O quarto da Lara era a mistura exata entre caos e conforto. Um pouco de roupa jogada na cadeira, alguns cosméticos espalhados sobre a cômoda, uma luz amarelada suave vinda do abajur, e o ventilador girando preguiçoso no canto.
Ela já estava deitada, de pijama, com os pés cruzados e o celular na mão, enquanto eu terminava de amarrar o cabelo. Vesti uma camiseta emprestada, larga, cheirosa e um short de algodão. A cama era espaçosa, e os lençóis estavam frios, do jeito que eu gostava.
— Agora sim. Ambiente pronto pra nossa fofocada da madrugada — ela disse, jogando o celular de lado e se virando pra mim com os olhos brilhando. — E nem vem com esse papo de "não tenho nada pra contar". Porque você sempre tem.
— Eu não tenho, Lara. Minha vida é entediante. Literalmente.
— Mentira. Só de você existir nesse lugar cheio de gente maluca já é o suficiente. Mas beleza, se você não quer falar, eu falo.
Me ajeitei no travesseiro, puxando o cobertor só até a cintura.
— Vai, então. Me impressiona.
Lara fez uma pausa dramática e então lançou:
— Eu fiquei com o vapor do Caique.
Arregalei os olhos.
— O quê?
Ela segurou o riso.
— Isso mesmo. Com aquele bonitinho lá da contenção. O Douglas. Cê lembra?
— Eu lembro! Moreno, tatuado... com cara de quem tá sempre pronto pra fugir da polícia?
— Esse mesmo.
— Meu Deus, Lara! Você tem noção do surto que o seu irmão teria se descobrisse?
Ela caiu na gargalhada, jogando a cabeça no travesseiro.
— Surto é pouco! Ele ia parar o morro. Acho que até enterrava o cara de cabeça pra baixo.
— Você é muito doida.
— Eu sou livre, miga. Solta. E o Douglas beija bem, viu? Aqueles que sabem pegar de jeito e falar besteira no ouvido...
Eu cobri o rosto com a mão, rindo baixo.
— Chega. Não precisa desse nível de detalhe.
— Ué, você nunca deu uns beijos num cara perigoso?
Fiquei em silêncio por um segundo.
— Não. Nunca dei uns beijos em ninguém, na verdade.
— Você tá brincando.
— Tô falando sério.
Lara se sentou, mais curiosa do que chocada.
— Nem um selinho roubado? Nem um beijo r**m numa festa?
— Nunca tive festa. Nem beijo r**m. Nem bom.
— Ai, Sarah... — ela disse com a voz mais doce, estendendo a mão pra segurar a minha. — Eles não sabem o que tão perdendo. De verdade.
— Ou eu que sou boa em passar despercebida.
— Não. Você que se esconde. Tem diferença.
Fiquei em silêncio.
— Mas um dia... — ela continuou — você ainda vai beijar alguém que faça tudo parecer filme. Alguém que segure sua nuca, olhe na sua boca e faça o mundo parar.
— Você acredita mesmo nessas coisas?
— Acredito. Porque eu já senti.
— Com o Douglas?
— Não. — Ela riu. — O Douglas foi só entretenimento. Eu tô falando de sentimento. Daquele que explode no peito sem pedir licença.
Deitei de lado, de frente pra ela.
— E você acha que isso acontece mesmo? Tipo, com a gente? Com alguém como eu?
Ela olhou sério por um segundo.
— Acontece. Mas você tem que deixar. Tem que parar de fugir.
— Eu não sei se consigo.
— Consegue. E quando acontecer, eu vou ser a primeira a gritar "eu avisei".
Rimos juntas, em voz baixa, como duas meninas dividindo segredos em uma barraca improvisada. Do lado de fora, a casa estava silenciosa. A família dormia. O morro dormia. Só a gente acordada, trocando verdades, medos e sonhos.
Lara fechou os olhos pouco depois, ainda sorrindo.
Mas eu continuei acordada por mais um tempo, olhando pro teto, sentindo o peito estranho. Pensando no que ela disse. Pensando em como um simples olhar podia ser mais perigoso que um beijo.
E pensando em como eu estava começando a notar demais os olhos do irmão dela.
(...)
Acordei no escuro, com a boca seca e o coração acelerado como se tivesse feito algo errado. Demorei uns segundos pra entender onde estava. O teto não era o meu. O travesseiro era mais macio. E não tinha grito nenhum vindo do outro cômodo.
Só silêncio.
O quarto da Lara estava abafado, mesmo com o ventilador ligado. Ela dormia de lado, enrolada no lençol, com o rosto virado pro canto e a respiração lenta. Eu me sentei devagar, sentindo o estômago vazio e a garganta arranhando.
Precisava de água.
Desci os pés no chão com o máximo de cuidado. Não era medo do escuro. Era costume. Em casa, qualquer passo à noite virava motivo. O chão rangendo, a torneira fazendo barulho, até a luz acendendo... tudo podia terminar com tapa. Então meus pés já tinham aprendido a se mover como se não existissem.
Abri a porta com a mão bem devagar, empurrando só o suficiente pra passar. O corredor estava na penumbra, iluminado por um ponto fraco vindo da área externa. Nenhum som. Nenhum movimento. Passei pela escada, pelas portas fechadas dos quartos, e entrei na cozinha com o peito apertado como se estivesse invadindo um território proibido.
Abri a geladeira o mínimo possível, só o bastante pra alcançar a jarra de água. Bebi direto, com a mão firme no copo, e a outra segurando a porta pra não deixar ranger. Uma, duas, três goladas. Só então voltei a respirar direito.
Mas quando fechei a geladeira e me virei pra sair, um cheiro conhecido me atingiu. Forte, denso, inconfundível. Maconha.
Parei e fui até a janela, onde a cortina fina balançava com a brisa. E olhei. A varanda dos fundos estava iluminada por uma luz fraca. Um poste no quintal jogava uma penumbra amarelada sobre as cadeiras encostadas na parede. Ele estava ali.
Caique.
Sentado de lado, uma perna esticada, a outra dobrada, o corpo relaxado. Sem camisa. O cabelo cortado rente, alinhado como sempre. Os músculos dos ombros e braços marcavam cada movimento, mas o rosto estava tranquilo. Uma expressão distante, como se estivesse em outro mundo.
No canto da boca, o cigarro aceso queimava devagar.
Os olhos fixos em nada.
Ele tragou fundo, com calma. Depois soltou a fumaça em silêncio, o rosto levemente virado pro céu.
Não parecia o mesmo homem de antes. O pai, o irmão, o filho. Ali, sozinho, era só um homem quieto, que parecia cansado.
E, por um momento estranho, senti vontade de perguntar o que ele pensava quando ficava daquele jeito. Se era o morro. Se era o filho. Se era alguém.
Ou se era só ele tentando respirar sem peso nas costas.
Fiquei olhando mais do que devia. Mas ele não me viu. Não virou o rosto. Nem se mexeu.
Quando trincou o maxilar e tragou de novo, o peito dele subiu mais forte, como se carregasse algo preso por dentro. Aquilo bastou pra me fazer recuar.
Saí em silêncio, do mesmo jeito que entrei. Sem pressa, sem barulho. Voltei pro quarto com a imagem dele ainda grudada na retina. E quando deitei, sem dizer nada, fechei os olhos com a respiração presa no peito.
Ele não me viu, mas agora eu via ele. De verdade.