Pré-visualização gratuita Capítulo 1 — O Que Foi Tirado
Antes de se tornar uma lembrança, você foi um erro que precisou ser apagado.
Cláudio Feretti não governava apenas homens. Governava o medo. Seu nome atravessava fronteiras sem precisar ser pronunciado em voz alta. Na Itália, bastava um silêncio mais longo para que todos soubessem: ele estava envolvido. Onde havia equilíbrio frágil entre famílias, onde pactos eram selados com sangue e honra, Cláudio era a linha que não se cruzava.
Mas dentro do carro n***o que cortava a cidade ao anoitecer, ele não era o rei do submundo.
Era apenas um pai.
Você se sentava no banco de trás, pequena demais para alcançar o chão com os pés, observando as luzes da cidade como se fossem estrelas domesticadas. Gostava do som do motor. Gostava da sensação de segurança que vinha do simples fato de ele estar ali.
— Não coloque a mão no vidro — ele dizia, sem dureza, apenas cuidado.
Você obedecia. Sempre obedecia.
Seu mundo não conhecia pobreza, mas também não conhecia liberdade. Os salões de mármore, os corredores silenciosos, os homens armados que nunca sorriam — tudo aquilo era normal para você. O perigo não parecia ameaça quando era rotina.
Até o dia em que deixou de ser.
Naquela noite, o ar estava errado. Cláudio sentiu antes de entender. Um desconforto antigo, aprendido com anos de traições e funerais silenciosos. Ele mandou o carro acelerar, os olhos atentos aos retrovisores, o pulso firme demais no volante.
Você dormia.
E talvez esse tenha sido o maior pecado dele: achar que ainda dava tempo.
O ataque não veio com tiros. Veio com algo pior.
Veio com acordo quebrado.
Um bloqueio. Homens que ele reconhecia. Rostos que já dividiram mesas e promessas. Não houve discussão longa. Só a certeza de que alguém tinha decidido atingir onde mais doía.
Cláudio reagiu rápido. Rápido demais para alguém que ainda acreditava em lealdade.
Você foi retirada do carro por mãos que fingiam cuidado. Seu choro foi abafado antes que entendesse o motivo. A última imagem que guardou foi o rosto dele sendo empurrado contra o capô, o sangue escorrendo pela testa, os olhos presos nos seus.
— Não olhe — ele tentou dizer.
Mas você olhou.
Depois disso, tudo virou fragmento.
Você não foi morta.
Isso seria misericórdia.
Foi entregue.
Mudou de nomes, de cidades, de histórias. Aprendeu cedo que perguntas machucavam. Que silêncio mantinha você viva. Cada novo lar trazia regras mais duras, castigos mais longos, afetos condicionados. Seu corpo cresceu carregando marcas que ninguém via. Seu rosto, intacto, era quase uma ironia c***l — como se o mundo tivesse decidido preservar apenas o que serviria para lembrar.
Você aprendeu a trabalhar cedo. Aprendeu a baixar os olhos. Aprendeu a existir sem ocupar espaço.
E enquanto isso…
Cláudio Feretti sangrava.
A busca começou na mesma noite. Primeiro com fúria, depois com método, por fim com obsessão. Cidades foram viradas do avesso. Pessoas desapareceram. Pactos antigos foram queimados. Mas você tinha sido apagada com cuidado. Como se alguém tivesse previsto exatamente como ele procuraria.
Cinco anos se passaram.
Cinco anos de um homem que continuava respirando apenas porque ainda não tinha encontrado você.
Até aquela tarde.
Até a Ferrari diminuir a velocidade por uma rua esquecida.
Até um restaurante decadente surgir no campo de visão.
Até você cruzar entre as mesas com passos lentos e cansados.
Cláudio não precisou ver seu rosto inteiro.
Reconheceu a forma como você carregava o próprio corpo.
Reconheceu a maneira como o mundo tinha quebrado você.
E ali, pela primeira vez desde a noite do ataque, ele soube:
Você estava viva.
E tudo o que tinha sido contido dentro dele começou a despertar.