Acordei com o som abafado de vozes vindas da cozinha. O cheiro de café fresco, pão quente e alguma coisa fritando já invadia o quarto. A luz do sol passava pela cortina clara, pintando a parede com manchas douradas. Lara ainda dormia, estirada de barriga pra baixo, os cabelos todos bagunçados e um braço pendendo fora da cama.
Levantei devagar, agora com menos medo do chão ranger. Ainda havia aquele cuidado automático nos movimentos, mas naquela casa, ninguém parecia brigar por causa de barulho. Peguei a escova de dente da Lara - ela tinha deixado uma nova separada pra mim no copo do banheiro - e fui direto ao banho, deixando a água escorrer pelo corpo e levando o resto da noite.
Durante alguns segundos, lembrei da imagem da madrugada. Caique na varanda, fumando. Com o olhar perdido em algum lugar que não era aqui.
Balancei a cabeça, tentando afastar aquilo. Não era da minha conta. Ele nem tinha me visto.
Me vesti com uma roupa simples: short jeans, camiseta larga da própria Lara, e prendi o cabelo num coque frouxo. Desci as escadas devagar, guiada pelo som da família acordada.
A cozinha estava cheia.
Mariana fritava ovo com uma mão e mexia no café com a outra. Luísa cortava frutas na bancada, e Davi discutia com Bento sobre quem tinha deixado o portão aberto na noite anterior. Heitor entrava e saía da cozinha procurando uma mochila que provavelmente estava na cara dele. Kevin já estava sentado à mesa, de pijama, com as bochechas sujas de requeijão.
— Olha quem acordou — Mariana disse ao me ver, com aquele tom acolhedor que parecia um abraço. — Dormiu bem, filha?
— Dormi sim, obrigada — respondi, com um sorriso pequeno, mas verdadeiro.
— Senta aí. Fiz café pra tropa inteira — ela apontou a cadeira ao lado do Kevin.
Me sentei e fui recebida com um pão quente e um copo de café com leite. Kevin sorriu de boca cheia.
— Você ainda tá aqui, tia Sarah! Pensei que fosse embora.
— Fiquei mais um pouquinho.
— Fica sempre. Aqui é legal.
— Você quer me adotar, é isso?
Ele assentiu com força, e Mariana riu.
— Ele se apega fácil — ela comentou. — Mas só com quem vale a pena.
Eu abaixei os olhos, disfarçando o calor nas bochechas. Enquanto mordia o pão, ouvi passos vindo do corredor. Passos firmes.
Caique apareceu com a mesma calma de sempre. Camiseta preta, bermuda escura, boné abaixado. O cheiro de sabonete masculino e colônia discreta chegou antes dele. Parou na entrada da cozinha, pegou uma caneca do armário e se serviu de café sem falar com ninguém.
Só depois de dar o primeiro gole é que ele olhou na minha direção. Não disse nada. Só me viu.
De novo.
Como se estivesse checando se eu ainda estava ali.
Como se fosse a primeira coisa do dia.
— Dormiu? — ele perguntou, seco. Mas não era grosseria. Era só o jeito dele.
Assenti com um movimento leve de cabeça.
— Uhum.
Ele soltou um som baixo, quase um "tá", e se encostou na parede com a caneca na mão, observando a confusão da cozinha como quem estava acostumado com o caos. Mas os olhos dele voltaram pra mim uma segunda vez, por mais um segundo do que o necessário.
E, por algum motivo, isso me deixou nervosa.
Fingi olhar pro prato, pro suco, pra fruta cortada. Mas a sensação era a mesma de ontem: estar sendo medida, observada. Não de forma ameaçadora. De forma atenta. Constante.
Mariana passou por nós com um pano de prato jogado no ombro.
— Vai fazer o quê hoje, Sarah?
— Ainda não sei. Vou pra casa daqui a pouco.
— Lara vai querer te prender aqui até o fim da semana, cê sabe, né?
— Tô começando a perceber.
Lara desceu logo depois, bocejando alto e reclamando do calor. Me viu e abriu um sorriso.
— Você não fugiu. Tô orgulhosa.
— Ainda tô decidindo se foi um erro.
— Foi o melhor erro que você já cometeu — ela respondeu, puxando outra cadeira e se servindo como se não tivesse dormido até cinco minutos atrás.
Enquanto todos falavam, riam e comiam, Caique continuava ali, em pé, encostado. Quieto, com a caneca na mão, sem se meter. Mas de tempo em tempo, os olhos dele voltavam pra mim. Não como quem quer atenção. Mas como quem já deu atenção demais, sem admitir.
Eu tentava fingir que não notava. Mas notava. E o pior é que, por dentro, algo em mim começava a querer que ele olhasse mais. Mesmo que eu ainda não soubesse o que fazer com isso.
Depois do café da manhã, a casa começou a ganhar aquele movimento típico de domingo: Mariana lavando louça enquanto cantava baixinho, os irmãos brigando pelo controle remoto, Kevin correndo com um carrinho na mão e Lara insistindo para que eu ficasse mais um pouco "só até a hora do almoço", depois "só até dar três da tarde", depois "só até escurecer".
Mas eu já estava com a cabeça em outro lugar.
Na verdade, em um lugar só: na minha casa.
Ou melhor: no meu pai.
A sensação r**m que sempre me acompanhava voltou assim que passou o encanto daquele café em família. Um aperto no peito, uma lembrança pesada. Eu sabia que, quanto mais tempo eu ficasse fora, mais chance havia do meu pai acordar em um daqueles humores perigosos, o tipo que exigia uma "explicação" pra tudo que eu fazia.
Ele não gostava quando eu sumia. Não gostava quando eu sorria demais. Não gostava, principalmente, quando eu parecia feliz sem ele por perto.
E aquilo... aquilo era perigoso.
Por isso, quando Lara começou a me arrastar pro sofá pra ver filme, eu já estava com as mãos inquietas, o estômago virado e a mente acelerada.
— Eu preciso ir — falei, mais firme do que pretendia.
Lara parou o que estava fazendo.
— Agora? Ah não, Sarah... cê vai me deixar sozinha aqui com essa gente louca?
— Eu preciso. — Minha voz saiu baixa. — É sério.
Ela percebeu. Lara sempre percebe.
— É por causa do seu pai? — perguntou, suavizando o tom.
Eu não respondi. Mas não precisava.
— Tá — ela suspirou. — Eu te levo.
Mariana apareceu na cozinha com um pano de prato na mão ao ouvir nossas vozes mais baixas.
— Já vai, filha?
— Tenho que ir. — Forcei um sorriso. — Obrigada por tudo.
Ela se aproximou e segurou meu rosto entre as mãos, com uma delicadeza que quase me desmontou.
— A casa tá sempre aberta pra você, ouviu? Sempre.
— Eu sei...
Mas não sabia aceitar aquilo. Carinho sempre pareceu uma armadilha na minha vida. Kevin veio correndo, se agarrando à minha perna.
— Não vai embora, tia Sarah!
— Eu volto outro dia, prometo.
Ele fez um bico enorme, e Mariana o pegou no colo antes que começasse a chorar.
— Deixa ela respirar, meu amor. Ela volta sim.
Enquanto isso, Caique apareceu no corredor, a camiseta colando no peito por causa do calor. Ele me viu descendo as escadas com a bolsa no ombro. Não disse nada. Só me acompanhou com os olhos.
Eu engoli seco e desci rápido, desviando como sempre. Lara pegou as chaves do carro e me puxou pelo braço.
— Partiu. Antes que você arrume desculpa pra ficar — disse ela, tentando brincar, mas eu conhecia a preocupação escondida ali.
Caique permaneceu parado, escorado no corrimão da escada. Kevin no colo do pai. Ambos me observando.