O mundo não é mais o mesmo

2069 Palavras
Snow Flubell   Horas Antes do surto de Andarilhos   Não esperava vê-lo na X-Bios, foi uma surpresa para mim, tanto que não sabia como reagir, espero não ter agido como uma ridícula. Adentro o carro, despedindo-me de Dan, após me desculpar com ele por quase tê-lo atingido com minhas chamas. Provavelmente o lesado não se lembrava de mim, a julgar pela forma como ele me olhara, chega a ser cômico esse lado avoado dele junto ao meu atrapalhado. Era uma vergonha a qual eu havia acabado de passar, já caindo e quase incendiando um colega/crush de meu colégio. Dou uma última olhada, observando-o entrando no carro junto a seus familiares; faço o mesmo, entrando junto com Sue no carro do nosso pai, juntando-me à minha irmã e seguranças. O carro sai do estacionamento pouco iluminado, indo em direção às ruas de Atlanta. Sentada sobre o banco de couro do carro bem confortável e vendo que nenhum diálogo, como sempre, partiria de meu pai, que estava bem ocupado com uma ligação de sua empresa, viro meu rosto, olhando para minha irmã ao meu lado, que criava pequenas esferas de água testando seu elemento. Ela estava se divertindo bastante, penso comigo que não seria prudente atrapalhar ela. Então, retiro do bolso de meu casaco meu aparelho celular junto aos fones de ouvido, colocando-os enquanto olho para o lado de fora da X-Bios e vejo que a fila de populares que estavam por receber a vacina estava diminuindo gradativamente. Abaixo o vidro da janela, deixando o ar frio do cair da noite vir ao encontro do meu rosto pálido, uma sensação que eu gostava de sentir. Ao menos era uma das coisas a qual eu ainda sentia, a breve sensação de paz e calma com meu eu interior. Com os fones em meus ouvidos, acesso minha lista de reprodução de músicas para se ouvir durante um passeio de carro, o aleatório começa a tocar a música de uma de minhas bandas favoritas: Paramore - Now. Começo a escutar a música, apenas curtindo o ritmo e cantando baixo enquanto começo a conversar com um grupo de pessoas que havia recebido a dose do soro elementar, e começam a falar algumas coisas como: efeitos, duração, como funcionam e outras coisas. Não possui efeitos colaterais, o máximo que senti é o líquido do soro queimando por dentro de meu corpo, em uma questão de minutos você já desperta seu poder elementar, que varia de acordo com o seu tipo sanguíneo. O teste que vi foi de um Youtuber que possui o poder terra. No vídeo, ele usou sem pausas e teve uma durabilidade de três horas seguidas, mas acho que é boato. O meu durou mísera uma hora, tenho certeza de que ele foi comprado pela empresa para soltar essa baboseira. Não existem segredos quanto ao uso do poder, imagine e crie, ele pode mudar a forma e a quantidade emanada de poder dependendo das emoções do portador e seus pensamentos. Estava cansada já de ler e evitaria usar o máximo possível de meu poder enquanto não treinasse e dominasse por completo ele. Afinal de contas, eu portava fogo, poderia causar um caos com uma pequena faísca ou chama. Chegando em nossa casa, caminho lentamente em direção às escadas que levam ao dormitório. Sou pega de surpresa ao sentir o toque das mãos de meu pai segurarem minha mão e pedir, com um gesto, para eu retirar meus fones de ouvido. Viro-me, descendo o único degrau que eu havia subido e retiro com a mão esquerda, puxando para baixo os fones, que saem de meus ouvidos caindo e batendo em minhas coxas. Começo a enrolar eles de qualquer jeito com a mão direta. Assim que ele me solta, olho para ele, esperando o que teria a falar comigo. — Pode falar. — Meu tom é suave ao falar e noto que ele estava olhando em meus olhos. — Nada demais, querida. Peço que tome seu banho e desça para se juntar a nós no jantar. Não demore ou se atrase, por favor. — Ele é objetivo e parecia querer nos ter junto a ele naquela noite, diferente dos demais dias. Não compreendia o porquê daquilo, porém apenas afirmo com a cabeça que tudo bem. — Tudo bem. — Sou breve em minhas palavras, vejo-o retomar seu caminho pela casa e seu trajeto indicava que ele iria para seu escritório, como de costume. Ele passava mais tempo lá do que em qualquer outro cômodo. Mas todos da mansão já se acostumaram com isso, até mesmo suas filhas. — Snow, se você for mais fria, em breve estaremos no castelo de gelo da Elsa. — Sue passa, brincando comigo e me irritando. — Acho que teremos churrasco no jantar, Papai. [GB1] [dy2] [dy3] — Sorrio maldosamente, fazendo-a subir os degraus restantes correndo. — Meninas, por favor — meu pai fala, sério, porém em seus lábios surge um sorriso por ver como eu e minha irmã nos damos bem, na medida do possível. Sue possuía um jeito travesso que me fazia rir algumas vezes, mas na maior parte do tempo sentia uma pequena inveja pelo seu modo espontâneo e livre de viver a vida. Diferente de mim, que não sentia um terço dessa felicidade. Eu era mais na minha, tímida, atrapalhada, calada e pouco sociável. Minha mãe dizia que criei um mundo no qual vivo para mim, ela era a única que eu permiti entrar nele; às vezes, Sue adentra, mas ela na maior parte do tempo o invade, era a pequena e irritante intrusa. Chego, enfim, em meu quarto, um ambiente grande e espaçoso, com poucas cores e vazio, não em objetos e móveis, mas sim em lembranças e memórias, em sentimentos, o que para mim era um exagero. Na minha opinião, todo aquele espaço apenas servia para pessoas com egos absurdamente grandes, apaixonados em consumir e encher tudo aquilo com coisas desnecessárias. Talvez Papa achasse que objetos comprados para meu quarto pudessem preencher o vazio que nossa Mama deixou ao partir. Toda a nossa casa, na verdade, era um completo exagero. Morávamos em uma mansão ao sul de Atlanta, eu achava aquilo ridículo. Após a morte de nossa mãe, meu pai se negou a mudar de casa e permaneceu na mansão em que nascemos e fomos criadas, ele vive as memórias e emoções do local que criou junto com ela, achava um p**a egoísmo da parte dele se importar apenas com seus sentimentos e não levar o meu e de minha irmã em consideração. Mas apenas ignoro isso e prossigo com minha vida, tento entender como ele se sente e a raiva cessa um pouco, afinal de contas, um de nós deveria ter empatia. Caminho em direção ao banheiro, o espaço era todo branco e bem amplo, havia um grande espelho, no qual evitava me olhar, não gostava muito do que o reflexo me apresentava. Sigo em direção à banheira, abrindo a torneira na água fria, fico fitando a água preenchendo o espaço enquanto um vislumbre corre em minha mente, lembrando-me de quando tive que começar a trocar a água morna e quentinha pela fria e sem graça, consequências de uma atitude impensada. Logo adentro a banheira; a toalha cai de meu corpo em direção ao chão, abaixo de meus pés. Toco com a ponta do dedo do pé direito na superfície da água, suspirando levemente enquanto adentro por completo a banheira, sentindo o frio tomando pouco a pouco cada canto e parte de meu corpo. Fecho a torneira, entregando-me por completo a meu banho. Dou-me conta de que não havia trazido comigo meu aparelho celular para dar uma conferida no grupo X, o mesmo grupo de pessoas em que estava lendo as mensagens e interagindo de certa forma quando retornava para casa. Apenas me deito, tentando relaxar. Passava com a pequena bucha ensaboada sobre minha pele molhada. Rápidos pensamentos correm em minha mente, como se fossem um déjà-vu, era uma imagem minha sendo levada por um grupo de pessoas que nunca vi quando mais nova. Estendo em seguida minha mão, conjurando uma pequena chama, observando-a próxima a meu rosto, vendo as chamas dançando diante dos meus olhos, sentindo o pouco de calor que elas traziam sobre minha pele. Aquilo enchia meus olhos, começo a visualizar a imensidade que aquele poder poderia me trazer futuramente quando dominado por completo e elevado ele ao máximo em potencial. O fogo era uma das maiores descobertas do homem desde os primórdios; o que uma mulher com sede de se provar e uma imensa inteligência poderia fazer com uma pequena chama em um imenso mundo? Falo, com a voz baixa e confiante: — Irei provar a quão poderosa posso ser. “É mais fácil eu sentir algo com essas chamas do que dominar a meus próprios desejos” — penso, ao mesmo tempo que falo, enquanto as chamas somem pouco a pouco diante de meus olhos, deixando apenas minha mão aberta à frente de meu rosto. Saio, após um bom banho e, enquanto me seco, escuto minha irmã adentrando meu quarto. Seus passos apressados poderiam ser ouvidos e estavam seguindo em direção ao banheiro. Assim que abro a porta, deparo-me com ela à minha frente, ela parecia preocupada e eufórica. Sue transparecia preocupação em seu semblante, deixando evidente que algo errado estava acontecendo. — Se troque rápido! Precisamos sair o quanto antes, Snow. — Ela me puxa pelo meu pulso direito, levando-me rapidamente para o espaço do quarto, enquanto andava à procura de algo. Solto meu braço dela, parando à sua frente, questionando-a em seguida: — Sue, tem algo de errado acontecendo? — Começo a me vestir diante dela, coloco minhas peças de roupas que havia deixado sobre a cama junto aos meus fones e aparelho celular, guardando-os em meu bolso, enquanto pergunto novamente a ela, que parecia presa em seus próprios pensamentos. Ela estava longe e aquilo já estava me deixando aflita, ela não era de entrar em meu quarto e agir daquele modo. — O que está havendo? Achei que apenas iríamos jantar com nosso pai. Ou estou errada? Antes que ela pudesse me responder, apenas escuto barulhos de tiro do lado de fora de nossa mansão, pareciam vir do jardim. Com os cabelos úmidos e agora completamente vestida, caminho em direção às grandes janelas de meu quarto, andando a passos calmos com os pés sobre o tapete de algodão. Paro em frente as janelas para ver o que de fato estava acontecendo. Minha irmã vem logo em seguida atrás de mim, respondendo às minhas perguntas, enquanto eu abria as cortinas de cor bege, tendo visão do que se passava. — Tudo aparenta ser um surto, ainda não sabem ao certo o que está causando esse surto de raiva e ataques nas pessoas, eu e papai apenas estamos sabendo isso. Foi a única coisa noticiada nos jornais até agora, o mais seguro é ir para uma área de segurança. Papai pediu para irmos para a cidade vizinha de nossos tios — ela falava em um tom sério, explicando o que estava acontecendo, enquanto presenciávamos o caos tomando conta de tudo pouco a pouco. Viro-me, olhando para ela, perguntando, de modo que transparecesse em meu semblante preocupação, assim como no tom de voz: — Mas e ele? — Ele disse que irá logo em seguida, ele quer primeiro garantir a nossa segurança. — Sue sai de meu quarto e, antes de fechar a porta por completo, ela sorri, tentando me passar positividade. — Arrume rapidinho as coisas em sua bolsa, passo aqui já para descermos. — Tudo bem, Sue. Não irei levar muito tempo. — Vejo-a fechar a porta e sigo caminhando pelo meu quarto de modo pensativo, remoendo minha mente, sabendo que desde o começo minha intuição havia me alertado sobre o soro, falando que poderia ser o grande triunfo da humanidade ou a grande arma para extinção da raça humana, pena que foi a segunda intuição. Enquanto arrumava minhas coisas dentro de minha bolsa, soltando minhas vestes dos cabides em meu closet, fico pensando que não existe lugar seguro, o que estamos fazendo é sobrevivendo ao nosso erro. Poderia ser uma perda de tempo adiar a morte, mas não iria contrariar meu pai em um momento desses. — Vamos, Snowzinha? — Sue surge em meu quarto após alguns minutos e afirmo com a cabeça, sigo até ela, colocando a alça da mochila em minhas costas.
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