Depois de inúmeras puxadas de cabelo, de vários papéis na minha cabeça, pinceladas de algo que desconheço o que seja, chapinha e secador finalmente estou pronta e prestes a ver o resultado. Ruan está sorrindo enquanto finaliza o meu cabelo e isso significa que ele gostou muito do próprio trabalho.
—Pronta para conhecer sua versão 2.0? Linda bela, você está poderosa. — Estou com a expectativa muito alta em relação ao meu cabelo mas também com um pouco de receio. Nunca fiz nada mais do que aparar as pontas. Enquanto eu aguardava o produto agir no meu cabelo, a maquiadora do salão fez uma maquiagem em mim para que combinasse com o cabelo.
— Sim, mais que pronta. — Respondo prontamente. Sei que ele se mantém grande, para o meu grande alívio, acho que combino mais de cabelo grande.
— Pois veja com seus próprios olhos. — Responde e vira minha cadeira para que eu me veja no espelho. Estou iluminada, Ruan fez mechas singelas em todo meu cabelo, nada muito extravagante mas que deu uma diferença enorme. Me deixou com cara de mulherão e tirou um pouco do meu ar inocente que sempre tive.
— Como sempre, você não decepciona nunca. — Digo me referindo a Ruan e ele fica sem jeito. Ele sempre fica.
— Bom, está na hora de fechar. Foi um prazer participar da sua mudança minha linda bela. Agora deve correr, provavelmente está atrasada para algum compromisso. Seria um crime estar tao bonita e não mostrar aos outros — Fala e eu percebo que sou a única alma viva em todo o salão e olhando o relógio já passa das oito da noite. Muito tarde. Despeço-me e saio do salão e fico olhando ao redor enquanto as pessoas passam, cada uma cuidando de sua própria vida e indo para casa depois de um grande dia de trabalho.
Olho para o céu. Todos nós estamos lutando algum tipo de guerra, se não for sobre si mesmo, é sobre os outros.
Entro no carro e sigo no caminho para casa, mas as palavras de Ruan ficam martelando em minha cabeça. Realmente seria um desperdício chegar tão bonita para dormir. Será que eu deveria ir a uma boate ou algo assim? Fico animada imediatamente, mas logo murcho. Não tenho companhia para ir a esse tipo de lugar e também não entendo qual é a melhor e qual é a pior, afinal, eu não gostaria de ir em um lugar perigoso.
— É melhor que você aceite a derrota e vá para casa. — Falo para mim tentando me convencer e não ficar desanimada com isso.
— Ah não, você é puro fracasso. Primeiro era p*u mandado de homem, agora está livre mas não tem com quem fazer as coisas que tem vontade. — Falo frustrada e bato com as mãos no volante. Será possível que as coisas ruins só acontecem comigo?
— Eu não preciso de ninguém pra fazer as coisas, vou fazer sozinha e pronto. Eu me basto. — Me convenço. — A primeira coisa que eu preciso fazer é pesquisar, deve ter esse tipo de coisa na internet.
Estaciono em frente a uma lanchonete e puxo meu celular do bolso pesquisando boas boates e, felizmente, encontro casas noturnas com boas avaliações e uma me chama a atenção no meio de tantas outras. É uma boate exclusiva, pelo que vejo só andam pessoas de classe alta, as pessoas mais ricas da cidade. Olho o endereço e coloco no GPS.
— Bom, é isso. Estou ansiosa para ver como é. — Digo para mim mesma e manobro o carro para fora do estacionamento seguindo o GPS em direção a boate. Dizer que estou ansiosa seria pouco. Alguns minutos depois estou parando o carro em frente a boate, e que boate.
Há um letreiro enorme escrito Black Pierce na frente e uma fila quilométrica na frente. Ok, eu posso enfrentar isso, penso comigo mesma.
Saio do carro e vou para a fila, ainda estou com a mesma roupa que fui ao shopping, então acho que estou no padrão a julgar as roupas que as pessoas estão usando. Olho tudo com a máxima curiosidade, é tudo muito novo para mim e eu pareço uma criança quando ganha um doce pela primeira vez. Emocionada.
Depois de dez minutos de pé sem que a fila ande nem um pouco, já estou com os pés doendo e com vontade de ir para casa e deitar na minha cama quentinha. Decido ir até o homem que está na porta e perguntar, ele é amedrontador e possui uma carranca enorme, além de ser enorme e cheio de músculos. Fico com um pouco de receio, mas meu pai não criou uma fraca e eu vou até ele com as pernas tremendo.
— Com licença, por que a fila não anda? — Pergunto de forma direta e educada. Ele mira seus olhos acusadores em mim e me olha de cima abaixo. Tremo levemente.
— Essas são pessoas que querem entrar, mas não tem dinheiro para entrar. — Sua voz e grave e baixa.
— Bom, eu tenho dinheiro para pagar a entrada. Só um segundo. — Pego minha bolsa e puxo a carteira procurando meu cartão, mas algo muito mais interessante me chama atenção. Ou o que. Especificamente, um cartão que Charles me deu há um ano para usar, está em seu nome. Dou um lindo sorriso de lado maquinando um plano maligno, chegou a hora de usá-lo. — Vou pagar a entrada de todos que estão na minha frente também. — Falo rezando para que ele não tenha bloqueado esse cartão.
— Tem certeza senhorita? Há mais de vinte pessoas na sua frente. — Alerta ele de olhos arregalados. Afinal, o homem impenetrável esboça uma reação.
— Claro. Passe esse cartão. — Entrego o cartão a ele e logo digito a senha. Segundo depois aparece “pagamento aprovado” e eu comemoro internamente. Com certeza, Charles terá uma surpresa enorme até que consiga bloquear esse cartão.
Entro na frente e vou direto para o bar. Ainda é particularmente cedo e não há muitas pessoas na pista de dança nem no bar. Sento-me numa banqueta e observo ao redor, na outra ponta do bar há um homem que bebe Whisky puro em grandes goles como se estivesse descontando seus problemas na bebida.
— Um Whisky puro, dose dupla com bastante gelo por favor. — Peço ao barman enquanto observo pelo r**o dos meus olhos o homem. Ele está vestido com um terno sob medida que abraça lindamente suas costas e calça um sapato social. Parece alguém que acabou de sair do escritório. Daqui não consigo ver seu rosto claramente e fico especulando como poderia ser. O barman me entrega meu pedido e eu dou um gole generoso.
— Apreciando a vista? — Pergunta o estranho subitamente virando-se em minha direção e eu me engasgo. Ele se aproxima e bate em minhas costas e eu me recupero do engasgo. Ele estava tao longe, não achei que ele fosse perceber. Fico olhando-o de olhos arregalados e não consigo formar palavras corretamente, em minha frente há o homem mais lindo e de olhos mais azuis que já tive o prazer de ver em minha vida. Estranhamente, sinto como se já o tivesse visto.— Perdeu a fala? — Pergunta levantando uma linda sobrancelha arqueada e isso o deixa ainda mais lindo, o que eu não achei que pudesse ser possível. Saio um pouco do meu transe e me ajeito na banqueta.
— Desculpe-me, não deveria ter ficado encarando suas costas. — Desculpo-me agradecendo por minha voz ter saído e por não ter gaguejado como uma colegial.
— Só minhas costas? — Pergunta com um sorriso de lado. Baixo a cabeça e coro, fui pega no flagra. Não há nada que eu possa dizer contra isso então apenas dou de ombros virando-me e tomando o resto da minha bebida.
— Então, o que faz numa balada no meio da semana? — Pergunta sentando ao meu lado e pedindo uma dose de Whisky ao barman. Seu perfume invade minhas narinas e eu inalo com prazer.
— O mesmo de todos, diversão. — Respondo fingindo costume. Será que ele me reconhece dos jornais?
— Não parece o tipo que festeja no meio da semana. — Fala casualmente. Ele lê mentes por acaso?
— Nem você.
— Touché. — Responde sorrindo para mim e eu derreto um pouco em minha cadeira, pois seu sorriso é perfeito e iluminado. — Mas não estou aqui para me divertir, apenas precisava pensar e nada melhor do que uma dose do Whisky para nos fazer refletir. A questão é que preciso fazer algo, mas não sei se é a coisa certa.— Responde um tanto vago e pensativo enquanto bebe seu Whisky.
— Você só vai saber se tentar. Não perca oportunidades por causa de insegurança, se é para se arrepender, melhor se arrepender de algo que você fez. — Respondo prontamente dando meu ponto de vista.
A boate está enchendo consideravelmente agora e a música está bem mais alta.
— Você está certa. — Responde olhando para mim e não consigo desviar meu olhar do seu. Há algo lá que me prende, uma escuridão que guarda algo desconhecido.
Nossa troca de olhares é quebrada por seu celular que está tocando e ele logo atende.
— Alô? — Responde e a pessoa do outro lado fala e ele desliga logo em seguida sem responder nada. — Foi um prazer vê-la. Até a próxima. — E vai embora sumindo no meio da multidão me deixando com uma expressão interrogativa no rosto.
Porque sinto que a nosso próximo encontro está mais próximo do que penso?