Mudanças Parte 2

3947 Palavras
Giro a maçaneta, abrindo a porta lentamente. Pouco a pouco, vou tendo a visão do corredor não muito extenso, porém bagunçado e com manchas do sangue de nossa mãe por todo o canto. Seria difícil passar por ele devido ao tanto de coisa espalhada pelo trajeto. Olho para meu irmão, fazendo sinal para ele permanecer em silêncio e tomar cuidado durante nosso caminho. Respiro fundo, sentindo um medo de encontrar nossa mãe naquele estado. Era incerta sua reação e o que ela poderia fazer conosco. Eu gostaria de evitar ao máximo encontrar com ela e faria o possível, pois eu e meu irmão jamais iríamos querer ter que enfrentá-la de novo. Estávamos chegando ao fim do corredor quando escutamos o barulho de seu caminhar pesado e os grunhidos; paro de imediato, fazendo sinal para meu irmão, que permanece parado, levando as duas mãos à boca; seu olhar de medo é evidente. “AGORA NÃO, AGORA NÃO” — penso, temendo. Assim que paramos de escutar os ruídos, seguimos o trajeto rumo às escadas que levariam ao andar de cima. Enquanto passávamos pela sala, olhávamos para o ambiente que há pouco estávamos e vivenciamos o pior momento de nossas vidas. Subimos os degraus um a um, pisando levemente sobre a madeira, olhando para o corredor dos quartos; não havia sinal de nossa mãe no ambiente pouco iluminado, o que para nós foi um alívio. Parado em frente à porta de nossos quartos, agora faço um breve comentário ao meu irmão, que olhava tensamente a nossa volta. — Coloque o essencial em um bolsa. Vê se não demora, molenga. — Adentro meu quarto, escutando-o reclamar algo. — Olha quem fala. — Ele seguia em direção ao seu quarto e parou antes de fechar a porta por completo. — E se ela aparecer, Dante? Viro-me, olhando para ele, e falo, passando positividade e confiança para ele naquele momento: — Vai dar tudo certo, apenas seja o mais rápido possível. Estaremos juntos, o que pode dar errado? Vejo-o sorrir brevemente e falar, enquanto segue quarto adentro: — É até estranho ver você ser o positivo. — Cala a boca — resmungo, com um sorriso pretensioso no rosto. Respiro fundo dentro de meu quarto. Enquanto encosto as costas na porta, meus olhos se fecham e as imagens do que aconteceu recentemente vêm em minha mente. Minhas duas mãos vão de encontro ao meu rosto, reluto comigo mesmo para não me permitir chorar, ser fraco ou me entregar aos sentimentos em tal momento. — Preciso ser forte. — Minhas mãos descem de meu rosto e aperto o tecido de minha calça. — Devo ser, por todos eles. Caminhando pelo quarto, à medida que eu me aproximava do guarda-roupas no pequeno trajeto, vinham em mente memórias de quando eu era mais novo, entrando correndo pelo quarto, jogando minhas roupas sujas por todo o canto e me lançando sobre a cama, rindo; minha mãe, na porta, falando incomodada de eu não ter ido tomar banho e de como meu quarto estava fora de ordem. Uma risadinha preenche meu rosto e pego, sobre a cadeira próxima à mesinha de computador na qual eu passei três meses da minha vida jogando League of Legends, a bolsa que usei no meu oitavo ano, meio surrada, porém era o que teria naquele momento. Rapidamente, abro o guarda-roupas, pegando algumas roupas e jogando de qualquer modo dentro da bolsa. Pego mais um par de tênis abaixo da cama; noto que ali estava um caos, e cheio de coisas que na época para mim eram as coisas mais incríveis, como HQ’s, caixas de jogos de mesa e uma caixa na qual eu guardava fotos com meus amigos e família. Antes de me colocar novamente de pé, algo corre em minha mente. Abaixo-me novamente, estendo a mão em direção à caixa e a puxo, sentindo a poeira dela nas palmas de minhas mãos. Sento-me brevemente no chão, colocando-a sobre meu colo; solto um espirro baixo ao assoprar a tampa. Assim que retiro a tampa, colocando-a de lado, ao ter a visão do conteúdo em seu interior, sinto uma pontada em meu peito. Sorrio de canto ao ver as imagens das fotos acima, que me despertavam um sentimento de nostalgia e alegria ao me lembrar dos momentos vivenciados através delas. Sou tirado de tal momento ao escutar a maçaneta da porta girando. Coloco minha mão esquerda estendida à frente do meu corpo, mirando na direção da porta, temendo que fosse minha mãe controlada pela doença. Sinto-me apreensivo ao ter que atacá-la com meu elemento, permaneço em silêncio e focado. — Dante? — a voz baixa e o rosto sorrateiro de meu irmão surgem atrás da porta, aliviando-me. Abaixo minha mão, fazendo sinal para ele adentrar logo; ele assim faz, vindo em minha direção. — Quase lhe ataco. — O que está fazendo ainda aqui? Ainda teve a audácia de falar que eu seria o molenga. — Ele não perde a chance, enquanto se aproxima de mim, abaixando e ficando ao meu lado, olhando intrigado para a caixa. — Você as guardava... — É claro que sim, i****a. — Você ficava caçoando de mim quando eu dizia que iria guardar as minhas. — Sempre fui o irmão mais velho do contra e que enche o saco do mais novo, não poderia simplesmente estragar esse lado que criei. — Faz sentindo, no final das contas... — Ele sorri, dando os ombros. — Vai pegar alguma delas? — Apenas três. — Posso saber quais? — Nem ferrando. — Viro de costas, pegando-as e guardando-as na bolsa rapidamente. Havia perdido tempo com isso, e por mais que quisesse ficar ali revivendo cada um dos momentos, nossa situação atual não era apropriada para tal. — Vamos indo, o pior está por vir, Dan. Passo a mão sorrateiramente sobre o bolso da calça, sentindo a chave nele. Respiro fundo enquanto saio, na frente de meu irmão, andando pelo corredor pouco iluminado em direção às escadas que levavam ao andar de baixo. Meu irmão e eu permanecíamos em silêncio, ambos tensos e com uma ponta de medo do que poderíamos encontrar ou como ela poderia estar lá embaixo. Escutamos um barulho de algo caindo e quebrando; paramos de imediato ao escutá-lo. Parecia um grunhido ou próximo disso; engulo em seco e logo escuto passos indo mais para o fundo da casa. À medida que desço os degraus, vou tendo visão da sala até o corredor que levava ao escritório. Paro, fazendo sinal e olhando para meu irmão, falo com ele em língua de sinais naquele momento: — Precisamos distrai-la para sairmos pelos fundos, ou não teremos acesso ao carro. Dan parecia pensativo e logo me surpreende, ao retirar um bloco de notas desgastado em meio às suas coisas. Ele estende seu braço, mirando o objeto em direção ao corredor do escritório para o lançar o mais longe possível em sua extensão. Só tínhamos visão da metade dele do degrau no qual estávamos mas, a julgar pela força, ele chegou até depois da metade. Ao escutar o barulho vindo da cozinha, a criatura segue em disparada em sua direção, fazendo o mesmo som e cambalear sobre algumas coisas em seu caminho. — Vamos! — falo para ele, sussurrando, e descemos o mais rápido possível, seguindo minuciosamente em direção à cozinha. Passamos pela sala sem problema ou vestígio dela estar retornando. Ao passarmos pelo corredor, vemos ela, quase irreconhecível devido ao nível da infecção que se alastrava de forma rápida por seu corpo. “Voltaremos em breve pela senhora, mamãe” — penso comigo, tentando ser otimista naquele momento. Por um lado, estava cogitando que ela pudesse não voltar, ou voltar com sequelas do que seja lá o que seja isso. Mas somos surpreendidos quando um blecaute ocorre em nossa região. Tudo se torna escuro, perdemos a noção de onde estávamos e aonde deveríamos ir. O medo toma conta de nossos corpos e mente, ficamos paralisados entre o corredor e a entrada da cozinha, tento controlar minha respiração e buscar uma solução em minha mente que agora travara devido a situação não esperada. Passo as mãos em meus bolsos laterais, buscando rapidamente meu aparelho celular para ligar a lanterna e sairmos o quanto antes dali. Não queria que minha mãe nos encontrasse mas, com nossa falta de sorte, logo escutamos passos pesados se aproximando pouco a pouco de nossa localização. Em minha mente, torcia para que Dan ficasse imóvel e evitasse entrar em desespero por conta do medo. Movimento meus braços, buscando ficar próximo de Dan. Toco em seu ombro rapidamente, indo em direção à sua boca e a tampando. Enquanto ela tropeçava nos objetos em seu caminho, grunhindo, logo tudo se tornou terrivelmente silencioso; o silêncio nunca foi tão perturbador e incômodo, devido a ele, não sabíamos se poderíamos tentar sair dali ou permanecer imóveis e vivos. Engulo em seco e logo mais sinto uma respiração pesada próxima a nós e sons de estalos em nossas proximidades. Ela estava se aproximando de nós. O espaço pequeno e curto para corrermos poderia causar nossa morte, preferi não arriscar e seguir com o plano de esperar ela se afastar de nós. “O que devo fazer... Não posso arriscar no escuro. Se ela pudesse nos ver, já estaríamos mortos.” Naquele momento, sinto a mão de meu irmão apertando meu braço fortemente, seu medo estava sendo compartilhado comigo. Um barulho vindo dela se aproximava do lado de meu irmão, a luz naquele momento ameaça voltar e vejo o quão próxima ela estava do rosto de meu irmão. O pior foi ver o estágio da infecção que cobrira seu rosto por completo e modificara sua pele e mãos; era algo assustador e sequer parecia nossa mãe, e sim algo que se assemelhava a filmes de terror e jogos de Survivor horror. Tomamos um susto e puxo meu irmão rapidamente em minha direção, a criatura bate com tudo contra a parede atrás de meu irmão. Seguimos correndo, adentrando a cozinha, e a criatura fica de pé novamente, vindo com tudo em nossa direção. Quando meu dou conta, sinto suas mãos em meus ombros, viro-me rapidamente para trás, mas antes mesmo de pensar ou fazer algo, sinto meus pés saindo do chão e meu corpo ser lançado contra o balcão da cozinha. Minhas costas colidem contra a madeira, rolo por cima dela, caindo de m*l jeito no chão. Enquanto me levanto, sou surpreendido por outro ataque, coloco meus braços à frente de meu corpo, segurando-a nos ombros e impedindo que se aproximasse de mim; suas mãos e boca tentam se aproximar de meu rosto. A cena era assustadora, e temia por fraquejar em uma situação daquelas. Um vacilo e meu irmão estaria sozinho para enfrentá-la. Viro-me brevemente olhando para ele e falando alto e de modo firme: — DAN, PEGUE O NECESSÁRIO NA DISPENSA PARA SAIRMOS DAQUI! — O que está pensando em fazer? — Ele teme por nós dois, cogita que eu possa feri-la ou pior. — CONFIA EM MIM! — Passo a ele confiança em minha voz, mostrando que estava certo sobre o que faria. Ele afirma que entendeu com a cabeça e segue rapidamente abrindo a despensa e uma bolsa vazia a qual pegou em seu quarto, começando a colocar alguns suprimentos. A força de minha mãe estava superando a minha, estava sendo difícil mantê-la longe de mim. Olho em volta, procurando algo que pudesse me auxiliar a contê-la, mas nada avisto. Solto-a, então, e ela se lança em minha direção. Rolo para a direita, fazendo ela colidir com tudo no balcão atrás de minha antiga localização. Olho para minhas mãos, me dando conta da maior arma ali presente. — Agi como um i****a até então. — Aponto com as mãos em direção a ela, que vinha até mim, o ar a minha volta começa a se condicionar em minhas palmas, um jato forte de ar frio é lançado na direção dela. Seu corpo é lançado contra a parede, fazendo-a ficar encurralada e super irritada por não conseguir se mover ou nos atacar. — DANTE! — É isso ou todos aqui morrem. Faça o que lhe pedi, Dan. — O que me irritava era que Dan não via o quão perturbado eu estava com tudo aquilo. Era visível em seu rosto que ele estava mais incomodado do que tudo, porém engolia seu orgulho por não ter escolha em uma situação dessas. — RÁPIDO, DAN! NÃO SEI ATÉ QUANDO ISSO VAI DURAR. — Estou indo! Que d***a, eu não estou encontrando as garrafas de água. — Ele estava nervoso e falava aquilo enquanto revirava as coisas. Sinto que a força do jato de ar havia diminuído, aquilo era um sinal de que meu poder elementar estava se esgotando com aquele tipo de ataque. Haviam se passado cinco longos minutos e estava frustrado por não dominar meu elemento por completo, se eu soubesse um pouco mais, poderia segurar mais minha mãe ou mantê-la presa em um cômodo, mas era tudo novo e tudo acontecendo de uma só vez. — TERMINEI! — grita meu irmão, colocando-se de pé. — Isso aí, Dan! Vamos indo. — Olho para ele, fazendo sinal para se aproximar. Porém, antes de percebermos, o jato de ar e meu elemento falham, dando sinal de que eles chegaram em seus limites. Meu rosto se vira lentamente em direção à criatura, que cai no chão de imediato, erguendo-se, grunhindo furiosamente enquanto fica de pé. Sacudo minhas mãos, buscando usar resquícios de meu elemento, que nada fazem. Vejo ela saltar em direção a meu irmão, que coloca de imediato suas duas mãos à frente de seu corpo. Corro desesperadamente na direção de meu irmão sem pensar duas vezes, tudo passa lentamente em meus olhos e sinto que iria falhar e perder os dois por não conseguir ser rápido o suficiente. Porém, somos surpreendidos com um clarão e a criatura sendo lançada fortemente contra o fundo da cozinha. Fico surpreso com tal cena e forma de ataque. Levanto-me, após me abaixar atrás do balcão para não ser atingido pela criatura no momento. Enquanto me ergo e olho em volta, vejo-a se debatendo contra tudo ali para apagar as chamas, aquilo estava lhe causando dor. Logo ela se lança para o quintal dos fundos e se esfrega contra a grama. Viro, então, olhando para meu irmão com as bolsas nas costas e olhando suas mãos, horrorizado com o que causou à nossa mãe. Suas chamas se espalhavam até seu antebraço, ele estava em estado de choque, seus olhos já se enchiam de lágrimas e, ao me aproximar, escuto ele falando baixo para si mesmo: — Me desculpe, mãe... Me desculpe, eu não... — Coloco a mão em seus ombros e caminho com ele para o lado de fora. Quando nos deparamos com a cena sobre o jardim, ficamos devastados: o corpo de nossa mãe estava sendo carbonizado, meu irmão entra em desespero, soltando-se de mim e correndo em sua direção. — Não, não, não... — Vejo ele se ajoelhar ao lado do corpo, colocando suas mãos sobre ele. — Por favor, não! — Dan! Não faça isso! — Antes de terminar, vejo o fogo sendo drenado por suas mãos. Fico sem entender como ele estava fazendo aquilo, ajoelho-me ao seu lado e, quando olho o corpo dela naquele estado, a ficha cai. Meu coração aperta e minha mente se torna vazia, o cheiro seria incômodo em outra situação, porém não importava mais nada a nossa volta naquele momento, os gritos se tornaram silenciosos, o vento não era mais frio, o caos se cessou, apenas estávamos nós três ali naquele momento. — Ei... Mãe... — Ele a balançava, em uma tentativa falha de acordá-la. — Acorde, por favor... — Ele sorria em meio às lágrimas. — Mãe, precisamos ir... Eu sei que está aí... Aquela coisa já foi embora... — DAN! Pare, por favor... — penso alto — Eu tenho fé que seu poder vai despertar e você voltará para a gente... Mãe, por favor... — Ele aperta o tecido de seu casaco com todas as forças, fechando os olhos e chorando em silêncio agora. Não era de demonstrar muito afeto a meu irmão, porém deixei meu lado chato de lado, pois agora só tínhamos um ao outro em um mundo em colapso. Dan estava com seu rosto contra o abdômen de minha mãe, chorando e soluçando. — M-me perdoa, mãe, eu não... eu não... queria ter... Me perdoe, por favor... — Abraço-o naquele instante, levantando-o. Fecho meus olhos, negando vê-la naquela situação; não queria aceitar tal perda e não sabia como lidar com aquilo, em minha mente só tinha suas memórias alegres e felizes, seus momentos “mandões” como mãe e tudo de bom que ela foi e ainda será para nós. Carregaria para sempre em minha mente e coração seus ensinamentos e exemplo de ser humano. Dan se vira para mim, abraçando-me, enquanto caía em lágrimas. — Dante, não foi porque eu quis... Só... — Eu sei, Dan. Não foi sua culpa. — Retribuo o abraço e deixo algumas lágrimas caírem, enquanto permaneço em silêncio. Um barulho é escutado por nós dois. Abro meus olhos, vendo que a cerca de nossa casa fora quebrada por três daquelas coisas. Afasto-me de meu irmão me erguendo. Eles caminhavam em nossa direção enquanto grunhiam, prontos para nos atacar. — Dan! Precisamos ir! AGORA! — Puxo-lhe, enquanto ele relutava para sair dali. — Mãe, iremos voltar... — DAN! AGORA! — falo alto e sério com ele, ordenando que viesse logo atrás de mim. Retiro do bolso do meu jeans as chaves do carro dela e, enquanto corríamos em direção ao carro estacionado, lembranças corriam em minha mente. Momentos com nossa mãe brincando conosco no gramado de nossa antiga casa, uns atirando nos outros com armas de água. Ela brigando conosco por brigarmos por bobeira, enquanto saía correndo atrás de nós com o chinelo e gritando. Nosso primeiro piquenique, que deu errado devido a um forte vendaval e chuva chegarem bem na hora que nos preparávamos para comer. Esse dia era meu favorito, pois saímos todos correndo e fugindo da chuva, acabamos todos comendo na casa da árvore e foi o último dia que papai esteve presente em nossas vidas. Adentro o carro rapidamente com meu irmão, colocando rapidamente a chave no contato. Meu irmão estava colocando seu cinto quando tomamos um susto com quatro daquelas coisas batendo contra o vidro das janelas, seus ataques se tornavam fortes e logo dou partida, saindo em arrancada dali. Dois deles se seguram acima do carro. — Malditos! — esbravejo, enquanto jogo o carro de um lado para o outro, fazendo um zigue-zague forte para eles se soltarem, o que funciona, pois os vejo sendo lançados. Assim que eles retomam consciência, já começam a atacar quem ali estava lutando contra outros deles e fugindo, assim como nós, para sobreviver. Nas ruas havia carros em chamas, corpos caídos e com andarilhos se alimentando dos que não conseguiram fugir ou se defender deles. As ruas foram tomadas por essas coisas e o horror que elas traziam consigo. Não parecia sequer a rua de poucos instantes atrás, com famílias felizes por receberem o soro elementar, assim como a nossa, todos rindo, conversando e curtindo o avanço dado pela humanidade no dia de hoje. Tudo havia mudado, estava diferente, pena que para pior. A fonte disso, não sabíamos; como reverter essa infecção, também não; e tampouco quando o governo iria dar as contas ou conter aquilo. Estava começando muito a duvidar que isso viesse a acontecer tão cedo. Ou se iria acontecer. — Vamos mesmo fazer isso, Dante? — Meu irmão olha para mim, buscando certeza e confiança em mim do que iríamos fazer. Ele ainda estava em caos dentro de si e muito abalado. Viro-me, olhando brevemente para ele, e afirmo com a cabeça. — Sim, só nos resta buscar respostas e sobreviver irmão. Precisamos sobreviver e lutar por ela, ou tudo o que ela fez e nos ensinou será em vão. Vejo ele suspirar pesadamente, passando a mão no rosto e encostando no banco, enquanto fala, de forma abafada: — Só nos resta isso, temos um ao outro e um longo caminho à frente, Dante. — Enquanto tivermos um ao outro, tudo ficará bem. — Torço que sim, Dante. — Ele se vira, olhando para mim, e completa: – De coração, espero que sim. O bairro residencial fica para trás e seguimos em direção à estrada que levava para fora da cidade. Nosso destino era Nova Iorque, e não importava as dificuldades que surgiriam em nosso caminho, deveríamos chegar até o nosso pai, o quanto antes. “O senhor nos deve respostas, então não morra antes de estarmos aí!” Por onde quer que passássemos, era eminente o conflito entre as criaturas e seres humanos; as pessoas usavam de seus elementos, outros de qualquer coisa que servisse para os atacá-los e se defender, mas todos estavam buscando fugir de onde eles estavam chegando e em maior número. — Isso só pode ser brincadeira — reclamo, ao ver o trânsito assim que chego na ponte. Olho mais à frente, vendo que a guarda nacional estava barrando a passagem, pareciam estar vendo carro por carro, pessoa por pessoa, antes de liberarem a passagem. — Isso vai levar horas e só vai piorar a situação — meu irmão fala, inconformado. — Precisamos mudar a rota, aquelas coisas logo chegarão até aqui — comento, inconformado, mas, assim que engato a marcha ré, noto que mais carros já estavam atrás de mim, impossibilitando-nos de sair dali. Tudo estava cercado, tanto na frente quanto atrás, não tínhamos opções naquele momento. — Que m***a! — esbravejo, batendo com a mão no volante. Olho em direção ao lago abaixo da ponte, vendo no céu escuro helicópteros da polícia passando por cima e indo em direção à cidade. Alguns prédios estavam em chamas e a fumaça podia ser vista de longe. Carros da polícia e ambulâncias não paravam de seguir em direção ao centro e áreas residenciais. O barulho era imenso: sirenes, vozes e motores de carros e motos. Quando me viro para olhar para frente, escuto o grito de meu irmão, apontando para trás: — DANTE! Antes que eu conseguisse ver, sinto o forte impacto de outros carros no nosso. Minha cabeça bate bruscamente contra o volante do carro, um forte zumbido toma conta de meus ouvidos, sinto o carro sendo arrastado pelo lado e se inclinando rio abaixo. Minha visão se tornara turva e vejo tudo embaçado e desfocado, estava tonto devido ao baque, meu irmão olhava para mim preocupado, alertando que havia me ferido. Passo a mão em minha testa, sentindo um corte; o sangue escorria pelo meu rosto abaixo. Vou me dando conta da gritaria e do que causou aquilo quando um caminhão tomba rio abaixo, junto aos carros atingidos. — Dante, precisamos... — Antes de meu irmão completar e eu entender a gravidade da situação, meu corpo sente a pressão do nosso carro sendo atingido e caindo junto aos demais envolvidos, rio abaixo. A parte da frente colide com a água fria do rio que passava entre as montanhas que cercavam a cidade. Pouco a pouco, ele vai afundando e água adentrando o carro. Vejo meu irmão desesperado tentando soltar seu cinto, que parecia ter emperrado e sinto meu corpo e mente se tornando leves, entregando-se à temperatura da água. Mesmo que eu buscasse forças, não as encontraria. Dou conta que naquele momento eu estava completamente em apuros. “Me desculpe, mãe, mas não cumpri com a promessa de cuidar do Dan. Eu falhei...”  [GB1]Cadê a resposta?  [GB2]Quem?  [dy3]Figurante  [dy4]  [GB5]Era pra ser o quê?
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