Ela respondeu, voltando a pegá-lo:
— Eu poderia dizer que suas tatuagens escondidas e sua roupa super hétero esportiva, seu jeito todo, são um escudo para esconder de todos que você gosta de meninos. Com essa sua barba muito bem feita, esse cabelo todo certinho, apara a cada dois dias? Quais tatuagens tem escondido aí? Peito e costas fechados? Um leão? Dragão? Trinta anos e solteirão, um empresário estressado, hummmm, eu também sei ler as pessoas. Odeia crianças e acha que o casamento é uma farsa porque nunca encontrou alguém que te fez querer casar e nunca mais soltar a sua mão.
— Várias namoradas, gosta de viver e se machucou passando dos limites. Cá entre nós, eu tenho certeza que o acidente não foi só um acidente, o namorado te deixou e então ficou difícil. Sabe que a maioria dos meus amigos são gays? Ahhh, e você não fala muito com a sua família porque é briguento e orgulhoso. A comida preferida é alguma coisa sem graça e leve, a música preferida em inglês e o perfume é o mesmo há dez anos.
Ele interrompeu rindo:
— É, quase isso, namorada namorada não era, mas ela me deixou sim. E não a julgo por isso! Tenho um tigre e uma águia, minha família não é amorosa e a gente não se vê por semanas, meses. Eu uso o mesmo perfume desde os quinze anos, minha comida preferida é filé mignon ao molho e salada de folhas, amo verduras.
— Sempre gostei de esportes e me machuquei fazendo isso, querendo provar aos outros que eu podia fazer mais. A roupa esportiva uso hoje porque é mais fácil, sempre preferi social, o cabelo faço toda semana e eu tenho tempo de sobra para manter a barba em dia, mas fiquei meses sem fazer e voltei recentemente. Não acho o casamento uma farsa, acho só as pessoas e seus relacionamentos artificiais.
— Quantas pessoas casadas você vê vivendo realmente o que expõem nas redes sociais? Não me vejo casando nem sendo pai, não julgo quem se ilude com isso, mas acho que um filho afasta e atrapalha a vida do casal, assim como rotular relacionamento. Eu nunca encontrei alguém que quis segurar minha mão e não soltar, confesso que não fui o melhor namorado, nunca fui certinho mesmo.
— A minha vida agitada nem me permitia isso, quando eu estava bem, vivia para o trabalho e cansa, estressa mesmo. Como eu ia ficar com alguém que no final do dia ia me encher a cabeça, cobrando atenção, reclamando porque não mandei bom dia, pedindo presentes? Pode me chamar de errado, mas não me acho na obrigação de sustentar uma mulher porque durmo com ela.
— Eu odeio ser cobrado e forçado a fazer as coisas. Se eu quiser, vou e dou um carro, uma casa, mas não gosto que venham me pedir. Você não tem ideia de como as mulheres no meu meio são e o valor de uma pensão de um empresário. É difícil se relacionar hoje em dia! Por isso sou a favor da vasectomia mesmo e para mulher também. Por lei aqui no Brasil ninguém consegue operar para não ter filhos sem ter filhos.
— Mas fora daqui, ou por baixo dos panos, é até barato. Eu não odeio crianças, só não quero ser responsável por uma.
— Vai ficar ouvindo tudo calada, Marjorie? Já não basta me torturar? Está doendo!
Ela respondeu ironicamente, rindo:
— Ah, que isso, pode continuar, faz tempo que não ouço tantas coisas legais. E com certeza não quero detalhar a minha vida para você, então.
Ele respondeu, puxando a mão dela para ler uma tatuagem:
— Que isso? Tem quantas?
Ela disse que era o nome de uma música que a mãe dela gostava. Ele respondeu:
— Como ela é?
Ela perguntou se ele queria saber da música ou da mãe. Ele disse que os dois. Ela sorriu. Ele começou a falar, olhando outra tatuagem no braço dela:
— Uma borboleta, simboliza liberdade e metamorfose. Sua mãe deve ser amorosa, grudenta, você tem cara de ser fã dela. Ela te beija todos os dias e no seu aniversário faz surpresas? Café na cama? Você apanhava quando criança?
Ela disse sem jeito:
— Era tipo isso, sempre fui a fã número um da minha mãe. Ela era uma super dançarina e muito linda!
Ele percebeu o "era" e falou que sentia muito. Ela respondeu:
— Tudo bem, e sua mãe? Brava? Se você apanhou, imagino que não o suficiente.
Ele respondeu:
— É, super regrada e conservadora, com certeza eu fui um menino difícil, ainda sou. A gente não se fala há meses, há anos não temos muito contato! Quando me machuquei, ela veio ficar comigo, mas quando viu que eu não ia morrer, logo foi embora.
Ela respondeu sentida:
— Sinto muito!
Bateram na porta. Ele falou sério:
— Também sinto.
Ela foi atender, era Danna. Ela perguntou se eles iam demorar, porque outra fisioterapeuta precisava da sala. Mah falou que já tinha acabado, pediu um minuto, fechou a porta e falou para ele:
— A gente precisa sair, desculpa, como eu não esperava você aqui, outra pessoa tem horário e eu fico com você por horas, por causa da distância.
Ele respondeu ainda deitado:
— Tudo bem, eu devia ter me organizado melhor, só é uma pena que seja o seu primeiro e último atendimento comigo. Ah, a não ser que você mude de ideia e se lembre que eu já paguei tudo por dias e que também vou evitar um novo profissional por semanas e me enferrujar cada vez mais.
Ela se aproximou para ajudá-lo e falou rindo desanimada:
— Eu não sei o que vou fazer da minha vida, mas pelo menos conversar com você hoje tirou o meu foco um pouco dos meus surtos particulares. A gente devia ter conversado antes, todos os dias em que fiquei plantada na sua sala feito boba!
Ele respondeu antes de ela abrir a porta:
— É, eu concordo plenamente. Só que cada dia é um dia, poderia te dizer que amanhã vamos conversar em casa, mas não sei como vou acordar. Acho que por isso prefiro ficar sozinho, para não ficar pensando no que as pessoas pensam de mim quando me veem no meu pior eu. Desculpa por ontem, obrigada por me atender hoje!
Ela sorriu, disse que estava tudo certo e que, caso não se demitisse até o final do dia, iria na casa dele no dia seguinte. Ele falou rindo:
— Até amanhã, Marjorie, e não se atrase! Por favor.