8. Sarah

1039 Palavras
O quintal era grande, bem cuidado. Tinha um ombrelone, cadeiras de piscina, uma mesinha de apoio com copos e latinhas. Era o tipo de lugar que parecia fora da minha realidade, e, ainda assim, eu estava ali. Kevin veio até mim, com o rosto pingando e os olhos brilhando. — Você vai entrar mesmo? — Acho que sim. — Cê tá com medo da água? — Um pouco. — Pode vir. Eu protejo você. Eu sou quase um tubarão. Sorri. — Então tá bom, seu tubarão. Só não me afoga, hein? Kevin riu e saiu correndo de volta pra água. Tirei a canga devagar, ainda sentindo o rosto queimando mais do que o sol. Entrei pela escadinha da piscina, passo por passo, sentindo a água me abraçar. Era morna, confortável. Diferente do que eu esperava. Lara nadou até mim, flutuando ao meu lado. — Viu? Nem doeu. — Ainda tô esperando a parte divertida. — Vai chegar. Deixa a água tirar um pouco do peso. Fiquei ali, com metade do corpo submerso, observando Kevin rir alto enquanto batia os pés na borda. O som da risada dele era tão sincero que por alguns segundos... eu esqueci que tinha medo de ser vista. Esqueci do corpo. Do biquíni. Dos julgamentos que só eu fazia. Então, ouvi a voz dele. — Kevin, cê vai virar peixe se continuar aí. Caique. Olhei por reflexo, mas abaixei o olhar quase no mesmo instante. Ele estava na varanda, sem camisa, com uma bermuda escura e uma garrafinha de água na mão. Os olhos atentos. Braços cruzados. Postura relaxada, mas olhar atento. Kevin o chamou com a mão: — Pula, papai! Ele apenas negou com a cabeça, com um meio sorriso no canto da boca. — Só tô de olho hoje. — Medroso! — gritou Kevin, provocando. — Realista. Alguém precisa garantir que vocês não façam besteira. Eu não olhei de novo. Não conseguia. Tinha certeza de que ele estava vendo. Tudo. E, por mais que eu tentasse me convencer de que não importava, algo em mim se contorcia com a ideia de estar ali: exposta, vulnerável, enquanto ele me observava daquele jeito calado, impassível. Fiquei na água por mais um tempo, fingindo que estava tudo bem. Mas o coração batia rápido. Como se meu corpo soubesse de algo que minha mente ainda se recusava a entender. A água estava morna, e o sol batia direto no rosto. Kevin nadava de um lado pro outro como se fosse dono da piscina, rindo alto, mergulhando e reaparecendo com os olhos brilhando. Lara flutuava perto dele, dizendo que era uma sereia e que ele não podia encostar nela, porque sereias "viravam bolha se fossem tocadas por pirralhos". Eu estava mais ao canto, encostada na beirada, com a água na altura do peito e o coração tentando desacelerar. O biquíni já não incomodava tanto, mas a sensação de estar exposta ainda grudava na pele. Mesmo assim, havia algo leve naquela tarde, como se, por um momento raro, eu pertencesse a algum lugar. — Cuidado aí, moleque. Vai bater a cabeça na borda. Me virei devagar, com o rosto parcialmente coberto pelo cabelo molhado. Ele estava se aproximando da piscina, com os pés descalços pisando firme no chão de pedra quente. Tinha descido com a mesma roupa de antes: bermuda escura, corpo grande, tatuagens visíveis no braço e no ombro. Tinha uma postura de quem estava ali só pra observar, mas o olhar entregava que ele via tudo. Kevin gritou de onde estava, levantando os dois braços: — Pula, papai! Vem nadar! — Tô só de vigia hoje — ele respondeu, parando na beirada, de braços cruzados. — Ahhhh, medroso! — Medroso nada. Cê não sabe o que eu tô vendo daqui. Esse solzão, essa água... e esse monte de tubarão querendo morder menino pequeno. Kevin riu alto e mergulhou de novo, batendo as pernas. Caique abaixou o olhar só por um segundo, atento. Depois olhou pro lado, pro quintal, pra tudo e então, sem pressa, olhou pra mim. Mas não falou. Não sorriu. Apenas me olhou. Eu engoli em seco e voltei o olhar pro Kevin, como se o mundo se resumisse à criança brincando ali. Fingi que não percebi. Fingi que não me afetou. — Sarah, vira aqui! — Lara gritou, do outro lado da piscina, já com o celular apontado na minha direção. — Vamos tirar uma foto. — Não, Lara. — Agora! Cê tá linda. Não reclama. Ela nadou até mim, se posicionou ao meu lado, e antes que eu conseguisse desviar, já tinha clicado uma, duas, três fotos. — Essa ficou tudo, olha só. — Ela mostrou o celular. Na tela, meu rosto meio virado, o cabelo grudado na bochecha, os olhos quase fechados por causa do sol. Lara do meu lado, sorrindo escandalosamente. — Apaga isso. — Nunca! Vou postar. — Não posta, sério. — Tá, tá. Mas vou guardar. Porque você nunca aparece em nada. E agora tá aqui, viva, com cara de gente que tá começando a respirar. Fiquei quieta. Lara não sabia, mas ela tava certa. Caique continuava ali, sentado agora na beira da piscina, braços apoiados nos joelhos, assistindo o filho brincar. Os olhos escuros se moviam com atenção, mas o corpo estava relaxado. Era como se, ele estivesse presente, não no modo calculista e atento ao perigo, mas ali. Só como pai. E mesmo assim, o jeito como ele olhava carregava o mesmo peso. A mesma intensidade. Como se ele nunca estivesse simplesmente vendo. Mas analisando. Sentindo. Escolhendo o que guardar e o que apagar. Kevin parou no meio da água, ofegante. — Papai, olha eu nadando igual peixe! — Vi. Tá quase virando golfinho. — E você? Vai nadar comigo? — Outro dia, terrorista. Hoje eu só tô garantindo que ninguém te afoga. O menino gargalhou. Eu dei um meio sorriso, involuntário. — Sarah — Lara chamou, já subindo pela borda da piscina. — Vamos pegar suco. Mamãe deixou na geladeira. Assenti, saindo da água atrás dela. Enrolei a toalha no corpo o mais rápido que consegui. Quando passei pela lateral da piscina, senti o olhar. Pesado. Fixo. Não precisei confirmar. Eu sabia. Mas continuei andando. Fingindo que não sentia. Fingindo que não me tremia por dentro.
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