Você não percebeu quando passou a ser seguida.
No começo, foi apenas uma sensação incômoda. O pressentimento de estar sendo observada quando atravessava a rua depois do trabalho. O som de passos que diminuíam quando você diminuía. O reflexo de um carro parado tempo demais no mesmo lugar.
Nada concreto.
Nada que pudesse ser provado.
E ainda assim, seu corpo sabia.
Naquela noite, ao fechar o restaurante, o céu estava pesado, carregado de nuvens baixas. Você puxou o casaco com força ao redor do corpo, o frio entrando pelos ossos já cansados. Caminhava rápido, contando os passos até o ponto de ônibus, repetindo mentalmente que era só cansaço.
Foi quando ouviu seu nome.
— Alessa.
A voz veio suave demais.
Você se virou de imediato, o coração disparando. Um homem estava parado a alguns metros. Aparência comum. Rosto esquecível. O tipo de pessoa que não chama atenção — e por isso mesmo, perigosa.
— Sim? — respondeu, mantendo distância.
Ele sorriu de leve.
— Trabalho com pessoas que gostam de ajudar. Soube que você anda passando dificuldades.
Seu estômago revirou.
— Não estou interessada — disse, firme, e tentou seguir em frente.
Ele deu um passo na sua direção.
— Não seja precipitada. Há gente disposta a oferecer p******o. Segurança. Um lugar melhor do que—
— Eu disse não.
Você passou por ele, sentindo o corpo inteiro em alerta. Não correu. Não gritou. Apenas caminhou mais rápido, como aprendeu a fazer quando a vida ensinou que reagir demais também era um risco.
Você não viu quando ele levou o telefone ao ouvido.
— É ela — murmurou. — Ainda não lembra de nada.
Do outro lado da cidade, Claudio Feretti observava telas.
Relatórios espalhados sobre a mesa. Fotos suas. Endereços. Horários. Rotinas. Tudo aquilo que ele jurou nunca mais permitir que fosse usado contra você — e que, ainda assim, agora estava novamente em mãos erradas.
— Eles chegaram antes de você — disse uma voz jovem atrás dele.
Alsean.
O filho que cresceu vendo o pai governar o mundo com frieza.
O herdeiro treinado para não hesitar.
— Você está ultrapassando limites — continuou Alsean, o olhar fixo no pai. — Está expondo tudo por causa dela.
Claudio não se virou.
— Ela não é causa. — A voz saiu baixa. — Ela é consequência.
Alsean cerrou o maxilar.
— Você falhou uma vez. E agora quer consertar usando o império inteiro como escudo.
— Eu falhei porque confiei na pessoa errada — respondeu Claudio, finalmente encarando o filho. — E não vou repetir isso.
— Ou porque colocou sentimentos onde não devia.
O silêncio entre eles foi pesado.
— Observe — disse Claudio, quebrando-o. — Mas não interfira.
Alsean sentiu algo que não conhecia bem: medo.
Não da ameaça externa.
Mas do que aquela obsessão poderia destruir.
Enquanto isso, você chegava em casa com as mãos trêmulas. Trancou a porta, encostou-se nela, respirando fundo. O apartamento pequeno parecia ainda menor naquela noite.
Foi então que a memória veio.
Não inteira.
Não clara.
Apenas um fragmento.
Luzes passando rápido pela janela.
O som grave de um motor.
Uma voz masculina dizendo: “Não tenha medo.”
Você levou a mão à cabeça, o coração acelerado.
— Que d***a… — sussurrou.
Não sabia de onde aquilo vinha. Só sabia que não era imaginação.
Na mesma hora, seu celular vibrou.
Número desconhecido.
Você hesitou. Atendeu.
— Não aceite ajuda de estranhos — disse a voz do outro lado.
Seu corpo gelou.
— Quem é você?
Uma pausa curta. Controlada.
— Alguém que sabe que você está em perigo. — Ele respirou fundo. — E que não vai deixar que te machuquem de novo.
— De novo? — sua voz falhou. — Do que você está falando?
— Ainda não — ele respondeu. — Mas vai lembrar.
A ligação caiu.
Do outro lado da cidade, Claudio fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso de cada escolha que vinha pela frente.
A ameaça já estava perto demais.
Você começava a despertar.
E o passado… não aceitaria mais silêncio.