Pré-visualização gratuita 1. Cali
Se meu pai soubesse onde eu estou agora, provavelmente convocaria metade da alcateia.
Se descobrisse o que estou fazendo...
Bom.
A outra metade viria preparada para me levar direto ao hospital.
— Três minutos! — anuncia um dos organizadores da corrida, erguendo a voz acima da música ensurdecedora.
O galpão abandonado da zona industrial parece ganhar vida. Holofotes improvisados pintam o concreto rachado de azul, vermelho e roxo, enquanto carros rebaixados formam um círculo ao redor da pista improvisada. O cheiro forte de gasolina se mistura ao de pneus queimados e fumaça, tornando o ar pesado. As batidas da música eletrônica fazem o chão vibrar sob as minhas botas, acompanhando o ritmo acelerado do meu coração.
Eu adoro esse lugar.
Não exatamente pelo perfume de combustível — meu lado loba continua preferindo o cheiro úmido da floresta depois da chuva, o aroma de terra molhada e pinheiros.
Mas porque, aqui, ninguém sabe quem eu sou.
Aqui, eu não sou a filha do Alfa.
Sou apenas Cali.
Uma garota usando jaqueta de couro preta, calça justa, um capacete vermelho chamativo e uma moto esportiva que chama atenção até de quem entende pouco do assunto.
Ninguém faz reverência quando passo.
Ninguém me chama de "senhorita".
Ninguém pergunta onde estão meus seguranças.
Principalmente porque eles ficaram para trás quarenta minutos atrás.
Só de imaginar a expressão desesperada dos dois quando enfiei a moto por um beco estreito, onde a caminhonete deles jamais conseguiria entrar, sinto vontade de rir.
Coitados.
Às vezes me pergunto como ainda trabalham para o meu pai.
Depois lembro que o verdadeiro problema nunca foram eles.
Sempre fui eu.
— Ei, Cali!
Viro o rosto e encontro Lucas caminhando na minha direção. O sorriso largo dele aparece antes mesmo de qualquer palavra. Entre todos os humanos que conheci escondida da alcateia, ele é um dos poucos que considero amigo.
— Achei que você fosse amarelar.
Cruzo os braços.
— Eu? Nunca.
Ele arqueia uma sobrancelha.
— Engraçado... porque na última corrida você quase entrou debaixo de um caminhão.
Faço uma careta.
— Pequenos detalhes.
— Você também chamou um poste de "curva opcional".
— Continuo convencida de que aquele poste apareceu do nada.
Lucas ri alto, jogando a cabeça para trás.
O som é leve, espontâneo.
Humanos riem com facilidade.
Lobos não.
Na alcateia, quase tudo é levado a sério.
Especialmente pelo meu pai.
Segundo ele, uma herdeira jamais deveria andar entre humanos desacompanhada. Não deveria frequentar corridas ilegais, desaparecer durante horas, correr riscos desnecessários ou sequer pensar em viver como uma pessoa comum.
Às vezes tenho a impressão de que, se pudesse, ele instalaria um GPS dentro da minha alma.
Meu nome é Cali Ashcroft.
Tenho vinte e quatro anos.
Sou filha única.
Minha mãe morreu no dia em que eu nasci.
Desde então, meu pai transformou aquela tragédia na justificativa perfeita para me proteger de absolutamente tudo.
Escadas.
Dias de chuva.
Resfriados.
Relacionamentos.
Objetos pontiagudos.
Uma vez ele mandou substituir todos os vasos de vidro da mansão porque eu poderia tropeçar.
Eu tinha dezoito anos.
Dezoito.
Hoje tenho vinte e quatro.
E a paranoia dele envelheceu muito melhor do que eu.
Passo a mão sobre o tanque da moto. A pintura n***a reflete as luzes coloridas do galpão.
— Vamos dar trabalho hoje.
Como se entendesse minhas palavras, o motor responde com um ronco grave que faz meu peito vibrar.
Sorrio por trás do capacete.
O organizador ergue a bandeira.
— Regras de sempre! Nada de jogar o adversário para fora da pista! Quem cruzar primeiro leva toda a grana!
Dinheiro nunca foi o motivo de eu estar aqui.
O que eu busco não pode ser colocado dentro de uma carteira.
Liberdade.
Abaixo o visor do capacete e seguro firme o guidão.
Meu coração acelera.
Não por medo.
O perigo nunca me assustou.
O que faz meu sangue ferver é a sensação de que, pelos próximos minutos, ninguém poderá decidir por mim.
Três.
Dois.
Um.
A bandeira desce.
As motos disparam ao mesmo tempo.
O rugido dos motores explode ao meu redor, e a força da arrancada me empurra para trás por um instante. O vento invade as pequenas frestas do capacete enquanto a cidade se transforma em um borrão de luzes, placas e prédios.
Existe apenas a estrada.
E eu.
Ultrapasso duas motos logo na primeira reta.
Na curva seguinte, inclino tanto o corpo que meu joelho quase toca o asfalto quente.
Meu lobo desperta dentro de mim, inquieto, vibrando de pura empolgação.
Ele ama velocidade.
Ama desafios.
Ama a sensação de liberdade tanto quanto eu.
— Isso! — grito, embora ninguém consiga ouvir.
Entro na avenida principal desviando de carros, ignorando buzinas e alguns xingamentos nada educados.
Então...
Algo chama minha atenção.
Uma caminhonete preta.
Depois outra.
Mais uma.
Meu sorriso desaparece lentamente.
Conheço aquelas caminhonetes.
Meu estômago revira.
Não.
Não...
Por favor.
São veículos da alcateia.
Olho pelo retrovisor mais uma vez.
Eles nem tentam esconder que me encontraram.
Pelo contrário.
Estão acelerando.
Meu pai me encontrou.
Droga.
Como?
— Ah, vocês só podem estar brincando...
Aperto ainda mais o acelerador.
Lucas emparelha ao meu lado.
— Aqueles caras são seus amigos?
Dou uma risada sem humor.
— Infelizmente.
Ele observa as caminhonetes se aproximando.
— Eles parecem bem irritados.
— Você não faz ideia.
No instante seguinte, uma sirene ecoa pela avenida.
Sirene.
Meu pai realmente resolveu transformar minha fuga em um espetáculo público.
Os carros começam a abrir caminho.
Alguns competidores desistem.
Outros reduzem a velocidade.
Eu continuo acelerando.
Se vou morrer...
Que seja depois de cruzar a linha de chegada.
Vejo a faixa ao longe.
Seguro firme o guidão.
Acelero tudo o que a moto pode entregar.
Cruzo em primeiro lugar.
Levanto um braço, rindo dentro do capacete.
— Ganhei!
A comemoração dura menos de dois segundos.
Uma caminhonete atravessa minha frente.
Freio com tanta força que meu corpo quase é lançado sobre o guidão.
Meu coração bate descompassado enquanto desço da moto.
A porta do veículo se abre.
Não.
Qualquer pessoa.
Menos ele.
Meu pai sai da caminhonete vestindo um terno impecável, como se tivesse acabado de sair de uma reunião e não de uma perseguição em alta velocidade.
Os braços cruzados.
A postura impecável.
O rosto completamente sereno.
Conheço aquela serenidade.
É o silêncio de um vulcão segundos antes da erupção.
Até a música parece diminuir.
As conversas cessam.
Os humanos ao redor percebem, instintivamente, que aquele homem não é alguém com quem se brinca.
Ele para diante de mim.
— Boa noite, Cali.
Pronto.
Usou meu nome inteiro.
Estou oficialmente condenada.