Era fim de tarde quando eu e Lara subimos o morro de novo. O calor do dia já começava a ceder, dando lugar à brisa morna que costumava trazer cheiro de comida de vizinho e som de TV alta pelas janelas abertas.
Lara tagarelava ao meu lado, falando sobre qualquer coisa, um vídeo engraçado, um menino bonito da rua de baixo, o sonho que teve com um cachorro que falava. Eu sorria de vez em quando, só pra não parecer antipática. Mas minha cabeça estava longe.
Desde aquele almoço de domingo, alguma coisa dentro de mim tinha mudado. Ainda era sutil, quase imperceptível, mas existia.
A casa da família dela era diferente de tudo que eu conhecia. Era barulhenta, sim. Bagunçada. Cheia demais. Mas viva. E o pior de tudo: me fazia querer voltar.
Mariana estava no portão quando chegamos. Abriu os braços no mesmo segundo.
— Olha quem voltou! — disse, sorrindo com os olhos.
Recebi o abraço com uma pontinha de vergonha, mas sem recusar. Era estranho ser recebida com tanta naturalidade. Com tanto carinho que não cobrava nada em troca.
— Vai entrar ou vai ficar aí parada? — ela perguntou, já abrindo caminho.
Lara me puxou pela mão e entramos. A casa estava como sempre: cheia de ruído, com cheiro bom vindo da cozinha e a televisão no volume máximo.
Kevin foi o primeiro a aparecer, correndo do corredor com a camiseta do avesso e um tênis de cada cor.
— TIA SARAH! — ele gritou, como se eu fosse o melhor acontecimento do dia.
Ele se jogou no meu colo sem pedir permissão, os bracinhos suados me agarrando pelo pescoço. E ali, por um instante, eu não me senti deslocada.
Sorri de verdade.
— Que saudade, hein, terrorista — disse Lara, bagunçando o cabelo dele.
— Você tá bem, Kevin? — perguntei, ajeitando ele no colo.
— Tô! Fiz cocô que parece um jacaré.
Lara quase se engasgou de tanto rir, e eu não consegui segurar a risada também.
— Que ótimo — comentei, tentando parecer séria.
Ele desceu do meu colo num pulo e correu pro fundo da casa, gritando por Mariana pra contar a novidade escatológica. Ficamos na sala, eu e Lara, jogadas no sofá enquanto ela mexia no celular e falava das mensagens que não queria responder.
Mas então, ouvi o som de passos vindo da escada.
Passos firmes. Calmos. Que eu já tinha aprendido a reconhecer.
Caique.
Desceu com uma toalha no ombro, a camiseta preta colando no corpo por causa do calor. O cabelo ainda úmido. Aquele olhar que nunca vacilava, mesmo quando parecia distante.
Ele entrou na sala e, por reflexo, meus olhos encontraram os dele por um segundo. Só um segundo.
Aquele segundo foi suficiente.
Não pra mim. Mas pra ele. Porque Kevin, que até então corria pela casa gritando "jacaré", parou assim que viu o pai.
— PAPAI!
Correu e se jogou direto no peito do Caique, que o pegou no ar com um só braço, como se fosse leve feito papel.
— E aí, campeão. Já aterrorizou todo mundo hoje?
— Já! E contei do cocô-jacaré!
— Que orgulho. Vai conquistar o mundo com esse talento.
Caique ajeitou Kevin no colo e só então olhou na minha direção. Foi rápido. Direto. Não disse nada. Não sorriu. Mas olhou. Como quem mede. Como quem pensa. Como quem... repara.
E eu?
Fingi não ver.
Voltei os olhos pro celular da Lara, como se fosse interessante o suficiente pra me afundar ali. Mas por dentro, minha pele queimava de estar sob aquele olhar. Não de vergonha. De incômodo. De um desconforto que eu não sabia nomear.
Porque eu sabia quem era Caique.
Sabia o que ele representava.
Sabia o que todos diziam sobre ele.
Mas não sabia explicar por que, toda vez que ele entrava em um ambiente, o ar parecia mudar.
— Vai almoçar, Caique — Mariana disse da cozinha. — Fiz estrogonofe daquele jeito que você gosta.
Ele assentiu e passou pela sala sem mais uma palavra. Kevin ainda grudado no braço. O olhar... ficou em mim por um instante a mais do que deveria.
Quando ele desapareceu na cozinha, minha respiração pareceu voltar ao ritmo normal. Eu me odiei por isso. Porque não era pra eu estar sentindo nada. Porque homens como ele não olham pra garotas como eu. E se olham... é só por um instante.
Só até se cansarem.
Mas uma voz lá no fundo; baixa, teimosa, dizia que com ele, talvez fosse diferente. E isso me assustava mais do que tudo.
O sol batia forte no quintal de trás da casa, refletindo na água limpa da piscina como se provocasse todo mundo lá dentro a sair correndo e se jogar. A casa da família de Lara era bem diferente do que se esperava de um morro.
Eles tinham dinheiro. O tipo de dinheiro que não vinha de herança nem de sorte; vinha de comando, de poder, de respeito que se conquista na marra. E isso incluía uma casa espaçosa, dois andares e um quintal com um piscinão daqueles de deixar muito playboy com inveja.
Eu estava sentada na beirada da cama no quarto da Lara, olhando pra uma peça de roupa que me fazia suar mais do que o calor: um biquíni.
— Não.
— Sim. — Lara respondeu, tirando a blusa e já vestindo o dela sem o menor constrangimento.
— Eu não vou.
— Vai.
— Lara...
— Sarah. — Ela se virou, com as mãos na cintura. — É uma piscina. Você não vai mergulhar em ácido.
— Eu não me sinto à vontade com... isso.
— "Isso" é seu corpo, mana. Você tem peito, b***a, cintura e vergonha na cara. Tá tudo certo.
— Eu não tenho o corpo que... — hesitei.
— Que quem? As meninas do i********:? As que fazem pose com a b***a empinada e filtro na cara? Para. Você tá linda. E você sabe disso.
Balancei a cabeça, sem responder. O coração acelerava como se eu estivesse prestes a me apresentar num palco e a roupa era o figurino errado.
— É só um banho de piscina, Lara.
— É exatamente por isso que você tem que ir. Não é um desfile, nem um interrogatório. É sol, água e meu sobrinho mais fofo do planeta pedindo pra você brincar com ele.
Como se adivinhasse, Kevin apareceu na porta do quarto naquele exato segundo.
— Tia Sarah, você vai nadar? — perguntou, com o cabelo já molhado e a sunguinha torta.
Engoli em seco. Não tinha argumento contra ele.
Minutos depois, eu estava na área da piscina com uma canga enrolada na cintura e os braços cruzados sobre o peito. O biquíni era básico, preto, discreto. Ainda assim, parecia que minha pele inteira estava exposta demais.
Kevin mergulhava e ria, enquanto Lara nadava de um lado pro outro como se estivesse num comercial de verão.
— Vem logo! — ela gritou, jogando água com as mãos.
— Eu tô bem aqui.
— Sarah...
— Só tô me acostumando.