Bia narrando
Eu nunca tinha visto o Gustavo daquele jeito.
O barulho da porta batendo, o som pesado dos passos dele entrando… parecia que o chão tremia.
Eu ainda tava no banho quando ouvi ele gritar meu nome. O coração gelou.
Me enrolei na toalha e saí correndo, sem entender nada. Quando vi ele ali, parado no quarto, o olhar vermelho, o maxilar travado, entendi tudo.
Ele sabia.
— Gustavo… o que foi? — perguntei, mesmo sabendo a resposta.
Ele deu um passo pra frente, o rosto tomado pela raiva.
— Tu me enganou, Bia. Tu olhou na minha cara e mentiu. Tudo porque o desgraçado era teu irmão!
Meu corpo inteiro gelou.
— Eu não menti… eu só não consegui falar, eu tava com medo, eu… — tentei dizer, mas ele me cortou.
— Medo? E a Laura, Bia?! Tu pensou no medo dela?!
A voz dele ecoava alto, e eu senti as pernas fraquejarem. As lágrimas vieram sem eu querer, escorrendo pelo rosto.
— Eu sei, Gustavo… eu sei que errei, eu devia ter falado! Mas eu juro, eu não sabia o que fazer, eu tava em choque…
Ele passou a mão no rosto, respirando fundo, tentando conter a raiva, mas ela ainda tava ali, viva.
Olhou pra mim por um segundo, com aquele olhar pesado, decepcionado.
Ele se reaproximou, olhou nos meus olhos, por um momento, e eu congelei, quando ele soltou que ia fazer comigo, oque aconteceu com Laura, quando ele me jogou na cama, eu fiquei com medo. Soltei que era virgem. E ele parou!
Ele pulou da cama!
— Tu destruiu a confiança da Laura. E a minha. — disse com a voz rouca, antes de pegar a toalha que tava caída no quarto e jogar no meu colo, virando as costas em seguida.
A porta bateu forte quando ele saiu.
Fiquei parada, sem reação. O corpo tremia, o peito doía.
Sentei no chão do quarto, chorando.
O silêncio da casa parecia gritar dentro de mim.
Tudo o que eu quis foi proteger… mas, no fim, machuquei quem mais confiava em mim.
E o pior era saber que, mesmo sem querer, eu o amo o Gustavo, o homem que eu sempre amei em silêncio...
Passei a noite em claro.
Chorei até não ter mais força. O coração parecia apertado, como se tivesse um nó dentro do peito.
Eu sentia raiva, nojo, uma mistura de tudo.
Não pelo que aconteceu com a Laura — isso doía também —, mas pelo jeito que o Gustavo me tratou.
Ele não tinha esse direito.
De entrar na minha casa, gritar comigo, me humilhar daquele jeito.
Eu entendo a dor dele, mas ninguém tem o direito de descontar a raiva machucando o outro.
Virei pro lado, abracei o travesseiro e chorei em silêncio.
No fundo, o que mais doía era lembrar que eu sempre gostei dele. Que o Gustavo era o único que eu nunca consegui odiar — até agora.
Quando o dia clareou, eu ainda tava acordada.
Levantei sem vontade de nada, fui pro banho tentando me recompor. A água caiu gelada nas costas, e mesmo assim parecia que não lavava o que eu sentia por dentro.
Vesti minha calça jeans clara e uma blusa preta do trabalho, prendi o cabelo num coque e encarei o espelho.
O rosto ainda inchado, os olhos vermelhos, mas eu não ia deixar ninguém ver fraqueza.
Desci as escadas devagar.
Minha mãe já tinha saído — com certeza foi resolver algo no asfalto. A casa tava silenciosa, o tipo de silêncio que machuca.
Peguei a bolsa, respirei fundo e saí pelas vielas.
O morro ainda tava acordando, os meninos na contenção, o cheiro de café vindo das casas.
Tentei não olhar pra ninguém, mas o destino fez questão de brincar comigo.
Quando dobrei a esquina da boca principal, lá estava ele: Gustavo.
Encostado na moto, rindo com uma morena que eu nunca tinha visto.
A cena me acertou como um soco.
Ele virou o rosto e me viu.
E ficou me olhando.
Não desviou nem por um segundo.
Os olhos dele seguiam meus passos, como se tentasse adivinhar o que eu tava pensando.
Mas eu não dei esse gosto.
Endireitei os ombros, passei por ele sem falar nada.
Nem um olhar, nem um gesto.
Fingi que ele não existia — mesmo com o coração apertado no peito.
Ouvi quando ele parou de rir, quando a voz dele ficou muda.
Mas não olhei pra trás.
Segui o caminho pro trabalho, sentindo o vento no rosto e o orgulho me empurrando pra frente.
Podia doer, mas uma coisa eu tinha certeza:
nunca mais eu ia deixar o Gustavo me fazer sentir pequena...