Gustavo narrando
Desci pra boca depois de resolver umas paradas no QG.
O clima tava meio pesado, meio estranho… e eu já conheço o Vasco o suficiente pra saber quando ele tá com alguma coisa na cabeça.
Cheguei e ele tava sentado na mesa dele, com o caderno de fiado aberto, mas com o olhar longe.
Parecia que o corpo tava ali, mas a mente dele… tava em outro canto do morro.
— O que houve? — perguntei, me jogando na cadeira.
Ele nem levantou a cabeça.
Continuou rabiscando alguma coisa sem sentido no papel.
— Tua irmã veio deixar teu almoço. — respondeu seco.
Só isso.
E voltou a escrever.
Eu estranhei.
Laura nunca descia ali na boca principal.
Mas também não ia ficar perguntando, porque o Vasco tava com a cara de poucos amigos.
Sentei, abri o pote, comecei a comer.
Mas não tava descendo direito.
O silêncio dele tava me dando gastura.
— Aconteceu algo, parceiro? — insisti, observando.
Ele fechou o caderno com força.
Se levantou devagar, e sem olhar pra mim, soltou:
— Nada que eu não possa resolver.
O tom dele…
Conheço.
É o tom de quando ele tá segurando um vulcão por dentro.
— Tá certo. — murmurei.
Ele só concordou com a cabeça e saiu.
Andando rápido, cheio de raiva contida, como se estivesse indo estourar alguma coisa — ou alguém.
Fiquei ali na mesa, sozinho, olhando pra porta por onde ele sumiu.
Terminei de comer meio desconfiado, porque o Vasco assim…
É problema.
Problema grande.
Saí lá pra fora pra fumar e ver o movimento.
As vielas estavam agitadas, o sol batendo forte, vapores correndo pra cima e pra baixo.
Foi aí que um deles — o Niltinho, fofoqueiro do c*****o — olhou pra mim e soltou:
— Cê ficou sabendo não, Gustavo?
Eu franzi o cenho.
— O quê, p***a?
Ele deu aquela risadinha nervosa de quem sabe que vai soltar uma bomba.
Olhou pros lados e sussurrou, mesmo sabendo que a boca inteira tava com antena ligada:
— Do que rolou… entre o Vasco e a Laura…
Meu sangue GELADO na mesma hora.
O cigarro quase caiu da minha mão.
Olhei pra cara do desgraçado com uma mistura de choque e ameaça.
— Fala DIREITO, Niltinho. — rosnei. — Que papo é esse?
Ele levantou as mãos, se fazendo de coitado:
— Eu só repeti o que eu ouvi… que ela desceu ontem… e viu ele com outra mina na boca…
— E que ela saiu chorando.
Meu coração bateu no ouvido.
Eu senti a raiva subir como fogo.
— E tem mais… — ele completou, quase gaguejando.
— Falaram que o Vasco correu atrás dela…
Eu travei.
A cabeça ficou mil.
Laura chorando…
Vasco indo atrás…
Uma loira no sofá…
E minha irmã no meio disso tudo.
Meu sangue começou a ferver de um jeito que eu não sentia desde o dia do abuso.
— Quem falou isso..? — perguntei entre dentes.
Niltinho apontou pro beco, mas eu nem esperei.
Já tava descendo a escada correndo, a mente borbulhando.
Porque se tem uma coisa que eu não admito…
É minha irmã sofrendo.
E principalmente:
Sofrendo por homem.
Ainda mais por um homem que eu respeito como chefe… mas que eu mato se fizer ela derramar uma lágrima por causa dele.
E naquele momento, a única coisa que eu sabia era:
Eu ia descobrir exatamente o que houve entre Vasco e Laura.
Nem que fosse na bala ou no grito.
Gustavo narrando
Chego em casa a mãe está na cozinha
— que cara é essa gustavo?
— começa não dona maria - digo e subo pra escada ate o quarto de laura
Bato na porta mas não esculto nada, abro e ta vazio desco novamente pra cozinha
— cade a laura mãe??
— filho laura saiu com paula! Foi fazer compras. — então ela saiu com a paula, nossa irmã
Saio de casa e quando eu tó saindo vasco ta chegando de moto
— agente precisa conversar... eu sou teu melhor amigo, tó contigo desdo começo ... tu quer pegar a minha irmã... logo a laura?
Digo e ele fica calado!
Quando eu falei aquilo, parecia que até o vento parou.
O capacete do Vasco ainda estava na mão, a moto quente atrás dele soltando aquele cheiro forte de gasolina. Ele só me encarou. Olhos firmes. Mandava nada, mas dizia tudo.
Eu respirei fundo, andando até ele com a raiva subindo igual fogo no peito.
— Fala, p***a! — eu soltei, perdendo a paciência. — Tu ficou com a minha irmã? Tu mexeu com a Laura?
Ele travou o maxilar, aquele jeito dele quando tá segurando alguma coisa pra não explodir.
— Gustavo… — disse baixo.
— Não enrola! — cheguei perto, peito a peito com ele. — Eu confiei em tu. Tu sabe da vida que a gente leva. Tu sabe que ela é outra coisa, mano! Tu sabe que ela é diferente!
Ele fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, parecia mais cansado do que culpado.
— Eu sei, parceiro… — murmurou. — E é exatamente por isso que eu me afastei.
Isso me quebrou um pouco.
Eu puxei o ar com força.
— Então por que fez ela chorar? — a voz saiu mais baixa agora, mais doída do que brava. — Por que deixou ela nesse estado?
Ele desviou o olhar pro chão por um instante.
— Ela me pegou com a loira… mas não era o que ela pensou. — disse sério. — Eu larguei aquilo ali na hora. Mas ela já tinha visto. E eu não fui atrás porque…
— Porque o quê? — pressionei, sentindo o sangue ferver.
Ele levantou o rosto e me encarou com uma verdade que eu não tava preparado.
— Porque eu não sei ser homem suficiente pra ela, Gustavo.
— Eu não sei fazer ela feliz.
— E se eu ficar… eu vou acabar machucando ela, igual todo resto do mundo faz.
Eu travei.
Dois segundos que pareceram uma eternidade.
A raiva continuava ali, mas bateu uma confusão.
Vasco nunca tinha falado daquele jeito.
Nunca tinha se refletido assim sobre nada.
— Mas tu gosta dela. — eu disse, não perguntando… afirmando.
Ele engoliu seco.
— Gustavo… — respirou fundo. — Eu não devia gostar.
E isso me irritou mais do que se ele tivesse dito que sim.
— Tu não devia? — dei um passo pra trás, rindo de incredulidade. — Tu não devia gostar da minha irmã?
Ele ficou duro, sério.
Eu continuei:
— Sabe o que tu devia não fazer, Vasco? — falei com o dedo no peito dele. — É deixar ela confusa assim.
— É se esconder atrás dessa p***a de desculpa pra fugir.
Ele apertou a mandíbula, claramente irritado, mas calado.
— A Laura é menina ainda, p***a. — minha voz saiu mais baixa. — Ela é inocente. E tu sabe disso melhor do que eu. Se tu mexer com ela… tu vai mexer comigo.
Ele levantou o rosto e me encarou com firmeza.
— Eu sei, Gustavo.
— E por isso eu tô tentando ficar longe.
Fiquei alguns segundos respirando pesado.
Queria gritar.
Queria bater.
Queria entender.
Queria proteger ela de tudo.
Mas eu também conhecia o Vasco.
Demais até.
Conhecia o pior dele…
e também o melhor.
Dei um passo pra trás finalmente e soltei:
— Se tu quebrar o coração da minha irmã, Vasco… eu juro pela vida que a gente leva que tu vai me encontrar.
Ele assentiu, sério, sem medo — mas com respeito.
— Eu sei. — respondeu.
Eu virei pra ir embora, mas antes de entrar na viela, olhei por cima do ombro.
— E se tu não sente nada por ela…
— Então por que tu ficou duas semanas sumido?
Ele ficou parado.
Quieto.
Sem resposta.