Seguimos pelo corredor indo para o andar de baixo a passos longos, descemos as escadas correndo. Havíamos pegado algumas coisas em nossas bolsas, apenas o necessário para a viagem de carro. Assim como meu pai informara à minha irmã, a viagem de carro não duraria menos de três horas.
Assim que chegamos ao andar de baixo, meu pai esperava por nós no corredor entre a sala de estar e a entrada da mansão. Seu rosto mesclava preocupação e tristeza, era eminente que ele não tinha escolhas ou opções, a situação lá fora estava tomando proporções maiores do que ele poderia resolver ou controlar.
— Minhas filhas... — Ele nos traz até ele, dando-nos um forte abraço e beijo em nossas cabeças. — Vocês sabem que o pai ama vocês mais do que tudo nesse mundo, não sabem?
— Claro que sabemos, Papa — falo baixo, com a voz abafada, meu rosto estava contra seu peito direito e naquele momento sabia que não teria orgulho ou mágoa que me fizesse agir diferente.
— E por que não pode ir conosco? — Sue levanta seu rosto, encarando-o nos olhos; ambos estavam com os olhos cheios d’água.
— Antes mesmo de perceberem, eu estarei com vocês. Mas antes de tudo, tenho que garantir que meus bens mais preciosos estejam longe de toda bagunça e caos que está rolando. — Ele nos coloca à frente dele e fala, intercalando olhares entre nós duas: — Apenas prometam que irão cuidar uma da outra até o papai chegar, ok?
Não consigo encontrar forças ou voz para responder e apenas afirmo que sim com a cabeça. Minha vontade era de gritar e chorar, abraçá-lo mais forte que tudo e falar que não iríamos sair dali e do lado dele por nada, não queria perder meu pai também, mas eu apenas travei.
— Tudo bem, sabe que a Snowzinha é a mente e eu sou a força, somos a dupla perfeita. — Sue olha para mim, colocando sua mão em meu ombro, arrancando de meu pai um sorriso.
— Eu sei, querida. Criei pequenas princesas guerreiras. Agora precisam ir. — Ele vai para trás de nós, colocando suas mãos em nossos ombros, caminhando conosco até a garagem.
Nossos passos ecoavam sobre o piso de madeira encerada, visualizo os quadros nas paredes do grande corredor com fotos de nossos familiares, enquanto escutava do lado de fora o barulho dos seguranças e sistema de segurança disparando contra seja lá o que fosse adentrando o terreno de nossa casa. Estava preocupada com as consequências que tal caos poderia nos trazer futuramente, uma preocupação que naquele momento não sabia o porquê, mas há poucas horas faria completo sentido. Não demora muito e chegamos até a garagem, um espaço amplo com os mais diversos carros que ele colecionava e usava para sair, dependendo da ocasião. Do lado de fora, os seguranças lutavam com andrignos. Logo quando surgiram, não sabíamos como eram suas aparências, como atacavam e como lidar com eles, mas depois com o tempo soubemos que era a mutação da infecção dos andarilhos nos animais mordidos ou que tiveram contato com as toxinas deles, porém, havia muitas variações nessa transformação. Meu pai aperta o passo junto a nós, levando-nos em direção a um dos carros blindados com vidros escuros e no formato mais quadrado e robusto dali.
— Entrem, meninas. — Meu pai abre a porta do carro para mim e minha irmã entrarmos rapidamente; ambas olhamos com receio para ele, demonstrando preocupação em nosso olhar. — Rápido, meninas. — Ele fecha a porta e fala brevemente conosco, abaixo o vidro do meu lado, olhando em seus olhos, sentindo seus sentimentos através de palavras e gestos. Ele toca sobre minha mão, que estava à mostra na janela do carro. — Não me olhem assim, meninas. Ter que deixá-las ir dói mais em mim do que parece.
— Então vem conosco. — Sue aparece atrás de mim, pedindo a ele com uma voz meiga.
Ele olha em direção ao barulho da porta da garagem que levava à mansão, rapidamente olha para nós, cogitando o que minha irmã havia falado, porém, estava decidido no que faria.
— Primeiro vocês, querida. Já disse que a segurança de vocês em primeiro lugar — Assim que ele disse aquilo, um estrondo é ouvido da direção da porta. Meu pai se vira, olhando abismado para as três criaturas que saíam dali. Ele bate com a mão na porta. — VÃO! — Ele dá a ordem ao motorista, que dá partida no carro.
— PAI! — Sue grita, preocupada. O carro sai da garagem, vemos as criaturas vindo correndo em direção a meu pai e mais dois seguranças que atiravam na direção deles; o motorista fecha a minha janela. Eu e Sue nos viramos, olhando pelo vidro traseiro a cena: uma daquelas coisas ataca um dos seguranças no pescoço, abocanhando e arrancando a cabeça do pescoço, mesmo após ter levado dois tiros em seu corpo, de nada adiantara.
— PARA O CARRO AGORA! — Sue grita histericamente, chorando inconformada ao ver nosso pai sendo encurralado por aquelas coisas, sendo que ele tinha chance de se salvar ali conosco. — Precisamos pegar o Papa.
— Desculpe, senhorita, não posso dar ouvidos a suas ordens. Seu pai foi muito claro comigo — o motorista a responde, de forma fria e automática.
— m***a, m***a, MERDA... — Sue esbraveja, voltando a olhar junto a mim até perdermos a visão da garagem e mansão. Podem me julgar, eu deveria fazer algo assim como ela, mas nunca fui a melhor das pessoas, nunca soube como canalizar e lidar com sentimentos e emoções, eles me confundiam, ou nunca soube para que eles serviam e em que momento era certo demonstrá-los.
— d***a! — esbraveja o motorista. — Meninas, se segurem. — Olhamos brevemente para frente, vendo várias daquelas coisas que se alimentavam dos corpos dos seguranças mortos sobre o gramado focando em nosso veículo, que passava pelas proximidades de onde elas estavam. O sistema de segurança fora destruído por aquelas coisas, sendo tomado pelas chamas que clareavam o local junto a luz do luar, a fumaça saindo dos equipamentos dava um tom de caos e destruição ao gramado tingido pelo vermelho do sangue derramado das vítimas, o cenário de horror estava instalado em nossa mansão.
Elas começam a correr na direção lateral do carro; nosso motorista acelera, desviando das que vinham à frente. O carro balança de um lado para o outro de modo brusco, agarramos nos bancos, segurando-nos. Se aquelas coisas grudassem no carro ou pneus, seria nosso fim.
— Snow — Sue me chama, alertando-me de que algo estava acontecendo lá fora. Retomo a olhar, mesmo com os movimentos do veículo, tendo a visão de nosso pai, ferido pelas criaturas as quais derrotara de alguma forma na garagem, apontando suas duas mãos na direção das criaturas que cercavam nosso veículo. Sentimos um tremor no veículo quando ele toca o solo; nas laterais por onde o carro passava, raízes grossas eram erguidas debaixo do solo, perfurando as criaturas e as erguendo ao alto. Meu pai estava limpando pouco a pouco o caminho e eliminando aquelas coisas, porém ele estava focando apenas nas que estavam cercando a nós, esquecendo dos seguranças mortos que se erguiam, alguns com os restos do que sobraram de seus corpos, outros com sua genética e feição transformada pouco a pouco. Meu pai é pego de surpresa enquanto lutava e tentava escapar, defendendo-se dos ataques daquelas várias criaturas.
“Eu amo vocês eternamente, minhas pequenas” — Leio em seus lábios suas últimas palavras, ao invés de demonstrar medo, pânico e tristeza. Ele estava sorrindo como um bobo, talvez por ter cumprido seu último desejo que era nos proteger e nos manter seguras enquanto fugíamos da mansão.
Puxo minha irmã, que ficou paralisada ao ver nosso pai sendo cercado e devorado por um grupo daquelas criaturas. Puxo ela próxima a mim, abraçando-a e ainda tentando entender como tudo havia começado, em que momento não percebemos a situação e sua gravidade, como chegou a tal ponto e apenas nos damos conta quando tudo havia sido tomado e fora de controle. Minha irmã encosta com seu rosto em meu peito, sinto suas lágrimas molhando o tecido fino de meu vestido, enquanto suas mãos apertavam o tecido na região de meu abdômen. Pela primeira vez ela se calou, porém não queria que fosse por um motivo que também me entristecesse.
“Irei cuidar dela, papai, custe o que custar” — penso, determinada comigo mesma, deixando uma lágrima escorrer de meu olho esquerdo, enquanto fitava a nova realidade pelo vidro do carro.
Por todo o trajeto que o carro fazia e passava rapidamente a cena era a mesma: morte desenfreada, aquelas criaturas espalhando sua doença e caos, o terror nas ruas e rosto de quem lutava contra elas e tentava sobreviver, era doloroso e h******l demais de se presenciar e nada poder fazer. Nem mesmo as autoridades estavam dando conta da quantidade nas ruas e do tanto de chamados, era cada um por si, não havia policiais ou pessoas com a vacina para poder ajudar os que precisavam e não sabiam como se defender. Tal doença se alastrou rapidamente, criando o maior número de vítimas e daquelas coisas, não havia outra resposta para meu questionamento e raciocínio.
Sinto meu celular vibrar e uma notificação do grupo que se chamava “Elementarys”. Desbloqueio ele e vejo a mensagem que recebemos; na verdade era uma notícia, mas não das melhores.
A cidade será evacuada. Enquanto não souberem o que ocorreu, a mesma será mantida em quarentena. Eles estão falando para todos permanecerem trancados em suas casas. Uma separação de infectados e não infectados será feita para não agravar o caso e o vírus se espalhar.
A tentativa de conter a infecção era tão ridícula que o governo queria controlar algo que já estava fora de controle e tinha dizimado metade da população da cidade de Atlanta. Tal ação só contribuiu para deixar as pessoas mais confusas e em pânico, ajudando o vírus a se espalhar e a situação a se agravar ainda mais.
Estávamos seguindo para a via principal, onde estava um trânsito terrível; e não era para menos, apenas um louco iria obedecer a tal regra imposta pelo governo. Antes mesmo do nosso veículo chegar às vias com trânsito da ponte intermunicipal, somos atingidos em cheio por um caminhão repleto de andarilhos grudados em suas laterais. O motorista do caminhão estava sendo atacado por vários deles; creio eu que o mesmo iria se tornar um em questão de poucos minutos.
Nosso carro girou por três minutos devido ao impacto, por pouco não caímos no rio abaixo da ponte. Minha irmã e eu estávamos ilesas, mas nosso veículo ficou de cabeça para baixo e nossos corpos presos ao cinto de segurança.
O motorista de nosso veículo aparentava estar desacordado e com um pequeno corte em sua testa, o segurança no banco do passageiro logo se solta do cinto e se vira, olhando para nós.
— As senhoritas estão bem?
— Na medida do possível — respondo brevemente para ele, em um tom levemente irônico.
— Mantenham a calma, irei ajudá-las a se soltarem. — Ele estava tentando nos manter calmas, mas a gritaria e caos lá fora não contribuía muito para que nossos conscientes ficassem em paz. Olho para a janela, agora aos pedaços, e vejo pessoas correndo desesperadamente, barulhos de tiros vindos de mais à frente da ponte e a voz do prefeito da cidade falando. Era o próprio cenário do fim dos tempos instalado naquele momento.
— Retornem às suas casas, não piorem a situação. Não queremos ser obrigados a disparar contra nossa amada população — a voz rouca e irritante daquele homem ecoava por todo aquele momento.
Nosso segurança se solta de seu cinto, vejo como ele fez e enquanto ele chuta a sua porta, levemente emperrada, faço o mesmo comigo. Caio levemente contra o teto [GB4] [dy5] [dy6] do carro que estava capotado de cabeça para baixo, surpreendendo minha irmã.
— Como fez isso? – Sue estava com um semblante de surpresa.
— Vendo como ele fez. – Sorrio sem jeito comentando com ela.
— Impressionante, Snowzinha. – Ela lança uma piscadela para mim.
— Táticas de sobrevivência, agora me ajude aí para não levar um tombo daqueles — falo, olhando em seus olhos. Ela afirma que entendeu, começo a soltar ela de seu cinto rapidamente. Antes de ela cair ao chão, o segurança abre de modo brusco a porta do lado em que eu estava; o barulho dele ao abrir foi alto, não era para menos, pois foi o lado atingido pelo caminhão.
Enquanto nos colocávamos de pé do lado de fora, começávamos a ter noção da proporção do que estava acontecendo. Começo a olhar lentamente a minha volta, ignorando todo o barulho e gritaria. A visão que tinha dava um choque de realidade em minha mente, o grau da situação.
— Se afastem do carro, senhoritas — ele fala alto, enquanto caminha à frente, fazendo sinal para o seguirmos. O cheiro forte da gasolina que escorria aos cantos do carro começava a se espalhar pelo asfalto próximo.
— Mas e o motorista? — Sue o questiona. Nosso segurança vai até a janela do lado do motorista, abaixando-se rapidamente. Vejo ele tocar com seus dedos na região do pescoço do homem, ele resmunga e se levanta rapidamente.
— Ele está morto. Agora precisamos ir...
— Isso só pode ser um pesadelo — Sue comenta, enquanto começamos a seguir ele. O homem parecia estar pensando a todo momento como iria nos proteger em meio àquela situação.
— ANDEM... — Apertamos o passo e, quando estávamos a poucos metros distante do veículo, correndo em meio à multidão, escutamos o forte barulho da explosão do veículo. Gritos são escutados da nossa antiga localização, pessoas passam por nós, esbarrando na gente, gritando, algumas em pânico, tornando aquele cenário um dos piores que eu já presenciei nesse tempo de vida.
Não demorou muito e vários andarilhos que estavam presos ao caminhão começaram a atacar as pessoas e aos carros que foram atingidos e que ali estavam. Seguíamos correndo junto ao segurança, que atirava com uma mira precisa nos andarilhos que vinham em nossa direção. Por onde eu passava era notável o desespero das pessoas correndo e empurrando umas às outras no alvoroço e desespero de protegerem a si mesmas, sem se importar com o próximo.
Nosso segurança é atacado inesperadamente por um andarilho, que morde sua jugular. O sangue da mordida em seu pescoço voa sobre meu rosto e de minha irmã mais nova, que grita, e um grupo de pessoas passa correndo por nós, empurrando-nos para a parte quebrada da mureta da ponte.
Em meio ao desequilíbrio, acabamos caindo em queda livre. Caímos rumo ao rio abaixo da ponte, abraço minha irmã e afundamos de imediato na água fria e escura, em meio aos carros que ali caíram. Algumas pessoas nadavam para sair dali, devido aos poucos andarilhos que ali estavam a atacar. Não afundamos muito, logo, nadamos o mais rápido para chegar à superfície, não muito distante de nossa localização.
Sue dominava o elemento água e logo ela cria um pequeno redemoinho à nossa volta, impossibilitando os andarilhos que ali se encontravam de se aproximarem de nós. Elogio ela assim que chegamos à superfície:
— Ótima ideia, Sue. Vejo que está dominando seu elemento com exatidão.
Enquanto seguíamos nosso caminho até as terras firmes, vemos um carro conhecido por nós. Deparo-me com a situação de dois garotos em apuros, um de seus rostos muito conhecido por mim, falo baixo e Sue me escuta, reparando em meu rosto uma expressão de preocupação.
— Não pode ser.
Sue logo percebe de quem se trata e fala, apontando em direção ao veículo, que estava por ficar submerso por completo:
— Não é o garoto que você quase queimou hoje mais cedo, maninha?
Dan havia saído do carro, mas parecia que seu irmão estava preso ao cinto. O carro estava afundando e dois andarilhos estavam indo em sua direção enquanto ele tentava soltar o cinto do motorista. Ele nem notara o perigo que corria pelo desespero em tentar salvar seu irmão desacordado.
Sue vira para mim e diz, tomando uma decisão repentina e meio suicida no momento:
— Precisamos ajudar eles, Snow.
— E desde quando nos preocupamos com estranhos, Sue? — Tento parecer séria e fazer ela desistir daquela ideia i****a de botar nossas vidas em risco.
— E desde quando fugimos do perigo, irmã? E eles não são estranhos, tanto que sei que um deles ali é seu “crush” — Ela faz aspas com as mãos. Fico levemente corada e não retruco mais. Ela dá uma risadinha e logo falo baixo, retomando consciência da situação delicada em que estávamos:
— Tudo bem, mas se as coisas ficarem feias, iremos nos colocar em primeiro lugar, sem se importar com ninguém, está bem? — digo, de forma séria, mostrando que não hesitaria em deixar eles para trás. Minha única preocupação era manter nós duas seguras.
Ela afirma com a cabeça que entendeu, logo me diz o que tem em mente de modo rápido e fácil de compreender:
— Acho que o bobo lá esqueceu que possui o elemento fogo, ele pode esquentar suas mãos e queimar o cinto. Fora que ele não está atento aos perigos em volta e se deixou levar pelo sentimento de preocupação. No fim, não fazendo nada. — Ela suspira e logo prossegue: — O que tenho em mente é o seguinte: eu consigo afastar os bichos com meu elemento, jogando-os longe. Você o ajuda, já que ambos têm fogo e tiram o outro garoto do carro. Depois protejo nós em redemoinhos, impossibilitando aquelas coisas de chegarem próximos de nós na água, até chegarmos em terra. Depois que chegarmos em terra, ferrou.
Ela dá uma risadinha assim que termina de falar, mostrando um olhar confiante.
— Tudo bem, então. — Suspiro e seguimos em direção à água novamente, indo em direção ao veículo que estava submerso.
Eu queria parar ela naquele momento. Devíamos nos preocupar só uma com a outra, mas algo não me parou naquele momento e nem eu quis tentar impedi-la.
Seria o sentimento de compaixão pelo próximo o qual eu prometi a mim mesma não ter desde a partida de minha mãe?
Mas m*l eu sabia que a decisão que minha irmã tomara naquela noite maldita me salvaria, num futuro não tão distante.