Depois que cheguei carregada de compras, encontro papai na sala de estar a folhear alguns documentos e parece bem concentrado.
— Trazendo trabalho para casa? — Falo me aproximando dele e sento-me no sofá a sua frente. Assim que registra minhas palavras, ele levanta os olhos e coloca os papéis de lado.
— Bem, você sabe como eu sou. Mas e você como está? Soube que foi a empresa hoje. — Comenta me avaliando com os olhos.
— Estou bem, não está vendo? — Digo sorrindo e me indico com as mãos para que ele olhe. — Achei que seria muito melhor usar meu tempo para algo útil como trabalhar do que ficar me lamentando no quarto.
— Confesso que não esperava esse tipo de reação de você. Esperava algo como choro e depressão. Não me leve a m*l, você gosta muito dele. — Justifica-se e eu realmente entendo o que ele está dizendo. Nunca escondi de ninguém que gostava muito de Charles, eu o olhava com admiração e adoração.
— Nem eu esperava essa reação de mim. Acho que me subestimei, pelo visto meus sentimentos não eram isso tudo que eu mesma achava. Estou bem confusa sobre isso, a única vez que pensei nisso foi na igreja. — Estou bem pensativa sobre isso e falo a verdade ao meu pai, ele sempre foi um pai compreensivo. — Acho que meus sentimentos por ele eram mais para que eu me sentisse confortável com o casamento arranjado.
— Você sabe que eu nunca a forçaria a casar com ele. Mas fiz o acordo pensando em você e no seu futuro. Entenderá quando tiver filhos. — Ele levanta e senta-se ao meu lado no sofá, pegas minhas mãos entre as suas e aperta como forma de conforto.
— Tudo bem, sei que sua intenção foi das melhores. — Digo sorrindo para ele em forma de conforto. — Mas e esses papéis, quer ajuda com alguma coisa? — Ofereço-me mudando de assunto.
— Não acho que você gostaria de me ajudar com isso, são papéis com relação ao seu casamento. Alianças foram feitas, contratos foram assinados e como todo contrato, há uma multa por quebra de contrato. — Fala sinceramente e eu fico surpresa. Não sabia da existência de tal documento, mas não seria meu pai se não fosse uma pessoa totalmente precavida. — É uma multa muito alta.
— E o que o pai de Charles acha de tudo isso? — Pergunto casualmente.
— Bom, a ideia do contrato foi minha e ele me apoiou totalmente. Não achamos que iriamos precisar dele, era apenas uma questão de segurança. Ele não se opõe ao pagamento, afinal o filho dele sabia da existência desse contrato e o quebrou mesmo assim.
— Justo. — Falo calmamente. Espero nunca mais vê-lo, todas as coisas que eu deixei de fazer por causa dele. Me sinto estúpida agora.
— Bom, quero apenas o melhor para você. Ainda bem que ele se mostrou esse tipo de pessoa antes que vocês se casassem, sempre há tempo para mudar nossas escolhas. — Comenta meu pai voltando ao seu lugar e pegando os papéis novamente. Suas palavras giram em minha mente e eu me sinto momentaneamente tonta.
A verdade é que estou grata pois tenho a oportunidade de começar de novo, fazer tudo que eu sempre tive vontade e não fiz para não deixá-lo irritado comigo. Há tempo de fazer tudo isso e eu sou sortuda por não ter me casado com ele, do contrário estaria presa a alguém que cortava minhas asas em vez de voar comigo.
Levanto. Não perderei nem mais um minuto sem fazer as coisas que eu sempre quis, agora é a hora e eu vou começar imediatamente.
— Onde vai? — Pergunta meu pai.
— Digamos que eu vou resolver algumas coisas atrasadas em minha vida. — Falo e sorrio, saindo logo em seguida e deixando meu pai com cara de interrogação pelas minhas palavras misteriosas.
Subo para o meu quarto ansiosa para colocar tudo que estou pensando no papel. Já é tardinha e está anoitecendo em breve.
Entro no quarto já buscando uma agenda e uma caneta e começo a anotar todas as coisas que eu sempre quis fazer ou aprender e Charles não achava “apropriado” para sua noiva. Nunca fui em uma balada, nunca acampei, nunca fiz nenhuma aula de defesa pessoal, nem mudei o cabelo. Como pude ser controlada tao facilmente? Idiotice da minha parte.
Pego meu celular e ligo para o meu cabeleireiro. Vou começar pelo mais fácil primeiro.
— Ruan, por favor me diga que ainda há um horário e dá pra você me encaixar ainda hoje. É caso de vida ou morte capilar. — Falo ao som do seu “alô” rezando para que haja um horário e ele possa me encaixar nele.
— Você tem sorte, linda bela. Um agendamento acabou de ser cancelado. Mas terá que correr, do contrário não vai dar pra te atender sem que acabemos meia-noite. — Suas palavras são como balsamo e eu corro porta afora pegando minha bolsa.
— Para o Ruan, por favor, o mais rápido que você puder. — Digo chegando perto do motorista que está a postos e ele abre a porta para mim, dirigindo logo em seguida. Graças a Deus conseguimos chegar sem grandes atrasos, do contrário meu cabelo ficaria para o mês que vem.
O motorista abre a porta e eu agradeço entrando no salão.
— Estou muito atrasada? — Pergunto me dirigindo a Ruan que está finalizando um cabelo.
— Chegou bem na hora, linda bela. — Diz enquanto a cliente anterior vai embora e vindo em direção a mim. Ele me chama de linda bela a muitos anos, desde a primeira vez que frequentei o seu salão. — Então, qual é o grande caso de vida ou morte?
— Você já deve saber das notícias. Hoje me ocorreu que eu nunca mudei o cabelo e não aguentava mais esperar por isso, então aqui estou. Faça seu melhor. — Desabafo esperando que ele veja algo incrível para o meu cabelo. Sempre o usei grande e com a cor natural.
— Sei exatamente o que fazer com você.
Ele gira minha cabeça e dai por diante estou no escuro e ansiosa para conhecer meu novo eu.