Capítulo 7
Adorável proposta
Juliana
No dia seguinte ainda bastante magoada, cheguei ao trabalho e rumei diretamente a minha sala. Não quis olhar em volta e temia que Serkan quisesse se desculpar mais uma vez, mas ao voltar meu olhar a porta de sua sala, encontrei Serkan me olhando parado à porta. Ele tinha um sorriso fofo no rosto e isso não combinava com ele. O olhar estava lânguido também, outra coisa que não combinava com ele. Então me chamou.
— Juliana, venha.
Ele apenas comandava e eu tinha que ir, detestava aquilo, mas era meu chefe. Entrei em sua sala e parei no meio do lugar o olhando.
— Feche a porta.
Ao me virar, vi olhares do outro lado da sala me observando atentamente. Naturalmente, os fofoqueiros da empresa já queriam saber o que tanto o chefe queria comigo. Fechei a porta e engoli em seco temendo o que ele queria dizer. Voltei meu corpo lentamente em sua direção.
— Juliana, eu vou precisar de um serviço seu a mais.
Franzi a testa sem entender nada.
— Serviço a mais?
Já não era suficientemente a mais eu ter que conversar com o velho sobre vender sua casa?
— Sim, eu vou precisar ir a Istambul e quero que vá comigo.
Arregalei os olhos, senti a garganta ficar extremamente seca em segundos. Ir a Turquia? Eu que nunca saí do meu país?
— O quê?
— É... — Ele ajeitou a gravata parecendo agitado, desviou o olhar para o notebook a sua frente — Eu preciso ir a negócios e preciso da minha secretária.
— Mas, eu não sei falar turco. — Protestei.
— Não será necessário, você vai ficar na minha casa e terá tudo que precisa.
Baixei o olhar. Que tristeza, ir a lugar tão bonito e histórico e não poder visitar nada? Por que, então, eu seria necessária? Ele se levantou e ergueu a persiana da janela com dois dedos para olhar lá fora. O que se passava naquela cabeça? O que ele iria fazer na Turquia se disse que tudo que queria era ter um emprego no Brasil?
— Eu não tenho passaporte. — Dei mais um motivo para não ir.
— Ah não? Bem, eu vou resolver isso rapidamente para você. Em quinze dias estará pronto. Resolverei tudo.
Eu não tinha mais objeções válidas. Então, ele saiu de seu lugar e começou a caminhar em minha direção. Senti receio. Serkan se aproximou tanto que segurou meus braços. Olhei em seus olhos. Gelei e depois aqueci. Aquele olhar me fazia enrubescer e esquentar. O homem tinha uma presença imponente e desafiadora que me deixava mole.
— Escute, eu preciso que vá comigo realmente. Não há nenhum problema com os seus pais?
Era tão fofo ver ele falar o português tão corretinho. Claro que havia problemas com os meus pais. Eles iam me encher de perguntas que eu não saberia responder.
— Eles vão me perguntar o que vou fazer lá. — A voz quase não saiu.
— Diga que vai com seu chefe, seu superior imediato. — Ele soltou meus braços e desviou o olhar que me hipnotizava — Tenho coisas a resolver para esta empresa e preciso de uma secretária.
— Sim, senhor.
— Assim que seu passaporte estiver pronto, nós partiremos.
Ele se sentou em sua cadeira da direção de novo e a empurrou para trás, ficando confortável. Depois passou a estalar os dedos da mão direita com os próprios dedos enquanto me observava com aquele olhar penetrante e intimidador.
— Certo.
— Está dispensada, compre uma mala se não tiver.
Uma mala? Que tamanho? Quando me virei para abrir a porta, ouvi duas batidinhas nela, mas sem esperar que alguém abrisse, a secretária Barbara abriu a porta a fazendo bater no meu nariz. Que dor! Meus olhos rapidamente encheram de água pela dor no nariz. Que parte desgraçada do nosso corpo que doía mais que topada do dedo mindinho? O nariz
— Awh! — Soltei um gritinho, sentindo muita dor.
— Juliana, você estava aí atrás?
— Parece que sim!
Levei a mão ao nariz e olhei os dedos para ver se havia sangue. Em segundos senti as mãos de Serkan em meus ombros me virando para ele.
— Deixa eu ver, não machucou, foi só a pancada. Barbara que está fazendo parada aí? Vá buscar gelo!
— Ah, agora sou a garota do gelo! — Reclamou ela saindo da sala.
— O que ela veio fazer aqui? Está bem mesmo?
Ergui o olhar para ele que se aproximou demais. Serkan segurou meu rosto e olhou dentro de meus olhos. Havia uma tensão sensual entre nós. Olhei seus lábios por instantes que pareceram minutos. Ele retribuiu. Ficamos desconcertados. Eu sabia que seria muito difícil trabalhar com ele sem desejar beijá-lo de novo. O que sentimos na boate foi real, embora ele quisesse fingir que nada aconteceu. Ir com aquele homem para uma viagem a Turquia me faria sentir como se estivesse dentro de uma das novelas que eu assistia. Que pesadelo... Ele era homem demais para qualquer mulher, principalmente para mim. Serkan me deu um sorriso bonito, tentando me acalmar.
— Não vai ficar marcada para a viagem — Disse sorrindo.
— Ah que alívio.— Fui irônica e ele sequer percebeu ou fingiu não perceber.
Saí da sala preocupada e com dor. Tinha que ser comigo. Barbara tinha que bater a porta no meu nariz, ela tinha que ir lá fuçar o que ele queria comigo, como se eu não tivesse notado seus olhares apaixonados para o chefe turco. Comecei a surtar por dentro pensando na Turquia. O que ele ia fazer lá? Por que me levar? Por que eu? E a Barbara que era mais antiga? Eu estava perdida, mas ainda assim sonhando em conhecer a cidade dos meus sonhos acordada. Sonhando em conhecer a linda cidade das novelas que eu devorava uma atrás da outra na internet. Estava frio na Turquia, eu teria que comprar roupas pesadas de inverno e talvez, de neve. Neva em Istambul? Não fazia ideia. Estava com o coração acelerado e a cabeça cheia de pensamentos que nem consegui trabalhar mais. Barbara me viu em minha sala e me levou o gelo.
— Juliana, me desculpe, eu não sabia que estava logo atrás da porta.
Peguei o gelo de sua mão e levei ao nariz.
— Obrigada, Barbara, mas você bateu, podia ter esperado alguns segundos.
Sentei-me na minha cadeira sob os olhares curiosos dela.
— Ele queria acertar a última reunião sobre o condomínio?
— N-não...Ele queria outra coisa. Quer dizer, era outro assunto.
Quando ergui o olhar para ela, a vi revirar os olhos e quando me viu, tentou disfarçar.
— Como pode não é? Ele chegou essa semana e já dá ordens tão... é... — Ela percebeu que não tinha o que dizer — Enfim, eu vou para a minha mesa, se você precisar de alguma coisa, me avisa.
— Pode deixar.
Eu reconhecia uma cobra venenosa quando via de longe. Barbara era uma mulher intrometida e pior, ela andava suspirando pelo meu chefe. Era chefe dela também, mas antes de tudo, só eu conhecia o gosto daquele beijo que ela parecia querer saber. Só que se dependesse de mim, ela jamais saberia. Bem, pelo menos não ali dentro da empresa. O que Serkan fazia em sua vida privada não me dizia respeito. Era hora de acordar, Ju, você não passava de uma funcionária. Ele não iria nunca mais te enxergar como a mulher que ele beijou na boate. Aquilo era quase matemático de tão certo. Mas era inevitável que meus pensamentos flutuassem até ele, era impossível impedir uma imagem de pular em minha mente e era assim que acontecia desde que o conheci. Decidi abrir o notebook e fingir que estava trabalhando. Pelo menos daquela forma eu poderia tentar esquecer dele por algum tempo.
Porém, aquilo não bastou para que Barbara tentasse saber o que Serkan queria. Ela voltou à minha mesa mais tarde.
— Soube que o chefe vai à Turquia?
— Não, não soube. — Menti.
— Ele pediu para comprar as passagens?
Mas que mulher insistente!
— Barbara se eu não sabia que ele vai à Turquia, como podia comprar as passagens? Eu sou tradutora, não faz-tudo!
— Credo, só perguntei.
Aquele comportamento só me dava mais temor. O que pensariam da nova tradutora que ia à Turquia com seu chefe? Rolariam suposições e fofocas com meu nome. Uma aproveitadora. Uma v*******a. Eu sei o que iam dizer, principalmente ela, que se encarregaria de espalhar as piores fofocas. Ergui o olhar para o escritório e pude jurar que em alguns momentos, as quinze pessoas que trabalhavam no andar me olhavam de vez em quando. Aquela era a pior propaganda que uma mulher pode ter na vida. Baixei os olhos para o notebook e voltei a trabalhar nos contratos. Quando Serkan saiu para o almoço, ele me olhou e deu uma piscadinha de olho para mim. Não era possível que ele não soubesse que aquilo inflamaria ainda mais as fofocas! Mas ao mesmo tempo, inflamou a mim também. Como pode um homem ser tão charmoso? Único. Tudo que ele fazia tinha a marca dele, o jeito de andar, o olhar altivo, dominante que deixava a mim e a Barbara suspirando quando ele passava. Pisquei várias vezes para tirar Serkan do meu pensamento junto com aquela piscadinha cafajeste. Era hora de lembrar da Turquia. Ele falou casa dele? Aquilo não ia prestar, seria como entrar na jaula do leão e não ser comida por ele. Soltei uma risada baixa, mas Barbara ouviu e ficou me olhando como se eu fosse doida. Não que eu fosse realmente doida, mas eu estava batendo o pino com aquela história de Turquia. Fui para casa aquele dia imaginando todos os lindos lugares por onde eu queria passar. Se Serkan me permitisse.