Gustavo narrando
Passei a noite inteira sem dormir.
O que eu fiz com a Bia não saía da minha cabeça.
Cada palavra, cada olhar de medo dela, o jeito que tremia quando eu gritei… tudo aquilo me corroía por dentro.
Na hora, eu tava cego de raiva, dominado pelo ódio e pela dor de ver minha irmã daquele jeito.
Mas agora, com a cabeça fria, eu entendi: eu passei dos limites.
Bia não tinha culpa do que o irmão dela fez.
E mesmo que tivesse errado em esconder, eu não tinha o direito de machucar alguém que sempre esteve do lado da Laura… e do meu.
O sol já tava alto quando desci pra boca. Os meninos vinham me cumprimentar, mas eu nem respondia direito.
Fiquei lá, encostado na moto, tentando achar coragem pra ir atrás dela.
Até que vi a Bia descendo o beco mais cedo, de calça jeans e blusa preta.
Passou por mim, fingiu que eu nem existia.
Nem olhou na minha cara.
Aquilo me destruiu.
A risada que eu dei com a morena foi pura fuga.
Tentei disfarçar, fingir que tava bem, mas o olhar dela atravessou o peito como faca.
Quando ela passou sem me dirigir uma palavra, eu percebi o tamanho da merda que eu fiz.
Passei o dia inteiro remoendo isso, e no fim da tarde, decidi ir atrás.
Sabia onde ela trabalhava — um pequeno bar no asfalto, frequentado por gente que subia e descia o morro.
Cheguei, sentei numa mesa no canto, e fiquei ali.
Quando ela saiu de dentro com o bloquinho na mão e me viu, congelou por um segundo.
Mas fingiu que nada tinha acontecido.
Veio andando com passos firmes, a expressão fria.
— Boa tarde. Vai querer o quê? — perguntou, sem olhar pra mim.
A voz dela cortou mais do que qualquer arma.
Engoli seco.
— Bia… eu não vim aqui pra comer, não. Vim pedir desculpa. Eu errei com tu.
Ela anotava alguma coisa no bloco, fingindo que não ouviu.
— Quer um suco, uma cerveja, qualquer coisa? — insistiu, o tom seco.
— Não, eu quero que tu me escute. Eu tava cego, Bia. Eu tava com ódio, com medo da Laura, com tudo bagunçado na cabeça. Mas eu não devia ter entrado na tua casa daquele jeito.
Ela respirou fundo e finalmente levantou os olhos, mas o olhar era duro, distante.
— Não devia mesmo. — respondeu firme. — E tu acha que pedir desculpa muda o que fez? Tu me humilhou, Gustavo. Tu me olhou como se eu fosse igual ao meu irmão.
Engoli em seco, o peito apertado.
— Não é isso… eu nunca pensei assim, eu só…
— Só o quê? Perdeu o controle? — ela cortou. — Tu sempre fala que aqui no morro, homem de verdade resolve com respeito. Mas ontem tu esqueceu o que é isso.
Não consegui responder.
O bar inteiro parecia em silêncio, mesmo com o som do rádio tocando.
Ela deu um passo pra trás, virou de costas e disse por cima do ombro:
— Agora, me deixa trabalhar.
Fiquei ali, parado, olhando ela se afastar.
Cada palavra dela me pesava mais que chumbo.
Paguei a conta sem nem beber nada e saí, o vento batendo no rosto, o coração esmagado.
Enquanto descia o beco, pensei:
eu já perdi a confiança da Bia também.
E no fundo…
eu sabia que merecia.
Depois que saí do bar, fiquei rodando pelo morro sem rumo.
A cabeça ainda fervendo com tudo — a Laura, a Bia, o Vasco, o morro, a minha própria consciência me cobrando.
No fim das contas, eu sabia que a única coisa que me fazia manter o equilíbrio era o trabalho.
Quando o corre aperta, é na boca que eu me desligo do resto.
Então desci direto pra lá.
O sol já começava a cair, o movimento aumentando.
Os vapores passavam, o cheiro da fumaça no ar, o som das motos subindo e descendo.
Era mais um dia normal no morro — mas dentro de mim, nada tava normal.
Cheguei na principal, cumprimentei um ou dois meninos e subi até o QG.
O Vasco tava lá, sentado na cadeira de madeira, o cigarro entre os dedos e a prancheta com o papel dos fiados na mão.
O olhar dele, como sempre, era frio e atento, passando linha por linha do que os vapores anotavam.
Encostei na parede e soltei:
— Tanto fiado é esse, pô? Tanta gente devendo assim? Os cara tão vendendo fiado pra galera à toa agora?
Ele levantou o olhar, me encarou de canto e respondeu com aquela calma dele que mais parece ameaça:
— Tô vendo isso mesmo.
Os vapor tão ficando folgado, achando que é casa de mãe. Ninguém aqui é ONG pra sustentar noiado.
Soltei um riso sem graça, peguei a prancheta e comecei a conferir também.
— Tem nome aqui que nem devia tá mais comprando, mano. Os cara se afunda e ainda quer crédito.
— Pois é. — disse Vasco, puxando mais um trago. — Tu dá um dedo, eles levam o braço. Amanhã cedo quero tu passando na base da Gamboa. Faz a limpa lá. O Dinho tá vacilando com as entregas.
Assenti com a cabeça, guardando o papel no bolso.
— Fechou. Eu resolvo.
Mas ele me olhou por mais tempo do que o normal.
Sabia que eu não tava bem. O Vasco tem esse jeito de ler a gente sem a gente precisar dizer nada.
— Tu tá diferente, Gustavo. Aconteceu alguma coisa com a Bia, foi?
Demorei um pouco pra responder.
Respirei fundo, encostei no balcão e falei baixo:
— Eu fui grosso com ela. Passei do limite. Tava nervoso com o que rolou com a Laura… mas errei.
Ele ficou em silêncio, só soltando fumaça, e depois disse:
— A raiva cega, irmão. E quando tu deixa ela mandar, tu faz coisa que não dá pra voltar atrás.
As palavras ficaram ecoando na minha cabeça.
Ele sabia bem o que tava dizendo — o Vasco já tinha perdido gente por causa de decisões tomadas no calor do momento.
Ficamos ali, quietos por uns minutos, só o som do morro em volta: moto, risada, funk tocando em algum lugar distante.
Até que ele levantou, me deu um tapinha no ombro e falou:
— Se quiser consertar, ainda dá tempo. Mulher nenhuma esquece quando um homem reconhece o erro. Mas tem que ser de verdade.
Assenti, guardando a culpa no fundo do peito.
— Vou tentar. Só não sei se ela vai me escutar de novo.
— Escuta sim, se o arrependimento for real. — respondeu ele, apagando o cigarro e virando pra saída.
Fiquei olhando ele se afastar, pensando nas palavras dele.
E ali, no meio da correria da boca, percebi que o problema não era só o tráfico, nem o morro, nem os fiados.
O problema era o que eu tinha deixado acontecer comigo:
eu tinha virado um homem cheio de ódio.
E o ódio, eu tava aprendendo, cobra caro demais.