Capítulo 18

1228 Palavras
Ela só falou bom dia, foi guardar as coisas e se trocar. Tinha um paciente novo cedo, nem deu tempo de mexer no celular. Depois de arrumar a sala e dar um geral em tudo, varrer e passar pano na clínica quase toda, ela foi na cozinha tomar café, era quase a hora do almoço. Decidiu que não ia atender Vincenti e que ia fazer de tudo para ser demitida logo e começar a procurar outro emprego, mesmo que não fosse na sua área. Danna entrou na cozinha e perguntou se estava tudo bem. Ela disse que sim. Danna respondeu: — Mah, eu te conheço, sua cara está péssima. O que houve? Fica difícil te ajudar se você não quer ser ajudada. Ela respondeu chateada: — O Túlio, terminei com ele. A gente brigou! Mas não quero ficar falando disso. Outra colega de trabalho entrou na cozinha e começou a falar sobre outras coisas. Danna falou que ia sair para almoçar fora. Aproveitando isso, Mah realmente decidiu não ir atender Vincenti, ficou por lá e a hora foi passando. Para ir lá, era preciso sair na hora do almoço, ela não foi e nem avisou, pediu uma marmita e foi fazer o horário de almoço. Ligou o celular e, primeiro de tudo, conversou com a avó, que achou estranho ela ter dormido fora e perguntou se estava tudo bem. Ela garantiu que sim, contou que foi a um barzinho com os amigos e então a avó nem se preocupou muito. Gab tinha enviado uma única mensagem: "Bom dia Mah tudo bem?? Desculpa sair sem falar nada, estava atrasado" Ela respondeu: "Oi desculpa por ontem" "Tirando a ressaca horrível eu tô bem e vc ?" "Fiz muita coisa??" "Eu nunca mais vou beber" Ele respondeu rápido: "Tô bem. Não, que isso de boa a gente só dançou curtiu" "Vc lembra né? Porque segundo você ninguém perde a memória bebendo????" Ela respondeu: "Kkkkkkkkkk" E não disse mais nada, porque não se lembrava de nada depois que saiu do barzinho. Viu todas as mensagens do Túlio e não respondeu nada. Ele estava se desculpando, perguntando se ela queria mesmo terminar, disse que estava muito decepcionado com ela e que ia viajar para conversar e terminar como deveria ter começado, pessoalmente, falou que estava depressivo, querendo desistir daquela vida e que de qualquer forma ia voltar para o Brasil logo. Ela ficou chateada, mas achou melhor conversar à noite e se sentiu muito culpada por ter ficado com Gab. O horário de almoço já tinha acabado. Ela foi para uma sala e começou a higienizar com álcool tudo por lá para passar o tempo, estava com os fones de ouvido escutando músicas românticas antigas, sem ânimo para pensar nas coreografias e na audição. Estava distraída cantarolando a música "Você não me ensinou a te esquecer - Caetano Veloso". Uma colega bateu na porta e falou que o paciente tinha chegado. Ela respondeu sem entender, tirando o fone: — O quê? Vai usar a sala? Já vou sair! A moça falou na porta, ficando para fora: — Pode entrar, fica à vontade! Mah estava guardando o borrifador e o paninho quando viu Vincenti entrando. Ficou muito surpresa e séria. Ele falou com deboche: — Olá, Marjorie, se esqueceu de mim? Mesmo horário, a semana toda, se lembrou? Oi? Ela foi fechar a porta e falou parada na frente dele, super séria: — Eu esqueci de avisar, não vou conseguir te atender. Ele respondeu super de boa, muito gentil: — Entendo. Agendou outra pessoa no meu horário? Ela disse que não ia mais atender, que não queria trabalhar com ele. Foram interrompidos pelo celular dele tocando. Ele disse que precisava atender, parecia algo importante do trabalho. Assim que desligou, ele falou: — Eu vim até aqui me desculpar por ontem e não suporto sair de casa. Sinto muito por ter me alterado com você e isso não vai se repetir. Pode me atender? Pelo menos hoje? Para eu não perder a viagem. Eu estou todo enferrujado, pode acreditar! E aqui dói, eu me viro e dói, eu respiro e dói. Ela respondeu desanimada, querendo rir: — Aí que bobeira. Sinto muito, eu não quero mais continuar e você não é meu paciente de fato, nem a avaliação fizemos. Não é nada pessoal, entenda que não vou continuar! Quase não tenho pacientes aqui mesmo, em breve vou me desligar da clínica. Ele perguntou por que, se estava tudo bem na vida dela ou não. Ela falou irônica: — Ué, grita comigo num dia e acha que vou desabafar com você no outro? É melhor você ir embora! Ou a minha chefe vai chegar, e você não vai gostar de me ver tomando xingo, ou talvez goste, né, sei lá. Ela voltou a higienizar as coisas. Ele se aproximou com a cadeira de rodas e falou com deboche: — Eu paguei por isso e perdi meu tempo vindo até aqui. Então, vou ficar te aguardando e se você mudar de ideia, estarei aqui até o meu horário se encerrar. Ela sorriu e disse, colocando um fone de ouvido: — Quer provar do seu próprio veneno, senhor Vincenti? Ele respondeu sério, encarando-a fixamente: — Não, quero provar do seu. Ela continuou com o que estava fazendo. Ele perguntou o que ela estava ouvindo. Ela falou que eram músicas. Ele respondeu irônico: — Ah, são? Achei que fossem filmes. Faz tempo que você trabalha aqui? É casada? Ela disse que há um ano, um pouco mais. Ele falou: — Tem filhos? Espera, deixa eu adivinhar! Eu gosto de ler as pessoas. Vinte e sete anos, amigada porque não gosta do casamento tradicional com véu e igreja, dois filhos, menores de cinco anos, uma menina que é elétrica e um menino tranquilo que puxou o pai. Será que você namorou ele desde a adolescência? Não, com certeza você não é dessas. É esperta demais! Ela respondeu rindo: — Ou de menos. Ele continuou: — Talvez more com os pais, mimada mas não encostada, tem um filho de um relacionamento que não deu certo, talvez abusivo e então virou uma mulher forte, empoderada que trabalha e não abaixa a cabeça para ninguém. Ela disse, indo guardar o borrifador de novo: — Eu sou forte e empoderada? Vem, já que vai me encher, pelo menos faz algo, vamos alongar e terminar a avaliação. Ela o ajudou a deitar no colchonete. Ele continuou falando: — Ahh, fraca você não é. Mas usa perfume forte no trabalho e o cabelo vive bagunçado, digo, despojado, desculpa. Acho que talvez solteira e à busca de um bom partido para ter o filho que sonha e construir uma família. Não, não, você não é nada tradicional. É dançarina, não é? À noite você dá aula de dança! Ela estava abaixada próxima, mexendo nas pernas dele e disse que dava. Ele respondeu: — Então esquece qualquer coisa clichê, as pessoas desse meio gostam de liberdade. Solteira, aventureira e odeia crianças, não quer se prender a homem algum porque seu coração é indomável. Aiiii, vai me mandar para o hospital desse jeito! Ela respondeu irônica, já ficando irritada: — Talvez. Ele continuou falando, tirando as mãos dela de perto: — Dá um minuto, por favor. Se a avaliação dói assim, imagina a fisioterapia todos os dias. Talvez eu esteja muito enganado, gosta de mulheres? Faz sentido, essas tatuagens!
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