De dois estranhos que m*l se conheciam a algumas horas atrás, para um aparentemente apaixonado casal que divide as tarefas domésticas a relação entre Ethan e Alyssa deu toda uma guinada nos últimos dias. Parecia uma montanha russa. Dentro de poucas os dois dividiram segredos e confidências que nem seus amigos mais próximos sabiam. Se bem que eles tinham isso em comum, os dois não tinham amigos muito próximos. Tal até por isso tenham se submetido a uma situação tão louca como um contrato de relacionamento.
Agora Ethan era um especialista em limpar uma cozinha. Alyssa nunca tinha visto a cozinha de sua casa parecer tão limpa, nem quando a empregada vinha. Ethan também coordenava e supervisionava o trabalho dela, nunca na vida a garota arrumou o próprio quarto e o dos irmãos tantas vezes quanto fez sob a mão do homem perfeccionista.
Ao final do dia a garota estava esgota e o homem cheio de energia.
- Então limpar a casa é sua terapia? – A garota perguntou vendo o entusiasmo de Ethan em procurar mais coisa para limpar.
- O que você quer dizer? – O homem parou encarando o rosto tranquilo e preguiçoso da menina que acariciava um cachorro, languida no sofá e o encarava com profundos olhos avermelhados cheios de significado.
- Todo mundo tem um método de terapia particular – Ela começou a explicar detalhadamente – Terapia nada mais é do que um método singular que te permite relaxar ou colocar para fora emoções contidas. Exemplo: Eu uso cozinhar como terapia particular e a sua deve ser limpeza.
- Entendo
- É claro que o ideal seria você falar com um especialista, mas... – Ela não completou a frase e deixou os pensamentos no ar e deu um sorrisinho maroto e cheio de malicia adolescente – Agora vamos comer!
Alyssa correu para cozinha como uma criança corre para uma árvore de natal e começou a mexer nos aparatos culinários.
- Vem! – A garota chamou Ethan.
- O que vamos fazer? Ainda tem muita comida na geladeira que nos dois não terminaríamos sozinhos nem em um milhão de anos – O homem disse e olhou para a garota com consternação.
- Não vou fazer para comermos... bem nós vamos comer, mas a parte mais divertida não é essa – A menina falou com um brilho no olhar
Capítulo 1 – Chute da came
Muros de pedra n***a circundavam aquela cidade, no alto da noite apenas os ratos podiam ser ouvidos atravessando as ruelas desertas. Aquele era o primeiro dia da semana e por ordem imperial os bordéis deveriam permanecer fechados dando um pequeno respiro para as prostitutas que certamente se cansavam de entreter tantos homens promíscuos e problemáticos.
Caminhando por aquela cidade inevitavelmente chegamos a seu coração, que pulsava vermelho como o dito órgão.
O palácio imperial.
Mas parecia uma cidade na verdade. Proibida para as pessoas comuns e perigosas para seus habitantes e visitantes.
Fora de seus portões de madeira maciça reinava o silêncio, no entanto quando atravessarmos os seus grandes arcos vermelhos e caminharmos por seus silenciosos corredores vamos notar que aquele era o lugar mais movimentado da cidade.
Atiçando os sentidos e caminhando pelos lugares certos nas horas erradas, descobrimos segredos, intrigas e muitos guardas fazendo patrulhas.
Já passava das duas da manhã, e enquanto espiões compartilhavam segredos, amantes trocavam juras de amor, guardas patrulhavam e servos cumpriam ordens indizíveis para seus senhores; no lugar mais seguro e perigoso do palácio em seu coração, o homem que governava sobre todos naquela terra foi expulso de sua cama.
Aquele país era um império e dos grandes. Sua imensidão cobria rios, mares, oceanos, planaltos, planícies, bosques, florestas, desertos e montanhas. Havia grandes cidades, pequenas aldeias, portos lotados e animados, uma classe nobre, plebeus, escravos e servidores públicos. E governando acima dessas milhares de pessoas no conforto de seu palácio, tendo o poder de chamar ventos e chuvas a vontade estava o homem que foi lamentavelmente chutado de sua cama.
O IMPERADOR.
A pessoa que ousou fazer isso com um homem tão poderoso deve querer a morte certamente. Na realidade ela não sabia o que havia feito. A ousada pessoa em questão estava dormindo tranquilamente na cama do dito imperador que não tinha noção alguma ainda do perigo que a espreitava.
E do lado da cama observando atentamente a pessoa enrolada nos lençóis de seda, estavam um imperador, um general e um ministro. Esses dois últimos vejam bem, eles não moravam no palácio. No entanto foram; por falta de palavra melhor; arrastados de suas camas no meio da noite por ordem de seu monarca e levados até os aposentos privados do soberano.
Deve ser ótimo ser imperador, e poder acordar as pessoas no meio da noite, tirá-las de suas camas e levá-las para qualquer lugar e elas não tem o direito de reclamar ou te xingar; ao menos não na sua cara.
Ao general e o ministro só restou então jogar a culpa na pessoa que tirou o monarca da cama e o motivo de estarem naquele local na realidade. Uma garota de cabelos negros, pele branca e péssimos hábitos de sono.
-Isso......majestade?! - Quem falou foi o tal ministro, embora ele não fosse um ministro qualquer e sim o mais importante entre eles, o primeiro-ministro; o conselheiro direto do imperador, e um homem que estava tremendo de frio, pois quando o tiraram de casa não lhe deram tempo nem mesmo de calçar os sapatos ou colocar uma roupa que não fosse um pijama.
Uma rápida observação para dizer que o general se encontrava na mesma situação, apenas não sofria tanto com o frio. Como um homem acostumado com as adversas situações do campo de batalha o clima era o menos importante para ele naquele momento.
Voltando para o imperador, este olhava para si mesmo, em suas vestes reais para dormir e encarava os dois homens de pé ao lado de sua cama; um conceito estranho surgiu em sua mente “festa do pijama”. Ele riu com a ideia, deixando os outros dois confusos. Detalhe, fora a ladra de camas só havia aqueles três ali.
Uma situação bem perigosa para uma garota estar diga-se de passagem.
-Eu estava prestes a dormir quando um...... bem, eu não sei exatamente o que era – O imperador começou a falar, alisando o rosto liso e jovem como se ali existisse uma barba – Enfim, se abriu e dentro da coisa saiu a garota. Do começo ao fim ela ficou dormindo e parece estar em uma espécie de coma. Como não me parecia um assassino eu não chamei os guardas e dada a estranheza da situação os dois foram convocados aqui.
Terminada a explicação, o imperador se sentou tranquilamente em uma mesinha ali perto e se serviu uma xícara de chá, anteriormente preparado por seus servos. Enquanto isso os dois homens ainda parados ao lado da cama analisavam a situação.
O silêncio reinava nos aposentos. Nenhum dos homens parecia que iria quebrá-lo, bem nenhum deles sabia o que fazer naquele tipo de situação.
A atenção do trio foi retomada para a garota na cama que parecia prestes a acordar, pois o farfalhar dos lençóis de seda enquanto a jovem se movia demonstravam sua inquietação no sono.
Em um silêncio tácito os três resolveram esperar a garota acordar, podiam fazer o resto depois.
Capítulo 2 – O dragão e Mulan
Era lindo e assustador.
Ao redor uma escuridão que parecia quase infinita e no meio daquele breu um caminho dourado. Seus olhos doíam de tão cegante que era aquela luz. Em sua mente ela imaginava se aquele não seria a pós vida do qual tanto ouvira falar. No entanto aquele lugar em nada se assemelhava as lendas e contos que ouvira.
Algo naquele rio luminoso lhe atraia, assim que passo a passo ela se aproximava e pode ver pequenos seres estranhos com formatos esquisitos e que pareciam estar lhe chamando.
-Se eu fosse você não iria para lá não - Uma voz cantarolou em seu ouvido lhe tirando da hipnose que parecia ter entrado.
-Ahhhhh – Gritou assustada recuando alguns passos e caindo no que se supôs ser o chão.
-Que barulhenta! - Reclamou o estranho ser parecido com uma cobra, mas ele tinha patas e limpava o que parecia ser seus ouvidos com elas.
-Uma cobra? - Ela questionou incerta – Uma cobra falante!
A coisa olhou para ela em descrença e depois olhou para si mesmo pensado que talvez aquela garota fosse muito i****a.
-Da licença! - Exclamou indignado – Onde que eu pareço com uma cobra? Eu não dô a linguinha!
Mostrando a língua bifurcada a coisa continuou a protestar indignado por ter sido chamado de cobra.
-O que é você? - Ela questionou depois de se acalmar um pouco – E onde nós estamos? Eu estou morta?
Muitas perguntas de uma única vez, a coisa parou e encarou a humana tendo certeza de que ela era uma i****a. Afinal apenas uma i****a faria aquele tipo de pergunta depois de quase ter entrado no rio dos espíritos.
-Eu sou um dragão. Ouviu bem? Um dragão - O tal dragão falou mostrando a calda – E não você não está morta ao menos ainda.
-Como assim ainda?! - A garota gritou atrapalhando o tal dragão.
-Dá pra parar de gritar! - Dessa vez quem gritou foi o animal fazendo a jovem se calar de vez - Você ainda não está morta, mas eu não me importo de te jogar no rio e te mandar pro além!
-Rio? - Confusa a garota virou sua atenção para a luz dourada.
-Não olhe diretamente a menos que queira chegar a tempo do jantar no palácio do deus da morte – O dragão falou olhando as unhas. A humana ficou tão assustada que rapidamente desviou a atenção do rio.
-Como eu vim parar aqui? - Questionou o pequeno ser que agora parecia ser a única fonte de resposta para as suas dúvidas.
-Vamos por partes – Falou o dragão - Primeiro as apresentações; prazer meu nome é Hong Long. Serei o seu espírito guardião e melhor amigo que irá te guiar na sua jornada. Não, você não está morta e estamos na passagem do rio espiritual. Uma espécie de limbo.
Muitas informações e pouco tempo para serem absorvidas. Jornada? Guardião? Limbo?
Mas que infernos! Essas coisas deveriam significar alguma coisa para ela?
Vendo a garota humana na sua frente ficando mais confusa e agitada o dragão suspirou em seu coração. Era sempre assim.
-O seu pedido – Falou vendo a garota se acalmar e começar a prestar atenção nas palavras dele – O seu pedido de ano novo.
Como se atingida por um raio ela finalmente se lembrou.
“Era ano novo e como órfã ela não tinha uma família para qual voltar no feriado e também não tinha amigos íntimos o suficiente para lhe fazer companhia ou mesmo um namorado. Em resumo ela estava sozinha.
Enquanto observava a cidade pintada de vermelho para comemorar mais uma passagem de ano, sozinha em casa ela comia uma tigela de macarrão instantâneo. Quando deu meia noite ela apenas tinha um desejo;
“Se eu conseguir salvar o mundo, não a deixe passar mais um ano novo sozinha”
Depois disso ela foi dormir.”
-Espera! - Ela falou para o dragão - Eu apenas pedi para não passar o próximo ano novo sozinha! Como isso se tornou uma jornada na qual eu precise de um dragão para me guiar?
-Você disse claramente – Hong Limpou a garganta para continuar - “Se eu (no caso você) Conseguir salvar o mundo, não me (no caso você) deixe passar o ano novo sozinha”. Seu pedido foi atendido! - O dragão falou com animação flutuando na frente da garota - Você salva o mundo e não precisa passar o ano novo sozinha nunca mais. Olha que maravilha!
A cabeça dela começou a girar, mas que d***a de pedido foi esse! Se ela soubesse que seria atendida deveria ter pedido um namorado.
-Eu não quis dizer salvar o mundo literalmente – Ela falou por entre os dentes.
-Eu sei – Hong falou levemente – Com esse seu corpo desossado NUNCA que você conseguiria salvar o mundo. Você apenas precisa ajudar uns caras.
-Eu quero voltar para casa! - Ela gritou novamente.
-Fora de cogitação - Hong respondeu fazendo um “x” com as garras – Um pedido atendido não pode ser desfeito. É tipo um contrato. Ou você cumpriu ou você morre, se escolher a segunda opção é só entrar no rio dourado.
-Mas que regra mais i****a é essa? - Questionou pegando o dragão pela nuca – Isso não faz o menor sentido!
-Não precisa fazer sentido! - Devolveu o dragão tentando se soltar - É assim que as coisas são. E olha eu não recomendo ficar aqui por muito tempo não. O limbo é um lugar assustador, se ficar aqui mais tempo logo você será afetada pelo rio. No melhor dos casos será apenas a morte certa, no pior você ficará vagando pela escuridão infinita.
Carrancuda a garota encarou Hong com descrença na história. Aquilo era absurdo demais, se bem que toda aquela situação era absurda. Parecia até que ela estava sonhando......
É isso ela estava sonhando! Apenas não.
-Isso não é um sonho docinho – Falou o dragão ainda preso pela nuca, lendo a expressão de tola esperança da garota.
Ela não ligou. Soltou o dragão de qualquer jeito e fechou os olhos, implorando para acordar. Vendo que isso não deu certo, começou a se estapear e beliscar. Depois de uns cinco minutos fazendo isso soltou um suspiro resignado, sentou-se no chão e começou a chorar como uma criança perdida dos pais.
-Ei! - Chamou a pequena criatura vendo a menina soluçar - Não é necessário esse drama todo. Que tal isso? Você se levanta, nós dois saímos daqui e no caminho eu explico tudo para você.
Ainda soluçando e não vendo muitas opções a garota apenas concordou resignada.
-Como saímos daqui? - Perguntou enxugando as lágrimas com a manga da blusa.
-Segue o fluxo do rio – O dragão apontou na direção que o rio dourado corria – Aproposito, qual é o seu nome docinho de coco?
-Mulan – A garota respondeu ainda fugando e seguindo na direção que foi apontada, com a pequena criatura montada em seu ombro.
-Bem Mulan, vai ser uma longa jornada – Falou com uma espécie de sorriso – Vamos nos dar bem.
A dupla seguiu o fluxo do rio enquanto o dragão paroleava interminavelmente sobre regras, missões, pedidos e contratos.
Em algum ponto do caminho tudo ficou escuro novamente e depois brilhante.
Mulan perdeu a consciência.