9. Sarah

1246 Palavras
Voltamos da cozinha com dois copos de suco gelado e risadas abafadas. Lara fazia piada de tudo, até da forma como eu caminhava com a toalha presa no corpo, tensa como se estivesse carregando um segredo. E, no fundo, eu estava. A diferença era que aquele segredo usava meu próprio nome. — Bora voltar pra água — disse Lara, jogando a toalha na espreguiçadeira. — Acho que vou ficar só aqui mesmo — respondi, sentando na beirada oposta da piscina, os pés dentro d'água, o resto do corpo coberto. Ela mergulhou de volta como se fosse feita de espuma e liberdade. Eu fiquei ali. No canto mais afastado. Observando, tentando ser pequena. Kevin continuava no centro da piscina, fazendo barulho suficiente por três. Caique ainda estava sentado na beira, com os pés mergulhados e os antebraços apoiados nos joelhos. O sol dourava o ombro dele, e o contraste entre a pele marcada pelas tatuagens e a tranquilidade no rosto dava um ar perigoso até naquela calmaria. Eles conversavam, riam baixinho, coisa de pai e filho. Eu me mantinha distante, como sempre fiz. Era mais fácil assim. Mas então Kevin olhou pra mim. — Tia Sarah! Ergui o rosto de leve, surpresa com o chamado. — Oi? — Você sabia que meu pai já brigou com quatro bandidos num dia só? — É mesmo? Kevin assentiu com a cabeça, os olhos brilhando de orgulho. — Ele ganhou de todos. Nem ficou com dodói. Sorri, tentando entrar na brincadeira. — Uau. Um super-herói. — É, mas ele diz que não é herói. Diz que só protege o que é dele. — Faz sentido. Caique permaneceu em silêncio. Mas olhou pra mim. Pela primeira vez naquela tarde, olhou de verdade. E não desviou. Kevin continuou, todo empolgado: — Ele me ensinou a dar soco. Quer ver? — Aqui não, Kevin — Caique avisou. — Mostra outro dia. — Mas só de leve. Ela não vai se machucar. — Acho que vou deixar essa pra depois, campeão — respondi, rindo de leve. — Não tô muito boa pra aula de luta hoje. Kevin nadou até mais perto de mim e se agarrou na borda, me olhando de baixo com um sorriso arteiro. — Você vai entrar de novo? — Não sei... Tá bom aí? — Tá quentinha. Juro. Vem! Antes que eu respondesse, Caique falou, não comigo, mas sem tirar os olhos de mim. — Se não quiser, não entra. Fica tranquila ai. Não havia tom na voz. Nem insistência. Só um peso estranho. Uma espécie de permissão. Lara, lá do outro lado, já estava boiando, fingindo dormir. — Ele só dá ordem pra mim, viu? — disse ela de olhos fechados. — Se ele foi gentil contigo, aproveita. É raro. Caique lançou um olhar fulminante na irmã, mas ela só riu. — Tô falando sério. Se ele dissesse "entra", você pulava agora. Mas ele tá sendo fofo. Fofo, Sarah! Você entende o que isso significa? Fingi que não ouvi. Mas minhas bochechas estavam em fogo. Mesmo sem sol batendo. Kevin me olhou de novo, com um biquinho teimoso. — Você vai entrar? — Daqui a pouco — prometi, baixinho. Ele sorriu satisfeito, como se minha palavra valesse ouro, e voltou a nadar. Caique ainda estava lá. Não disse mais nada. Mas não saiu. Nem desviou o olhar. E eu continuei sentada na borda. Com os pés na água. Com o corpo em silêncio. Mas a cabeça, barulhenta demais. A noite caiu devagar, tingindo o quintal com aquele azul profundo que só existe depois do pôr do sol. As luzes externas se acenderam automaticamente, iluminando a piscina e deixando um brilho suave sobre a água parada. A casa, antes barulhenta, começava a diminuir o ritmo, Kevin já estava enrolado numa toalha enorme, com cheiro de shampoo infantil, e Lara falava sem parar enquanto tentava secar o próprio cabelo. Eu estava sentada na mesa do quintal, ainda com a toalha nos ombros, tomando um copo de suco gelado. O vento da noite era leve, agradável, e naquele momento eu só pensava em como seria a longa descida até minha casa, sozinha, naquele horário. Mariana apareceu na porta da cozinha, secando as mãos no pano de prato. — Sarah, você vai embora agora? — perguntou, com uma calma natural. — Acho que sim... já tá tarde. — Eu coloquei o copo na mesa, meio sem jeito. — Já tá noite, menina. Ficar descendo esse morro agora é pedir pra eu perder o sono. — Ela entrou mais um passo, franzindo a testa como quem nem cogitava a ideia de me deixar ir. — Fica aqui hoje. A cama da Lara aguenta duas, e se não quiser, tem colchão sobrando. Eu abri a boca pra dizer que não precisava, mas ela levantou a mão antes que eu falasse. — Não quero conversa. Vai ficar. Até porque a Lara também não ia deixar você ir embora desse jeito, né? Lara ouviu seu nome e já veio pulando. — Claro que não vou deixar! Tá maluca? Você só sai daqui amanhã. Ontem você sumiu rápido demais. Hoje eu te tranco aqui. — Eu tô bem, gente... — tentei insistir, mas era impossível competir com Lara e Mariana ao mesmo tempo. Mariana cruzou os braços, com aquele olhar de mãe que não aceitava discussão. — Você vai dormir aqui. Eu já até coloquei roupa de cama limpinha no quarto. — Ela falou como se eu já tivesse aceitado. Kevin, com o cabelo ainda úmido e as bochechas rosadas, correu até mim e segurou minha mão com a confiança de quem sempre teve afeto sobrando. — Você fica, tia Sarah? Por favor? Ele olhou pra mim como se qualquer resposta que não fosse "sim" fosse crime. Eu respirei fundo, sentindo meu coração amolecer de um jeito que eu odiava admitir. — Tá bom... eu fico. Lara comemorou alto, levantando os braços como se tivesse marcado um gol. — Aí sim! Vem, vamos tomar banho, separar roupa, fazer skincare, fofocar... — ela começou a listar mil coisas. — Nada de fofoca até tarde, hein — Mariana retrucou, já entrando na cozinha de volta. — E nada de bagunçar meu banheiro com esses cremes caros. — Mãe, a senhora só fala isso porque não experimenta. — Lara riu. Kevin subiu no meu colo sem pedir licença. — Eu durmo aqui também? — Você dorme no seu quarto, Kevin — Caique respondeu da beirada da porta, surgindo silenciosamente, como sempre. Ele tinha o cabelo molhado e a camiseta trocada, o que significava que já tinha tomado banho. — E deixa a Sarah respirar um pouco, vai. O menino fez um bico, mas obedeceu. Caique se aproximou para pegar o filho no colo e, por reflexo, nossas mãos quase se tocaram quando ele segurou Kevin. Quase. Ele tirou primeiro. Eu recuei primeiro. Nenhum dos dois comentou. — Se precisar de alguma coisa, fala com a Lara. Ou com a minha mãe. — Ele disse isso olhando pra mim, mas num tom neutro, quase seco. — A casa é segura. — Eu sei... obrigada — respondi baixo. Ele só assentiu e saiu com Kevin no colo, a toalha pendurada no ombro. Lara me puxou pelo braço com força. — Vamos logo, antes que você mude de ideia e fuja igual ontem. Subi com ela, sentindo o peso do cansaço do dia, mas também algo mais leve, quase confortável. A casa tinha luzes baixas, cheiro de sabonete, vozes ao longe. Era quente. Viva.
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