Cap 9

779 Palavras
Bia narrando Eu nunca tinha visto o Gustavo daquele jeito. O barulho da porta batendo, o som pesado dos passos dele entrando… parecia que o chão tremia. Eu ainda tava no banho quando ouvi ele gritar meu nome. O coração gelou. Me enrolei na toalha e saí correndo, sem entender nada. Quando vi ele ali, parado no quarto, o olhar vermelho, o maxilar travado, entendi tudo. Ele sabia. — Gustavo… o que foi? — perguntei, mesmo sabendo a resposta. Ele deu um passo pra frente, o rosto tomado pela raiva. — Tu me enganou, Bia. Tu olhou na minha cara e mentiu. Tudo porque o desgraçado era teu irmão! Meu corpo inteiro gelou. — Eu não menti… eu só não consegui falar, eu tava com medo, eu… — tentei dizer, mas ele me cortou. — Medo? E a Laura, Bia?! Tu pensou no medo dela?! A voz dele ecoava alto, e eu senti as pernas fraquejarem. As lágrimas vieram sem eu querer, escorrendo pelo rosto. — Eu sei, Gustavo… eu sei que errei, eu devia ter falado! Mas eu juro, eu não sabia o que fazer, eu tava em choque… Ele passou a mão no rosto, respirando fundo, tentando conter a raiva, mas ela ainda tava ali, viva. Olhou pra mim por um segundo, com aquele olhar pesado, decepcionado. Ele se reaproximou, olhou nos meus olhos, por um momento, e eu congelei, quando ele soltou que ia fazer comigo, oque aconteceu com Laura, quando ele me jogou na cama, eu fiquei com medo. Soltei que era virgem. E ele parou! Ele pulou da cama! — Tu destruiu a confiança da Laura. E a minha. — disse com a voz rouca, antes de pegar a toalha que tava caída no quarto e jogar no meu colo, virando as costas em seguida. A porta bateu forte quando ele saiu. Fiquei parada, sem reação. O corpo tremia, o peito doía. Sentei no chão do quarto, chorando. O silêncio da casa parecia gritar dentro de mim. Tudo o que eu quis foi proteger… mas, no fim, machuquei quem mais confiava em mim. E o pior era saber que, mesmo sem querer, eu o amo o Gustavo, o homem que eu sempre amei em silêncio... Passei a noite em claro. Chorei até não ter mais força. O coração parecia apertado, como se tivesse um nó dentro do peito. Eu sentia raiva, nojo, uma mistura de tudo. Não pelo que aconteceu com a Laura — isso doía também —, mas pelo jeito que o Gustavo me tratou. Ele não tinha esse direito. De entrar na minha casa, gritar comigo, me humilhar daquele jeito. Eu entendo a dor dele, mas ninguém tem o direito de descontar a raiva machucando o outro. Virei pro lado, abracei o travesseiro e chorei em silêncio. No fundo, o que mais doía era lembrar que eu sempre gostei dele. Que o Gustavo era o único que eu nunca consegui odiar — até agora. Quando o dia clareou, eu ainda tava acordada. Levantei sem vontade de nada, fui pro banho tentando me recompor. A água caiu gelada nas costas, e mesmo assim parecia que não lavava o que eu sentia por dentro. Vesti minha calça jeans clara e uma blusa preta do trabalho, prendi o cabelo num coque e encarei o espelho. O rosto ainda inchado, os olhos vermelhos, mas eu não ia deixar ninguém ver fraqueza. Desci as escadas devagar. Minha mãe já tinha saído — com certeza foi resolver algo no asfalto. A casa tava silenciosa, o tipo de silêncio que machuca. Peguei a bolsa, respirei fundo e saí pelas vielas. O morro ainda tava acordando, os meninos na contenção, o cheiro de café vindo das casas. Tentei não olhar pra ninguém, mas o destino fez questão de brincar comigo. Quando dobrei a esquina da boca principal, lá estava ele: Gustavo. Encostado na moto, rindo com uma morena que eu nunca tinha visto. A cena me acertou como um soco. Ele virou o rosto e me viu. E ficou me olhando. Não desviou nem por um segundo. Os olhos dele seguiam meus passos, como se tentasse adivinhar o que eu tava pensando. Mas eu não dei esse gosto. Endireitei os ombros, passei por ele sem falar nada. Nem um olhar, nem um gesto. Fingi que ele não existia — mesmo com o coração apertado no peito. Ouvi quando ele parou de rir, quando a voz dele ficou muda. Mas não olhei pra trás. Segui o caminho pro trabalho, sentindo o vento no rosto e o orgulho me empurrando pra frente. Podia doer, mas uma coisa eu tinha certeza: nunca mais eu ia deixar o Gustavo me fazer sentir pequena...
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