O

2283 Palavras
Era um dia quente, não é uma boa idéia tomar um capuchino em um dia tão quente. Se não fosse por causa de seu estômago, teria pedido uma coca cola bem gelada; se bem que talvez fosse melhor pedir uma água. É até mais saudável. A bateria de seu celular havia acabado, enquanto brincava na mesa com um guardanapo, olhava para o garçom, se perguntando se deveria ou não pedir uma água. O pobre rapaz já deveria estar se sentindo incomodado com um olhar tão direto para as suas costas. Já fazia meia hora que estava esperando, e a pessoa com quem ela deveria se encontrar estava atrasado. Teria aula em uma hora e não poderia chegar atrasada, a menos que quisesse ser reprovada novamente na matéria. Estava no limite de sua sagacidade, também estava com calor, ainda teria de escutar uma aula chata por quase duas horas. Ela queria m***r aquela pessoa. Odiava mais do que qualquer coisa atrasos. Por fim resolveu que amaldiçoar seu compromisso atrasado, não lhe seria útil. Estava preste a levantar a mão e pedir para o garçom lhe trazer uma água e a conta quando uma sombra pairou sobre ela. - Senhorita Alyssa? – Levantando o olhar, viu um homem diante de si. Ele ou ao menos a aparência dele, era o tipo dela de beleza masculina ideal. Alto, forte, loiro, olhos azuis, rosto simétrico e barba rala. Totalmente o tipo dela. - Sim... – Se aquela era a pessoa com quem ia se encontrar, aguentar o calor de lascar e a espera infernal, definitivamente havia valido a pena. Conseguiria até aguentar a aula irritante de física moderna à tarde. - Sou Ethan Helder, nos falamos ontem – O tom dele era calmo e educado, um pouco frio, com uma pitada de arrogância. Não era boa em avaliar as pessoas, mas cresceu com uma especialista de Marketing empresarial em casa, então uma ou duas coisas ela sabia. Aquele homem diante dela com toda a certeza não era um cavalheiro. – Me desculpe se eu a deixei esperando, estava em uma reunião que durou mais do que o previsto. - Tudo bem, por favor, sente-se – Falou usando o sorriso educado que usava para todas as pessoas que lhe eram estranhas. Tinha um pouco de fobia social, por isso estava surpresa que ainda não havia saído correndo daquele encontro. Aliás, ter marcado um encontro já esbarrava bastante a sua linha de fundo. Vendo que a garota não tinha mais nada a falar, o homem puxou a cadeira em frente a ela e tomou assento. Avaliou a menina de cima a baixo. Ela tinha a pele branca meio amorenada, cabelos vermelhos e encaracolados, usava óculos e suas roupas eram largas e casuais, até jogadas ele diria. Parecia que ela estava de pijama. Os olhos dela, ele notou, que eram de um castanho meio avermelhado. Ela parecia uma criança. - Fico feliz que concordou em me encontrar aqui. Tenha certeza de que não desperdiçou o seu tempo – Um sorriso elegante se desenhou em seus lábios. Ela não prestou atenção nisso. Estava ocupada com a marca de aliança recém tirada do dedo dele. – Sobre o que eu falei ontem, aqui tem o contrato para que você análise e leia. Caso concorde com a minha proposta, mas tenha algo que queira mudar, basta me avisar. Ela sorriu o mesmo sorriso forçado e educado. Pegando o contrato das mãos dele começou a ler. Os termos eram bons. Era basicamente um emprego de meio período, a carga horária era boa, o salário excelente e os benefícios melhores ainda. Tudo o que tinha que fazer era sentar-se e conversar com ele. Fácil. - Eu considero a sua proposta muito boa senhor Helder – Uma das coisas que aprendera com a mãe era sempre manter o sorriso, independentemente se você estava conversando com alguém um assunto trivial ou se estivesse perto de esfaquear alguém – Mas tenho que perguntar; Há algum motivo para isso? Minha integridade física em algum momento será violada? Um psicólogo não seria melhor já que o senhor apenas quer alguém para conversar? Em nenhum momento o homem se abalou com as perguntas da menina. Ele sabia que ela as faria, estava preparado. Seu objetivo era ser direto. - Sua integridade física em momento algum será violada –Ele sorriu –Está na cláusula dez: Tudo o que fizermos será consensual e caso não seja, a parte culpada deverá ressarcir a parte injuriada. Quanto ao motivo de estar fazendo essa proposta... Sei que isso deve soar louco, mas eu só quero alguém para conversar e não me sinto confortável com um psicólogo que esteja sempre me avaliando. - Entendo-Alyssa não falou depois disso e apenas fez uma feição contemplativa à proposta era muito boa e ela não tinha razões para não aceitar, além do fato de ser uma loucura – Muito bem! Aonde eu assino? O homem sorriu quando indicou um canto no final da última folha, mas em vez de assinar a garota releu o contrato. “Ela parece um pouco maluquinha, mas na verdade é bem prudente”, ele gostou dela. Seria uma ótima parceria. Assinado o contrato Alyssa pegou sua bolsa se preparando para ir embora, quando estava prestes a se despedir o homem falou. - Eu entro em contato para lhe dizer o horário e o local aonde nos encontraremos. Vou lhe passar a conta aonde o dinheiro estará disponível, pode manejá-la da maneira que quiser. –Seu sorriso nunca deixou seu rosto, mas também nunca alcançou seus olhos – Me diga para onde está indo posso lhe deixar lá. Ela apenas o encarou e depois de alguns segundos assentiu em concordância, seguindo-o até o carro lhe disse que estava indo para a faculdade. Sem trocarem mais nenhuma palavra o carro disparou, o silencio nunca os deixou durante o caminho. Enquanto observava o reflexo do homem refletido na janela do carro, Alyssa se lembrou de como foi que acabou naquela situação. Tudo por causa do maldito tédio. Sim, ela assinou um contrato com um homem desconhecido porque estava com tédio. Na verdade, tudo começou na quarta-feira. Capítulo 1 – O problema de não se ter aula na quarta-feira é que você não pode reclamar da aula de quarta-feira. Essa era uma máxima que Alyssa tinha para si. Jogada na cama, com nada além do computador e um monte de livros que deveria estudar ao redor, navegava pela internet sentindo o tédio corromper suas células cerebrais. Deveria estar resolvendo a lista de exercícios que o seu professor de física moderna passou, mas a falta de vontade e o calor a impediam de sequer chegar perto da atividade. Estava no auge do não ter nada para fazer. Sua família havia viajado, seus amigos estavam namorando e seu cachorro estava dormindo. Navegava pela Netflix com preguiça de fazer qualquer maratona de série ou filme, fora seus livros de faculdade que já lera tudo o que estava em sua estante de livros e a já tinha limpado a casa. Chegou ao ponto de procurar um emprego para se livrar do tédio, mas não tivera sorte. Olhando para o teto e sem ter nada que lhe distraísse a hiperativa mente, pegou os fones de ouvido e começou a dançar pelo quarto. Não se importava se iria incomodar o vizinho no andar de baixo, não conseguia ficar quieta e achava que a qualquer momento iria surtar. Dada a pouca resistência física dançar não foi uma medida de longo prazo. Estava cogitando ligar para a sua psicóloga para conversar, se aquele tédio continuasse talvez tivesse uma recaída e realmente tentasse se m***r. Jogada no sofá pegou o celular e resolveu checar o e-mail, talvez seu professor tenha passado um trabalho impossível que ela tenha que se sentar para fazer, mas havia apenas uma mensagem do professor de física moderna lembrando os alunos de resolverem a lista. - d***a! – Essa seria a deixa para ela tomar vergonha na cara e ir estudar, mas ela resolveu cozinhar. A melhor forma de passar o tempo era fazendo bagunça na cozinha. Isso a entreteve por algumas horas e quando notou já eram quase oito da noite, no dia seguinte teria aula, não que isso fosse impedi-la de ficar acordada a noite inteira. Olhou para o bolo, a torta, o sorvete e o pastel que havia terminado de fazer. Perdeu a fome. Depois de limpar a cozinha e guardar a comida, se jogou de novo na cama. Olharam para o computador desligado, os livros jogados, o celular piscando com novas notificações, resolveu tomar banho. Sua pele estava grudenta e suas roupas cheiravam a óleo e desinfetante. Como sempre seu cachorro a acompanhou, ele ia para todo lugar que ela ia, seu fiel amigo e escudeiro. Tomou um banho demorado. A maior parte do tempo levou lavando os longos cabelos encaracolados, já estavam no ponto de cortar. Tinha a mania de passar o sabão três vezes pelo o próprio corpo, talvez estivesse pegando a obsessão por limpeza da mãe. Enfim ficou uma hora no chuveiro e só saiu de lá porque suas mãos haviam começado a enrugar. Colocando os pijamas resolvera se jogar na cama novamente, tendo a companhia de seu cachorro para assistir vídeos aleatórios no you tube. Ficou tanto tempo com a atenção presa no computador, que quando desviaram os olhos sua cabeça latejava como se tivesse sido amassada por uma marreta. Estava preste a ir dormir quando um comercial chama sua atenção. Já vira aquele comercial várias vezes. Era uma empresa que conectava garotas que queriam ser mantidas por homens ricos, com homens ricos. Uma premissa bem interessante para um site de relacionamentos. Tirando o remédio para dor de cabeça do armário, se viu tentada a entrar naquele site, seu sono tinha até ido embora. Levou quase meia hora apenas para escolher as fotos que colocaria no perfil. Não estava em busca de relacionamentos com ninguém, apenas queria m***r o tédio. Deu like em alguns homens e mulheres que achou interessante e ficou navegando pelo site, para a sua surpresa, alguém que ela não havia dado like começou uma conversa com ela. O perfil da pessoa apenas tinha uma foto e mesmo assim não dava para ver direito a aparência do homem na foto, as informações eram escassas e a única coisa que parecia ter sido preenchida era o nome. Ethan. Lembrando disso agora Alyssa não conseguiu conter o pequeno sorrisinho que apareceu no seu rosto. Um gesto que não escapou despercebido pelo homem no volante. A conversa deles começou com o típico “oi”, “tudo bem?” e em algum momento se desenrolou para eles firmarem um contrato. Ele ofereceu vinte mil para ela virar sua “assistente”, esse cargo incluía moradia, um carro, auxílio doença, alimentação e seguro desemprego além de aposentadoria. Qualquer maluco aceitaria. As funções da chamada “assistente” eram simples. Acompanhe seu chefe para conversar, beber, comer e às vezes trabalhar. Alyssa nunca foi uma garota que batia muito bem da cabeça. Seu maior defeito era que ela muitas vezes não tinha noção de perigo e mesmo que tivesse não tinha medo. Com uma personalidade tão irreverente é claro que ela aceitaria a proposta de se encontrar com um homem totalmente desconhecido que lhe oferecera um acordo totalmente absurdo. - Chegamos – De volta ao carro, a voz melodiosa do homem ao seu lado, tira a garota de suas recordações. Ela vira e encara o belo espécime masculino ao seu lado com uma expressão um pouco aérea, como se estivesse com dificuldades de se situar na realidade. Ethan não consegue deixar de rir da confusão da menina. – Você não tem que ir para a aula? - Ah, sim! Obrigada pela carona – Alyssa corou um pouco, enquanto tentava se situar de volta na terra. Pegando sua mochila e assentindo em agradecimento ao homem novamente pela carona, saiu do carro de maneira desajeita, quase tropeçando na porta quando saíra. Uma completa desastrada. Com o rosto queimando de vergonha, a garota saiu correndo para a universidade, esbarrando em algumas pessoas no caminho, mesmo assim sem interromper seus passos. Dentro do carro, o homem via a menina se afastar, ele se sentia um pouco engraçado. Dando partida na Mercedes preta, ele seguiu em direção ao centro da cidade. Fazia pouco mais de seis meses que Ethan vivia ali. Por causa do trabalho não tinha uma moradia fixa e muito menos um lugar que pudesse chamar de lar. A ironia é que tinha muitas casas, mais do que um homem realmente pudesse precisar. Era um homem de negócios e apesar de nunca ter desejado ser, era bom no que fazia. Ainda não sabia direito o que o tinha feito entrar naquele site ou fazer aquela proposta absurda a garota, mas algo lhe dizia que seria uma relação interessante. Apesar do trânsito h******l, conseguiu chegar à empresa em apenas meia hora. Saíra no horário de almoço, logo após sua reunião da manhã, não teve tempo de comer nada. Assim que chegou a seu escritório, no topo do prédio mais alto do centro, ligou para o seu secretário, lhe mandando levar algo para que ele pudesse comer. Sentado em sua cadeira de couro, atrás de uma mesa de carvalho nobre, Ethan tirou o celular e ficou a reler a conversa da noite anterior, se recordou dos acontecimentos recentes e fez uma nota mental, para mandar seu secretário organizar as coisas depois. Um som de mensagem chamou sua atenção, fazendo com que ele largasse o celular e voltasse para sua jornada de trabalho. Nesse meio tempo seu secretário entrou e saiu de seu escritório para deixar seu almoço, mas estava 
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR