Laura narrando — continuação
Esses dias foram um inferno silencioso.
Vasco não apareceu, não mandou recado, não olhou na minha direção.
E o pior é que isso doía… doía mais do que eu achava que podia doer por alguém que eu nem sabia se queria… ou se devia querer.
Quando eu fui deixar a comida do Gustavo lá na boca, já fui com o coração apertado.
Mas quando vi ela, a loira…
A tal que todo mundo comenta.
A marmita mais rodada do morro.
Ela tava sentada no sofá da boca, rindo, ajeitando o cabelo, com aquela cara de quem já conhece o caminho de olhos fechados.
Aquilo me deu um nó na garganta.
Um soco no estômago.
Queimação no peito.
Eu só estendi o pote pro Vasco quando ele apareceu de repente, e ele levantou rápido, como se tivesse sido pego fazendo algo errado.
— Laura… — ele começou.
Mas eu nem deixei ele terminar.
Meu orgulho falou primeiro.
— Eu sei muito bem o que eu vi. — falei sem olhar pra ele. — Não se preocupa. Tu não me deve nada.
Virei as costas e saí quase trotando, porque se eu ficasse mais um segundo ali, eu chorava.
E como desgraça pouca é bobagem, ele veio atrás.
— Laura, espera! — ele chamou.
O som da voz dele bateu forte no meu peito.
Mas eu não parei.
Nem quis olhar.
Se olhasse… eu desmoronava.
A viela parecia mais longa naquele dia.
E meus passos estavam tão rápidos que quase tropecei.
Eu só queria entrar num buraco e sumir.
Foi aí que, na metade do caminho, eu esbarrei justamente nela: Paula, minha irmã.
Ela tava vindo com duas sacolas, e quando me viu, parou na hora.
— Laura? — ela franziu o cenho. — O que é isso? Por que tu tá vermelha assim?
— Nada, Paula… só tô cansada. — tentei passar.
Ela segurou meu braço forte, do jeito que só irmã faz.
— Nada? — ela arqueou a sobrancelha. — Laura, tu tá com cara de quem chorou ou tá pra chorar.
Eu senti o ar faltar.
Não queria chorar ali.
Não queria parecer fraca.
Mas Paula sempre enxergou tudo em mim.
Eu respirei fundo, tentando engolir o choro, mas a voz saiu trêmula:
— Ele… ele tava com outra, Paula.
Ela abriu os olhos, surpresa, e a expressão mudou na hora — não de raiva, mas de proteção.
— O Vasco? — ela perguntou baixo.
Eu só assenti, mordendo o lábio pra não desabar.
Paula suspirou fundo, puxou minha mão e me levou pro canto da viela, longe das pessoas.
— Laura… — ela começou com calma. — Eu te avisei. Ele não é igual a gente. Ele não tem a mesma vida, nem o mesmo caminho. O Vasco não é homem pra te dar segurança.
O nó na garganta apertou, e eu baixei a cabeça.
— Eu sei… mas doeu. — sussurrei.
Ela passou o braço por cima dos meus ombros, me puxando pra perto.
— Eu vou te levar pra casa. E tu vai respirar. Homem nenhum vale tu chorar assim na viela. Muito menos esse tipo.
Eu encostei a cabeça no ombro dela, deixando o ar sair numa explosão silenciosa.
A verdade?
Eu queria ser forte.
Queria fingir que não ligava.
Queria não ter sentido nada naquele beijo que ele me deu…
Mas eu senti.
E agora tava ali, no meio do morro, com o coração todo embaralhado.
Paula apertou minha mão e disse:
— Se ele quiser alguma coisa contigo, ele que se ajeite primeiro. Porque tu não nasceu pra ser opção de ninguém.
E naquele momento…
doeu, mas fez sentido.
Tão sentido que o choro, finalmente, caiu.
Depois de tudo, eu só queria silêncio.
Paula fez questão de me levar pro asfalto com ela pra fazer as compras do mês, tentando me distrair, puxando assunto, falando da vida dela. Mas eu tava ali só de corpo — a cabeça ficava voltando pro mesmo lugar, pro mesmo nome, pro mesmo olhar daquele homem que eu não queria mais sentir.
Quando terminamos, ela chamou um táxi pra mim, porque ia resolver outras coisas.
Me abraçou forte antes de eu entrar no carro, daquele jeito que só irmã que conhece a dor no fundo sabe fazer.
— Qualquer coisa, me liga, — ela disse.
Assenti e entrei.
No caminho pro morro, fiquei olhando pela janela, tentando me convencer de que tinha acabado.
De que eu não ia mais deixar ele mexer comigo.
De que eu não ia mais ser boba.
Mas quando o carro parou na contenção, meu coração gelou.
Lá estava ele.
Vasco.
Em cima da moto preta, braço tatuado à mostra, camisa escura, a postura de chefe, o olhar fixo como se já estivesse me esperando.
Parei por um segundo.
Ele parecia que ia arrancar com a moto… mas quando me viu, acelerou em minha direção, devagar, até parar bem na minha frente.
Eu engoli seco.
Só o barulho da moto já fazia meu peito estremecer.
Ele tirou o capacete devagar, os olhos pregados em mim.
— Eu preciso conversar com você. — a voz dele veio firme, sem espaço pra fuga.
Eu já desviei o olhar na hora.
— Eu não quero… eu não quero conversar, Vasco. — disse tentando passar por ele, me espremer pela lateral.
Mas antes que eu desse dois passos, a mão dele fechou no meu pulso.
Firme.
Quente.
E eu senti o corpo inteiro reagir sem querer.
— Me solta, Vasco. — falei tentando puxar o braço. — Me soltaaaa!
Ele deu um passo pra perto, aproximou a boca do meu ouvido com aquela respiração pesada que fazia meu estômago virar de ponta cabeça.
— Sobe nessa p***a de moto. — ele disse devagar, com a voz baixa, porém dura. — A gente vai conversar agora.
Eu tentei recuar, mas ele ainda segurava minha mão — não com força pra machucar, mas com força pra não me deixar ir.
— Eu não vou subir! Eu não sou obrigada! — falei, a voz trêmula, misturada de raiva e algo que eu odiava admitir: medo… e um pouco de saudade.
Ele olhou fundo nos meus olhos, aquele olhar que parecia entrar dentro da minha alma.
— Laura… — ele disse mais baixo desta vez, sem gritar, sem impor. — Para de fugir de mim.
Isso me desmontou por dentro.
Mas eu ainda tinha orgulho.
— Eu tô fugindo de nada. Só tô cuidando de mim. — respondi, tentando manter a voz firme.
Vasco aproximou ainda mais, nossos rostos quase se encostando, e eu senti o cheiro dele — aquele cheiro que ficou no meu travesseiro no dia que ele dormiu comigo.
— Cuidando? — ele repetiu com um meio sorriso torto de canto de boca. — Tu acha mesmo que aquilo que tu viu significa alguma coisa?
Meu peito apertou.
— Pra mim significa que tu não é pra mim. — falei.
Foi aí que a expressão dele mudou.
O olhar endureceu.
A mandíbula travou.
Ele soltou meu pulso… mas só pra abrir espaço e bater com a mão na moto.
— Sobe. — ele repetiu. — Eu não vou falar contigo na rua. E tu vai me escutar nem que seja a última vez.
Meu coração disparou tão alto que parecia que até ele podia ouvir.
O mundo inteiro sumiu ao redor.
Só tinha ele, a moto, e essa sensação de que eu tava prestes a entrar em algo que eu não ia mais conseguir sair.
Eu respirei fundo, tremendo, sentindo a pressão daquele momento.
E ele ficou ali… me esperando.
Sem piscar.
Sem arredar o pé.
Como se soubesse que, no fundo, eu nunca consegui dizer não pra ele de verdade.
Continua