Lobo Narrando
Eai rapaziada! Meu nome de batismo é Eliezer, mas quase ninguém me chama assim. No meu mundo, nome de documento não vale nada. O que conta é o respeito, a posição que tu ocupa, o que você faz pra se manter no topo..Me chamam de Lobo. E esse nome não veio à toa.
Sempre fui assim, um predador. Silencioso quando preciso, letal quando necessário. Não sou do tipo que rosna à toa, mas quando mordo, não solto. No jogo que eu vivo, tem muito cachorro que late demais e acaba morto cedo. Eu não. Eu observo, escolho o momento certo e só ajo quando sei que vou vencer..Lobo anda sozinho? Na maioria das vezes, sim. Não confio em qualquer um, não sou de fazer aliança com gente fraca. Mas também sei que uma alcateia bem montada vale mais que um exército. E os meus sabem que, se andam comigo, têm que ser tão firmes quanto eu.
Minha história não é bonita, nem precisa ser. Cresci aprendendo que, nesse mundo, ou tu devora ou é devorado. Eu escolhi o primeiro. A vida nunca me deu escolha fácil. Desde moleque, aprendi que quem vacila vira presa. No morro, ou cê corre atrás ou fica pra trás. Eu sempre fui o primeiro tipo.
Comecei no corre cedo, observando, aprendendo, crescendo no meio de gente que já tava há anos no jogo. Mas eu nunca fui só mais um. Sempre soube que ia chegar longe, que ia ser mais do que um qualquer perdido na quebrada. E foi assim que o vulgo pegou.
Lobo.
Porque eu não sigo ninguém. Eu traço meu próprio caminho. Porque eu não confio de graça, mas quando confio, protejo os meus. E porque, quando eu entro num jogo, eu jogo pra ganhar. Hoje, meu nome pesa. Não sou só um cara qualquer na cidade. Eu domino meu espaço, imponho respeito. Mas o problema do poder é que ele atrai duas coisas: inveja e problema. E eu tô sempre pronto pros dois.
Não sou santo, nunca tentei ser. Mas também não sou burro. Sei até onde posso ir, sei quem merece minha lealdade e sei quem tá só esperando a chance de me derrubar. E nesses, eu chego primeiro. É assim que eu vivo. No topo da cadeia alimentar. Porque nesse mundo, ou cê é caçador ou vira caça. E eu nunca fui de correr de ninguém. Meu corpo carrega minha história. Cada tatuagem que eu tenho tem um motivo, uma lembrança, um corre que eu passei. Não sou desses que tatua só por estilo, cada risco na minha pele é parte do que eu vivi. Do que eu conquistei.
Sou malhado porque a guerra nunca para. Nesse mundo, se tu não tiver preparado, cê cai. Corpo forte, mente afiada e atenção dobrada, essa é a regra. Não posso me dar ao luxo de ser fraco, não posso dar brecha pra ninguém. Mas naquela noite, com a Alice, foi diferente.
A gata chegou cheia de marra, tentando esconder quem realmente era. Mas eu saquei de cara. Vi nos olhos dela que ela não pertencia àquele lugar, mas que queria pertencer. Queria sentir o perigo, queria brincar com fogo. E eu? Eu sou o próprio incêndio. Quando ela chegou perto, eu sabia que ia dar r**m ou muito bom, dependendo do ponto de vista. Corpo pequeno, boca atrevida, olhar que desafiava. Eu podia ter ignorado, podia ter deixado ela seguir o jogo dela. Mas eu nunca fui de recusar um desafio.
Levei ela comigo sem pensar duas vezes. No carro, a tensão já tava no ar. Minha mão na coxa dela, os dedos dela arranhando minha pele como se quisesse me testar. E quando eu parei o carro e puxei ela pra mim, soube que aquela mulher ia ser um problema na minha vida. Um problema que eu tava doido pra ter. A Alice era diferente. Não era só mais uma gata querendo se aventurar no perigo, não era só curiosidade. Tinha algo nela que me instigava, me puxava pra um lugar que eu não costumava ir.
Quando eu puxei ela pra perto, senti o corpo pequeno colar no meu, a respiração quente batendo no meu pescoço. Ela não era do tipo que recuava. Pelo contrário. Olhava pra mim com aquela cara de quem sabia exatamente o que tava fazendo, mas ao mesmo tempo, eu via no fundo dos olhos dela que era tudo novo. Ela queria jogar, mas não conhecia as regras. E eu? Eu tava pronto pra ensinar.
Levei ela pro meu canto, sem pressa, curtindo cada segundo daquela tensão entre a gente. Alice não era de ceder fácil, tentava manter o controle, mas eu sabia que, no fundo, ela só queria se perder um pouco. Esquecer o mundo certinho dela e se jogar na bagunça que eu representava.
Quando minhas mãos deslizaram pela cintura dela, senti a pele arrepiar. Quando minha boca encontrou a dela, foi como se a gente já se conhecesse há anos. O beijo não foi calmo, não foi suave. Foi intenso, cheio de vontade, cheio de um desejo que a gente nem tentou disfarçar.
E ali, naquele quarto, sem rótulos, sem status, sem máscaras, ela não era a arquiteta bem-sucedida, nem eu era o cara que todo mundo temia. Ali, a gente era só Alice e Lobo. E naquela noite, o mundo lá fora deixou de existir.
A noite tinha sido sinistra, mas o corre nunca para. Assim que Alice saiu, já botei a camisa, joguei um pouco de água no rosto e peguei o celular. Mensagem perdida do Binho, meu braço direito.
— Chefe, tem um papo que cê precisa ouvir. Tô no ponto.
Não era qualquer um que me chamava de chefe. No meu time, respeito se ganha, não se impõe. Binho era dos meus, leal, firmeza, sabia a hora de agir e a hora de calar. Se ele tava dizendo que o papo era sério, eu tinha que ouvir.
Cheguei no ponto combinado e ele já tava lá, encostado na moto, cara fechada.
— Fala, viado, qual foi? — soltei, cruzando os braços.
— Bagulho é o seguinte, Lobo… — Ele passou a mão na nuca, como fazia quando tava bolado. — Tem uns cara de outro lado querendo meter o pé na nossa quebrada. Tão sondando, trocando ideia com gente errada.
Minha expressão fechou na hora.
— Quem? — perguntei, a voz baixa, mas carregada de peso.
Binho respirou fundo.
— Marreta e os cara dele. Tão tentando ganhar espaço, achando que nóis tá de bobeira.
Soltei um riso seco. Marreta era burro de pensar que podia brincar comigo.
— Esses o****o não aprende, né? — Passei a língua nos dentes, já sentindo a raiva subir. — Manda um recado pra ele. Diz que, se ele continuar nesse caminho, eu mesmo vou resolver.
Binho assentiu.
— Fechou. Quer que eu movimente os menor?
Olhei ao redor, a cidade se estendendo à nossa frente, brilhando como se não tivesse um submundo fervendo logo abaixo.
— Ainda não. Primeiro, quero saber até onde esse filha da p**a acha que pode ir. Mas fica de olho. Qualquer passo fora da linha, cês me chamam.
Binho sorriu de canto, aquele sorriso de quem já sabia que ia dar merda.
— Pode deixar, chefe. Vai ser do jeito que cê gosta.
Balancei a cabeça, acendi um cigarro e soltei a fumaça devagar.
— É, Binho… Parece que a noite ainda não acabou.