Cap 12

912 Palavras
Vasco narrando Duas semanas. Quatorze dias. Trezentas e tantas horas. E eu ainda tô remoendo aquela noite como se tivesse acontecido ontem. Depois do que houve com a Laura… eu mudei. Não apareci mais. Não subi na casa dela, não mandei recado, não bati na janela, não fiz nada. E não foi porque eu não quis. Foi porque eu quis demais. Aquela noite mexeu comigo de um jeito que eu não tava preparado. Ver ela quebrada, chorando, frágil… e ao mesmo tempo tão forte… Sentir ela dormindo do meu lado, confiando em mim… Eu nunca vivi um bagulho daquele. E eu, Vasco… Chefe da Rocinha… O homem que todo mundo teme… Tô aqui, calado, remoendo sentimento. Sentimento que eu nem devia ter. Essas duas semanas foram a pior tortura. Eu me escondi dela. Sim, me escondi. Não por covardia… Mas porque cada vez que eu pensava em Laura, eu lembrava de quem eu sou. Do sangue que eu carrego nas mãos. Do perigo que é alguém ter o meu nome na boca. De como a vida que eu levo destrói qualquer um que encosta nela. E eu não quero destruir ela. Fiquei pensando nisso todos os dias. Fumei mais que o normal, bebi mais que devia, me joguei no corre do morro pra ocupar a cabeça… Mas nada adiantou. A imagem dela dormindo encostada em mim não saiu da minha mente. E aí veio a pior parte: eu sei que não sou pra ela. Não sou homem de uma mulher só. Nunca fui. Eu não sei se consigo ser só dela. Não sei se consigo dar o que ela merece. Não sei se consigo entrar na vida daquela menina sem levar o caos comigo. Laura é luz. E eu sou escuridão. Se eu chego perto demais, eu apago ela. E eu não quero isso. Mesmo que doa pra c*****o. Então eu sumi. Me escondi no comando, nos corre, nas reuniões, nos acertos, nos problemas. Deixei ela viver os dias dela, sem minha sombra por perto. Mas toda vez que eu ouvi o nome “Laura” ecoando no morro… Meu peito apertou. Toda vez que vi alguém passando perto da rua dela… Eu desliguei do que tava fazendo. Eu posso ter tentado ficar longe. Mas a verdade é uma só: Duas semanas e eu continuo preso naquele beijo, naquele choro, naquele toque… e naquela menina que não deveria ser minha, mas já tá dentro de mim. Tava na boca, sentado na mesa onde eu sempre fico, resolvendo uns negócios de droga que tinham chegado trocadas. Meu humor já tava uma merda. Faz duas semanas que eu tô me escondendo da Laura, achando que tô fazendo o certo, mas cada dia parece que tô cavando minha própria cova. De repente, escutei umas batidas fortes na porta. — ENTRA! — gritei sem paciência. A porta abriu… E quando eu virei, meu coração deu um pulo tão forte que parecia que ia rasgar meu peito. Era ela. Laura. De short jeans, camiseta simples, cabelo preso de qualquer jeito… linda como sempre. Mas com um olhar frio. Duro. Que eu nunca tinha visto ela me dar. — Vim deixar o almoço do Gustavo, — ela disse, seca, sem olhar direito pra mim. Eu levantei na hora, quase esbarrando na mesa. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Quando ela me olhou… ou melhor, quando ela olhou pro sofá… Eu senti meu mundo desmoronar. Porque no sofá tinha uma loira. Uma menina que eu tinha pegado umas duas vezes pra tentar esquecer a Laura. Pra tentar dormir sem pensar nela. Pra ver se eu voltava a ser o Vasco de antes. Mas não funciona assim. O corpo pode até enganar… Mas a mente não. Laura encarou a cena por uns segundos. Segundos que me mataram. — A comida. — ela disse, colocando a marmita em cima do balcão. Nem me olhou mais. Virou as costas e saiu. Meu sangue gelou. A garganta fechou. Fui atrás. Corri. — LAURA, espera! — peguei o braço dela de leve, sem força. Ela se virou na hora, puxando o braço de volta. O olhar dela… queimava. E não era desejo. Era mágoa. Era decepção. — Não é o que tu tá pensando… — comecei, e minha voz até falhou. Mas ela nem deixou eu terminar. — Eu sei MUITO bem o que eu vi! A voz dela tremia. Não de medo. Mas de dor. — E eu nem penso nada! Porque você estar com ela é NORMAL, né? — ela falou firme, engolindo seco. — Tu tá com ela… então segue. Ela virou de novo, sem olhar pra minha cara, sem dar espaço pra eu respirar. E saiu andando pelo beco, com a cabeça erguida… Mas eu vi. Eu vi a lágrima cair. E aquilo me destruiu. De um jeito que bala nenhuma no peito teria coragem de fazer. Fiquei parado no meio da rua, o povo olhando, vapores fingindo que não ouviram, e eu… O chefe do morro… Me sentindo o menor dos homens. Porque eu quis proteger ela do meu mundo. Mas no fim… O que eu fiz foi machucar ela. E a pior verdade que bateu na minha cara naquele momento foi: Ela sentiu minha falta. E eu feri ela. Meu peito ardeu. Fechei as mãos, respirei fundo, e a raiva começou a subir… Não dela. De mim. Porque eu, Vasco… Que sempre tive tudo sob controle… Tô perdendo o que mais quero. E nem sei como recuperar.
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