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911 Palavras
Não poderia dizer que havia dormido naquela noite. Meu corpo até repousara por algumas horas, mas minha mente permaneceu desperta, repassando cada palavra, cada olhar, cada crueldade dita por Rebeca. O que ela falou me chocou mais do que eu imaginava ser possível. E o que doeu não foi apenas o tom agressivo, mas a certeza de que aquelas palavras haviam sido guardadas por anos, esperando o momento certo para serem lançadas contra mim. Desde sempre ouvi o quanto ela me odiava por eu ser a filha da mulher que destruiu o casamento dos pais dela. Eu aceitava isso em silêncio. Mas nunca imaginei que fosse capaz de me empurrar contra uma parede, de cravar as unhas na minha pele, de me ferir como fez na noite anterior. Nunca me senti confortável com essa história. Ainda assim, eu não era culpada. Não pedi para nascer. Não escolhi ser o resultado de uma confusão adulta, m*l resolvida. Quando Elisabete engravidou de Dominic, eles já eram casados. Mesmo assim, eu entendia: para uma criança ferida, ver o pai reconstruir a vida com a amante e ainda ter uma filha devia ser devastador. Ainda mais quando sua mãe afundou em uma depressão silenciosa. Eu jamais brigaria com Rebeca por dinheiro ou herança. Nunca me importei com isso. Estava disposta a trabalhar, a alugar um pequeno apartamento, a recomeçar. Não tenho medo de arregaçar as mangas. Sempre soube seguir em frente. O que eu queria… era apenas uma lembrança. Por isso levei comigo a pequena caixa de música. Dentro dela, uma bailarina delicada girava ao som de uma melodia suave. Era um presente do meu pai. Sempre que não conseguia dormir, eu a abria, fechava os olhos e lembrava dos dias em que ainda éramos felizes. Agora, eu estava sozinha. Mais do que nunca. Sem casa, sem pais, sem um lugar que me oferecesse segurança. Quando o dia clareou, decidi sair cedo do pequeno apartamento onde Eva morava com o namorado. Não queria incomodar. Já bastava o caos da minha vida. Além disso, o relacionamento dela com Davi era instável demais — um dia juntos, no outro separados. A ida à boate fora só uma tentativa desesperada de provocar ciúmes. E funcionara. Saí sem saber para onde ir. Não tinha cabeça para a faculdade. Precisava pensar, respirar, entender o que faria a partir daquele momento. Foi quando virei a esquina. Anthony estava ali. Encostado em sua moto, vestia uma jaqueta de couro preta, óculos escuros escondendo o olhar. Parecia uma visão fora de lugar — e, ao mesmo tempo, exatamente onde eu precisava que estivesse. Meu coração disparou. Ele tinha o estranho hábito de surgir nos momentos em que eu mais precisava. E, daquela vez, usando roupas casuais, despojadas, parecia ainda mais imponente. Um deus grego moderno, perigoso demais para ser real. Anthony guardou o celular no bolso antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa, como se soubesse que eu estava ali. Caminhou em minha direção com passos firmes. Apesar das coincidências inquietantes, senti-me segura ao seu lado. Depois da bronca na boate, não havíamos mais nos falado. E, depois do que acontecera com Becca, eu realmente não achava que ele ainda quisesse manter proximidade comigo. Aproximei-me com cautela. A cada passo, sentia o rosto queimar. Era inevitável. Bastava estar diante dele para que meu corpo reagisse, traindo pensamentos que eu tentava ignorar. Anthony me analisou dos pés à cabeça, como sempre fazia. Aquilo me deixava ainda mais consciente de mim mesma. — O que você faz aqui, Anthy? — perguntei, incapaz de esconder o nervosismo. — A Rebeca falou com você? Ele estava sério. Tenso. Havia raiva em seus olhos azuis — não sabia se dirigida a mim ou à situação. Anthony sempre fora grande demais para os espaços que ocupava. Alto, forte, dominante. Às vezes, perto dele, eu me sentia pequena demais. — Não falei com Rebeca — respondeu. — Meredith me ligou. Estava preocupada. Muito preocupada. Antes que eu pudesse reagir, ele me puxou para um abraço. O mundo pareceu desaparecer. Seu corpo quente, firme, me envolveu por completo. O perfume que ele usava me deixou tonta. Meu coração acelerou, minha mente se apagou. Estar tão perto fazia meu corpo reagir de um jeito que eu não compreendia — ou não queria compreender. Anthony sempre soube como me desmontar. O medo era que ele percebesse o turbilhão que existia dentro de mim. Quando me dei conta de onde estávamos, afastei-me rapidamente. Não apenas pelas pessoas ao redor, mas porque eu não confiava nas minhas próprias sensações. — Estou bem — apressei-me em dizer. — Fiquei na casa da Eva. Ainda não sei o que vou fazer, mas vou me virar. Posso trabalhar. Não preciso da Rebeca. Não preciso do dinheiro dela. Eu precisava acreditar nisso. Anthony me encarou por alguns segundos. — Você ainda vai me contar tudo o que ela fez — disse, com uma autoridade que me fez engolir em seco. — Mas agora você vem comigo. Pegue suas coisas. Aquilo não foi um pedido. — Para onde vamos? — perguntei, surpresa. — Eu posso resolver sozinha… Ele estreitou o olhar, silenciando qualquer argumento antes mesmo de nascer. — Você vem comigo, Ellen. — Sua voz era firme. — Sem objeções. Parte de mim se sentiu aliviada. Outra parte, inquieta. Anthony sempre conseguia me fazer ceder. Sempre assumia o controle. — Tudo bem… — sussurrei, sabendo que já tinha perdido. E, talvez, sabendo também que não queria vencer aquela disputa.
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