Capítulo 4

1259 Palavras
“Já falei bastante sobre mim, e você? Como está se sentindo voltando para casa depois de tanto tempo?” – Tentei mudar de assunto porque eu não sou muito fã de ficar falando sobre mim. “Está bem mais interessante... – Senti meu rosto esquentar, pois quando ele falou isso ele me olhou como se fosse me engolir. - Eu não ia voltar agora, estava me programando para fazer isso o ano que vem, mas acabei adiantando os planos quando surgiu uma vaga aqui.” “E o que você faz?” – A curiosidade já estava aflorada. “Sou major da aeronáutica, sempre sonhei em seguir carreira militar, quando eu parti foi porque era mais provável que eu crescesse lá, e agora que estou numa boa patente, precisaram que eu voltasse, meu retorno era previsto para até dois anos, e não menos do que um ano, mas aconteceu.” – Ele deu mais um daqueles sorrisos de faltar o ar e baixar as calcinhas. “E aqui estou eu.” Estava tão absorta na nossa breve conversa, que nem reparei que já estávamos na frente da livraria. De ônibus costuma ser bem mais longo o trajeto, já que tem varias paradas, mas minha casa não é tão longe assim, então de carro se torna bem mais rápido. “Mas o que você faz? Desculpe é que eu realmente não entendo absolutamente nada dessa coisa de exército, e patente, e tudo o mais que é relacionado.” Ele deu risada, o safado deu risada da minha cara, eu não sou obrigada a saber, sou? “Vamos entrar, eu vou te explicando tudo enquanto faz o que veio fazer aqui.” Foi nesse momento que percebi que já estávamos parados na frente da livraria, meu rosto deve ter ficado bem vermelho. “Você tem algo para resolver aqui? Se quiser fazer e ir pra casa tudo bem, eu costumo demorar bastante na livraria, posso voltar mais tarde tranquilamente pra casa.” – Dei um sorriso sem graça quando ele se juntou a mim na calçada. – “Eu tinha até chamado meu irmão para vir, mas ele sabe o quanto eu sou chata e demoro demais.” – Completei. “Bom. Eu só tenho que comprar cordas novas para o me violão, nada que não possa esperar.” “Não, imagina. Já foi uma enorme gentileza me trazer até aqui, eu não quero ficar tomando mais do seu tempo.” “Está tentando dispensar minha companhia educadamente?” – Perguntou me olhando profundamente nos olhos. “O que? Não eu não... bom, não foi assim que eu quis dizer, é só que...” – Eu estava verdadeiramente patética, para uma pessoa que lê tantos livros quanto eu, não deveriam faltar tantas palavras no cérebro a ponto de não conseguir formar uma única frase coerente. “Está corando... que bonitinha, consegui te deixar sem graça.” – Disse zombando de mim. “Isso não deveria parecer tão engraçado, eu achei que tivesse te ofendido.” – Olhei para ele um pouco zangada. – “i****a!” “Bom, agora você ofendeu.” “É, mas agora foi intencional.” Ele deu risada e me seguiu para dentro, era estranho estar acompanhada por um, praticamente estranho, fazendo as coisas que por habito, eu estaria fazendo sozinha. “O que foi? Parece que está desconfortável com a minha presença, estou te incomodando?” “Você é bastante observador, mas errou no motivo, eu só não sei porque está sendo tão gentil, se nem ao menos me conhece direito, faz muitos anos que não nos vemos tipo uns 6 anos, ou até mais.” “É tem em média isso mesmo, ainda fiquei um tempo aqui depois de me alistar, então deve estar beirando isso mesmo.” – Ficou pensativo. – “Nossa, eu me lembro de você quando era só uma criancinha, com uns 8 ou 9 anos, e agora... eu nunca poderia imaginar que se ficaria tão bonita.” – Ele falou de uma maneira tão casual, tão natural, mas mesmo assim meu corpo i****a me fez reagir de uma maneira completamente fora do meu padrão. Acho que meu rosto pode ser visto do outro lado da cidade, estava em chamas, morrendo de vergonha, senti minhas bochechas esquentando, eu deve estar da cor de um pimentão. “Preciso te fazer sentir vergonha mais vezes, você fica muito linda assim, toda vermelhinha.” – PRONTO! É oficial, eu devo ter virado um farol. “Você está me deixando sem graça.” – Virei o rosto para não encarar aqueles olhos pecaminosos, era terrível sentir meu corpo ganhar vontade própria e não me obedecer em mais nada. Comecei a pegar alguns livros nas prateleiras, alguns eu segurava, outros entreguei para ele sem nem perguntar se podia, eu só queria que ele estivesse ocupado com algo. “Você só lê romances?” “Em sua grande maioria, sim é meu gênero favorito.” “Isso diz muita coisa sobre você...” – Ele se calou por alguns segundos. – “Você tem namorado?” “O que? Não, eu não tenho namorado.” – Respondi um pouco contrariada. – “Você é bastante enxerido sabia disso? É pré-requisito para entrar no exército?” “Na verdade, eu não costumo ser assim, mas é difícil não querer saber sobre você... garanto que está sendo uma experiência estranha até para mim.” Fiquei sem saber o que responder, então fiquei quieta e continuei me movimentando entre as prateleiras intermináveis de livros. Enquanto ele caminhava comigo e de vez em quando eu o olhava e ele estava sorrindo e me observando. Depois de pegar todos os que eu tinha em mente, fui para o caixa. “Boa tarde Fernando, tudo bem?” “Olha só se não é a melhor cliente daqui.” – Respondeu sorrindo, ele tem pouco mais de idade que eu, o conheci aqui na livraria e sempre que tem novidades, ou quando os livros da minha lista chegam, ele me avisa para vir buscar. “Senti falta de você a semana passada, por que não veio?” “Fiquei enrolada com algumas coisas deixou eles separados?” – Perguntei com os olhos brilhando em expectativa. “É claro que sim! Achou mesmo que eu pudesse esquecer de você?” Coloquei meu livros no balcão, sentindo a presença de Julian nas minhas costas, ele colocou os livros que estava carregando ao lado dos que eu coloquei e se posicionou a meu lado. “Um momento senhor, eu já vou lhe atender.” – Fernando não deve ter imaginado que Julian estava comigo, afinal de contas, eu sempre vinha sozinha. “Estes também são dela, passe todos juntos por favor.” – O olhar dele havia mudado, estava mais firme, intimidador, era até um pouco perturbador, ver alguém mudar tão drasticamente, ele estava rindo de mim a poucos segundos atrás. Fernando também deve ter sentindo essa coisa meio pesada que emanava dele, seus olhos se abriram em surpresa. Ele passou os outros livros sem falar muito mais, passou o total, e enquanto eu estava pegando a carteira na bolsa, Julian pegou dinheiro no bolso, entregou a Fernando. “Pode ficar com o troco!” – Minha boca se abriu formando um O de incredulidade. – “Presentinho para você querida.” – E me deu uma piscadinha pegando as sacolas e saindo sem me dar tempo de raciocinar direito. Fernando estava me olhando, e eu saí correndo atrás de Julian sem nem mesmo me despedir.
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