criado-mudo. Café da manhã. O sorriso brotou nos meus lábios. Peguei o post-it dobrado ao meio, ao lado do café já frio, sorri boba. “ Cuore, tive que sair para a empresa encontrar o seu pai, para uma reunião de emergência.” — Fechei os olhos por um segundo com a seguinte frase seguinte. — “Queria ter acordado aí ao seu lado, e te saborear como merece e depois te alimentar. Amo você.” Como ele consegue falar sobre o meu pai e saborear no mesmo texto? Me perguntei sorrindo, descrente. “Obs: Fica mais linda que já é pra mim, apenas para mim. Obs 2: Não esqueça do almoço com a sua irmã.” O cheiro do café já frio, do pão, da fruta cortada. Tudo perdeu a graça. Storm apoiou a cabeça na minha perna, passei a mão nele devagar. — Ótimo… — sussurrei, frustrada. Levantei da cama, levando a bandeja comigo para a cozinha. Troquei o meu café que estava frio por um quente da máquina de café. Depois de limpar tudo que estava sujo na bandeja, lavei o meu rosto e sai com Storm para ele fazer as necessidades dele antes de irmos para casa. — Você vai me dizer o nome do desgraçado! — a voz do meu pai ecoou pela casa, furiosa, como eu nunca tinha visto. — Eu… eu não posso dizer, pai. Só espera um pouco, por favor… — a Shirley implorou baixinho. Aquele tom doce que ela sempre usou a vida inteira para amolecer ele. Mas, pela primeira vez, não funcionou. O rosto dele continuava duro. Tenso. Firme. O que diabos ela fez dessa vez? — O que está acontecendo aqui? — perguntei ao entrar na sala, e todos se viraram para mim ao mesmo tempo. — Nada que você deva se meter. — Meu pai disse sem tirar os olhos da Shirley, que por vez, não tirava os olhos de mim. — Pai, tem certeza? — insisti, me aproximando um passo. — Posso ajudar de alguma forma. — Deixa de ser fofoqueira, Ayla. Isso não é da sua conta. — disparou Shirley, vermelha de raiva. Meu pai ergueu a mão imediatamente. — Tenho certeza. — cortou ele, firme. — É um assunto da empresa. Nada para você se preocupar. Assunto da empresa? Desde quando ela se importa com a empresa? Cruzei os braços, encarando Shirley. — Não vai jogar suas frustrações em cima de mim, vai? — perguntei, com um meio sorriso desafiador. A Shirley abriu a boca pronta para soltar veneno. Mas parou ao notar meus pais olhando. Então sorriu. Aquele sorriso falso, calculada que nunca anuncia nada de bom. Meu estômago virou. E aí a pergunta bateu forte na minha mente, tão rápido quanto um raio: O que a Shirley tem a ver com a empresa? Se ela nunca se importou com absolutamente nada além de gastar o dinheiro? Ignorei completamente a presença dela e virei meu olhar para o meu pai. — Como foi a reunião com o Noah? — perguntei, tentando manter a voz neutra. — Foi uma manhã exaustiva. Recebi um e-mail importante do senhor Agus Salim e precisei chamar o Noah com urgência. — Os olhos dele estavam cansados, fundos. — Estou velho demais para isso. — E você acha normal marcar uma reunião tão cedo assim? — questionei, indignada. — Lá era 18h. — explicou, massageando as têmporas. — Ele queria que fosse às 04h da manhã, aqui. Consegui adiar para as 06h. Ele então parou, me encarando com estranheza. — Como você sabe disso? — Ele me mandou mensagem agora de manhã. — dei de ombros, tentando não reagir ao som da risadinha debochada da Shirley atrás do meu pai. — Por falar nisso, posso saber onde a senhorita estava hoje de manhã? — perguntou desconfiado. Respirei fundo. — Passeando com o Storm. — respondi. E era verdade… em parte. Eu realmente tinha saído com o Storm. Em parte não é totalmente uma mentira. Mas, é por um bem maior, meu pai não precisava saber disso agora. Está na cara que ele não acredita muito nisso, ele sabe que eu não sou nenhuma inocente, muito menos pura. Dei um sorriso amarelo tentando despistar a conversa. — Eu vou fingir que acredito, só para não imaginar onde você estava a essa hora. — disse ele, apontando para mim antes de virar as costas e subir as escadas em direção ao quarto. Assim que meu pai desapareceu no alto da escada, não levou nem meio segundo para a Shirley deixar o veneno escorrer. — Passeou com o cachorro, ou passeou em cima do colo do Noah? — ironizou, com aquele sorriso entortado. Virei para ela devagar, sem perder a calma. — Acho que você está precisando desse passeio também. — respondi doce, cortante. — Porque parece que nenhum homem aguenta você por mais de um minuto no mesmo lugar. Não é? O sorriso dela morreu na hora. — Está ansiosa para o almoço? — perguntou — Pois eu estou. O que será que ela aprontou? Cruzei os braços e sorri de volta, doce como veneno. — Nossa, estou ansiosíssima! — balancei o braço exageradamente, num gesto teatral. — m*l posso esperar para dividir a mesma mesa que você. Vai ser — suspirei dramaticamente — Inesquecível. O olhar dela estreitou. O meu também. ……… — Está tudo bem Kira? — perguntei assim que ela atendeu no segundo toque. — Fala mais baixo — resmungou baixo. — Estou meio termo, acho que eu posso ser considerada um zumbi. Estou com olheiras mais aparentes, sinto que vou vomitar a qualquer momento. Parece aquele barulho de bateria do samba do Brasil na minha cabeça. — E a sua mãe, já foi no seu quarto puxar sua orelha? — perguntei. — Sim, ela está bem dolorida por sinal. — resmungou baixo — E meu pai estava falando do outro lado do meu ouvido. — Bem feito! — Joguei na cara dela — Desde quando você bebe? — Foi minha primeira vez — falou envergonhada — Sabe se eu fiz algo obsceno com aquele rapaz? — Não — respondi. — De onde você o conhece? — perguntei franzindo a testa. — Eu não conheço, só de vista. — respondeu — Não consigo ficar muito tempo perto de homens desconhecidos, principalmente de onde estudo. — Kira, você precisa tomar cuidado — a repreendi — Você consegue imaginar o que ele poderia ter feito contra a sua vida se eu não tivesse chegado? — Obrigada Ayla, mas eu já ouvi os meus pais falando no meu ouvido a manhã toda — resmungou. — Então podemos, por favor, mudar de assunto? — Ok, ok — levantei as sobrancelhas surpresa com a explosão dela. — Me desculpa, Ayla — sussurrou — Toda essa situação está me deixando estressada. Por favor, eu não quero falar sobre isso agora. Pode ser? — Tudo bem — respondi compreensiva — Eu preciso começar a me arrumar daqui a pouco — comentei olhando para o meu relógio do pulso. — Vai sair com o Noah? — perguntou curiosa. — E me encontrar para almoçar com os amigos dele, e a Shirley inclusa — revirei os olhos. — Espera, você vai sair para almoçar com os amigos do seu namorado, e a sua irmã má vai junto? — perguntou tentando entender. — Sim, por que de acordo com o Noah, a Shirley está tentando se aproximar de mim, ser minha irmã e melhor amiga. — falei revirando os olhos. — Porque você não conta que ela fez da sua vida um inferno? — perguntou — O trauma que ela deixou? — Porque passou. Não dá pra ressuscitar isso agora — respondi, respirando fundo. — E conhecendo a minha família, iam dizer que ela era jovem demais, que não sabia o que fazia. — E o Noah? — questionou mais baixo. — Ele não acreditaria em você? — Eu não sei… não quero arriscar agora. Talvez daqui um tempo. — Olhei o horário e me levantei. — Preciso me arrumar. Me deseja sorte. — Toda boa sorte do mundo! — disse. — Você vai precisar. E quando puder, traz o Storm, estou morrendo de saudade dele. ......... — Você como sempre, está deslumbrante Cuore — mur— Você, como sempre, está deslumbrante, Cuore — murmurou Noah, aproximando-se e me dando um selinho lento. Escolhi um vestido longo de cetim cor champanhe, com um f***a deixando minha perna amostra e um casaco sobretudo sob meu ombro, sandália preta de salto fino, bolsa preta pequena e o cabelo preso num r**o de cavalo alto, com alguns fios soltos caindo propositalmente. Antes que ele se afastasse, segurei sua nuca e aprofundei o beijo. Ele respirou fundo contra minha boca. — Não queria borrar o seu batom — murmurou olhando para os meus lábios. — Não se preocupe — sorri de canto. — Ele fixa. Não borra. — Se você soubesse o caminho que a minha mente acabou de pegar, Cuore… — ele disse, passando o dedo pelos meus lábios. — Não teria falado isso pra mim. E então deslizou o dedo para dentro da minha boca. Eu suguei devagar, exatamente como sabia que ele imaginaria. Ele deixou escapar um rosnado rouco. — Vamos antes que eu te arraste pra minha casa — disse, pegando minha mão e me guiando até o carro. No restaurante, antes de descermos, ele me analisou de cima a baixo. — Você está bem? — perguntou, sério. — Estou — sorri. — Não se preocupa comigo. Beijei sua boca com delicadeza. Eu já não gastava minha energia com a Shirley. O que eu sentia por ela agora era indiferença. Dentro do restaurante, uma hostess estava ao lado do balcão, focada no tablet, sem notar nossa presença. — Boa noite, no que posso ajudar? — disse, sem levantar os olhos. — Viemos encontrar nossos amigos — respondeu Noah, já ficando impaciente. — Nome? — perguntou, até finalmente levantar a cabeça… e arregalar os olhos. — Se-senhor Moretti — gaguejou. — A maioria da sua lista já chegou. O olhar dela deslizou pra mim, de baixo pra cima. — E a senhorita é…? — Pra que você quer saber? Ela está ao meu lado. — Noah rebateu, a voz dura. — Me desculpe, senhor Moretti — disse ela, sorrindo e olhando descaradamente para o peitoral dele. — É política do restaurante. — Está apreciando a vista? — perguntei com um sorriso irônico, vendo o rosto dela ficar vermelho entre vergonha e raiva. — Pois aprecie. Porque tocar, você não vai. Pisquei. — Ayla. Meu nome é Ayla Davis. — ela abaixou a cabeça para o tablet. — Me desculpe senhorita Davis. — falou sorrindo com superioridade — Seu nome não consta na lista. — O nome dela foi o primeiro a estar na lista — Noah rosnou — Como isso pode acontecer com a sua supervisão? — Desculpa senhor Moretti, posso verificar o que aconteceu — falou rápido — A supervisão é dividida entre eu e o meu colega. — Então, por favor — falei entredentes — Descubra. E eu já tenho uma ideia do que aconteceu, por isso, que com os olhos eu procuro a dona da confusão. E a encontro me olhando com o sorriso nos lábios, me olhando. Quando ela viu que eu estava olhando para ela, ela levantou a taça na minha direção, como estivesse brindando. — Me desculpe a confusão, senhor Moretti — falou uma mulher diferente da outra hostess. — Agora posso saber o que aconteceu? — falou entredentes — Por que o nome da minha namorada saiu da lista que eu falei? — Então senhor Moretti — a senhorita Davis tirou o nome da lista, e disse que é sua amiga. — falou devagar. Eu olhei para o Noah, que está com a testa franzindo entre as sobrancelhas.
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