FELIPE
Parecia que a minha cabeça não iria parar de pensar. E de me acusar também.
Que história foi essa de mentir para Ramon Luquesi sobre ter uma noiva?
Era questão de tempo até ele descobrir a mentira e eu ficaria em uma situação pior ainda. Quem iria querer uma parceria com alguém que enganara o próprio sócio?
Eu realmente não me orgulhava de ter falado aquilo, mas foi no impulso e... p***a, que condição mais absurda a que ele me jogou.
E como diziam que "cabeça vazia, oficina do d***o" não me dei ao luxo de ficar em casa naquele sábado, resolvendo ir para a BG logo depois que almocei.
Pedi para que Ivonete ficasse de olho em Ana naquele dia que eu precisaria ir para a empresa resolver algumas pendências, que na verdade nem existiam, mas imaginava que me jogar de cabeça no trabalho pudesse minimizar um pouco o desconforto que eu sentia comigo mesmo.
Claro que antes de sair me despedi da minha irmã e quase fui atacado por um demônio em forma de cachorro.
Eu realmente não entendia como tinham deixado aquele ser ficar perto de uma criança de cinco anos sem temerem pela vida da menor.
Mas eu já tinha uma teoria na cabeça: o Bola de Neve só não gostava de mim.
E eu achando que seria difícil criar um convívio com uma irmã que nem me conhecia, mas na verdade, o desafio maior era conquistar uma bolinha de pelos de quatro patas e que tinha o latido mais agudo que eu já ouvira.
Cheguei numa empresa silenciosa e parti para a minha sala. Ao passar pela mesa em que minha secretária ficava foi inevitável não lançar um olhar naquela direção.
Mesmo sabendo que não a encontraria lá por não ser dia de expediente de trabalho.
Balancei a cabeça, estranhando essa atitude e fui até o meu escritório.
O barulho do meu celular tocando me tirou dos papéis que eu lia com concentração – ou com a maioria que eu conseguia dar.
Olhei o visor, surpreendendo-me com quem estava me ligando.
— Quem é vivo sempre aparece — aquela saudação bem animada que a gente recebia de um amigo que não vê há anos.
— Oi para você também, Luciano — respondi feliz por ouvir a voz do meu amigo.
— Acabei de voltar de viagem e fiquei sabendo que o grande Felipe Baseggio está de volta ao Brasil... e você nem para avisar, né?
Luciano e eu nos conhecemos na faculdade e ele foi uma amizade que continuou na minha vida. Estagiamos juntos na BG até ele conseguir uma oportunidade melhor em outra empresa e mudar de emprego.
Acabei nem participando da sua despedida porque a briga com meu pai nos afastou antes dessa novidade.
— Desculpa, mas foi tudo tão corrido que até agora eu nem sei se realmente estou aqui de volta. Isso porque já faz duas semanas que cheguei...
— Imagina, Felipe. Fiquei sabendo só agora do acidente do seu pai, sinto muito — consolou-me. — Como o senhor Olavo está?
Passei para ele as atualizações do boletim médico que consegui na última visita que fiz.
Era sempre estranho ver meu pai deitado naquela cama tão próximo, mas ao mesmo tempo tão longe.
— Estou te ligando para marcarmos alguma coisa mais tarde. Quero reencontrar o meu amigo e beber um pouco, topa? — Luciano convidou.
Eu não estava com muita cabeça para sair, ver muitas pessoas e ficar num lugar por muito tempo. Mas vir ao trabalho também não estava sendo assim tão lucrativo.
Quem sabe rever um grande amigo pudesse ser bom, além de ser a primeira vez desde que retornei para a cidade que iria, de fato, relaxar.
Concordei com o convite e combinamos de nos encontrar à noite em um bar que ele escolheu. O que foi ótimo porque eu não conhecia muita coisa na cidade e nem saberia dizer se os que frequentava há mais de sete anos ainda estariam funcionando.
O bar – apesar de cheio – tinha um clima agradável. Escolhemos uma mesa mais para o canto perto da entrada e por ali ficamos.
Foi muito bom poder reencontrar um amigo que eu não via há muito tempo. Além de poder conversar sobre outros temas a não ser só a empresa.
Luciano casara recentemente e estavam viajando em lua de mel, de onde tinham acabado de retornar. Cumprimentei-o, desejando toda a felicidade do mundo e combinamos de fazer um churrasco em que ele iria me apresentar à sua esposa.
— O que está acontecendo, Felipe? — observou depois de um tempo. — Pode fazer muito tempo que não te encontro, mas a sua cara não esconde que alguma coisa está acontecendo.
— Está tão visível assim? — questionei, surpreso.
— Como se estivesse escrito na sua testa, cara — riu, bebendo mais um gole da sua cerveja.
— Com certeza você conhece Ramon Luquesi, né?
— Espera. O Ramon Luquesi? Da agência Luquesi? — indagou, espantado a ponto de arregalar os olhos.
— Esse mesmo — falei, dando de ombros.
— E o que é que tem ele? A última notícia que soube foi que ele estava à procura de um novo sócio.
— Exatamente. Meu pai e Ramon estavam quase fechando contrato quando aconteceu o acidente. Achei que tudo estaria perdido, mas ele me procurou tem alguns dias para anunciar que pretende levar a parceria adiante.
— Nossa, Felipe, mas essa é uma notícia maravilhosa! — exclamou, empolgado. — Conheço pessoas que seriam capazes de qualquer coisa para que o famoso senhor Luquesi colocasse os olhos sobre elas. — Fez uma pausa, como se tentasse clarear os pensamentos. — Só não entendo porque essa sua cara de preocupado.
— Ele pediu, ou melhor exigiu, que eu fosse junto com a minha esposa.
— Caramba, não sabia que você tinha casado de novo e...
— Esse que é o problema. Eu não me casei — soltei.
— Felipe, você está me deixando confuso — coçou a cabeça, aparentando estar perdido.
— Bem-vindo ao clube, Luciano — ri sem vontade.
Porque não existiam motivos para rir de uma piada tão sem graça assim.
Expliquei para ele toda a história, do fato de estar casado ser de extrema importância. Acreditei que Luciano tivera a mesma reação que eu teria no seu lugar, se meu amigo me contasse algo tão absurdo assim.
Ele permaneceu em silêncio por alguns instantes, como se quisesse falar, mas as palavras certas não apareceram.
— Então você mentiu para o seu futuro e promissor sócio sobre ter uma noiva? — aquiesci, concordando e me sentindo m*l por falar em voz alta que tinha mentido para alguém a fim de me dar bem. — Ah, mas isso não é problema.
— Como assim, Luciano? Como não é problema eu falar que tenho uma noiva se eu não tenho? Vou fazer o quê? Aparecer lá sozinho e fingir que estou noivo da mulher invisível?
— Felipe, em que mundo você vive? Nunca assistiu um filme de comédia romântica? Ou nunca leu um livro de romance clichê?1
— Mas aonde você está querendo chegar? — agora o confuso da história era eu.
— Simples, meu amigo. É só você contratar alguém para passar por sua noiva — jogou a bomba na mesa e foi a minha vez de permanecer em silêncio.
Um barulho de uma mesa distante chamou a nossa atenção. Um grupo de jovens animados comemoravam aquilo que parecia ser uma brincadeira.
Desviei a minha atenção, focando-a no meu amigo que parecia não estar batendo muito bem da cabeça naquele momento.
Na verdade, acho que nunca bateu.
— Como pode ser simples arranjar uma noiva praticamente para hoje?
— Felipe, pensa comigo, você já começou a mentira em falar que tinha uma noiva, agora é só levar a história adiante.
— Como?
— É só combinar com alguém para se passar por sua noiva — debochou, como se fosse uma resposta óbvia.
— Quem iria se sujeitar a isso, Sherlock? — devolvi a provocação.
— Uma amiga, alguma conhecida. Não sei, pode ser qualquer uma.
— Qualquer uma? — exaltei. — Você quer que eu consiga uma noiva de aluguel? Ou que eu peça em casamento a primeira pessoa em que eu colocar meus olhos a partir de agora?
— Bem, se você quiser escolher dessa forma, meio aleatória, pode ser também — brincou, caindo na gargalhada. — Agora se você me dá licença, vou fazer uma visita ao banheiro.
Levantou-se sem seguida, se afastando da mesa e me deixando sozinho com a ideia maluca que me dera.
Já passava das dez da noite e o bar estava bem barulhento, dificultando que eu pudesse até mesmo ouvir meus pensamentos.
A minha latinha de cerveja estava vazia e outra gelada seria muito bem-vinda naquela noite quente. De soslaio vi o garçom se afastando e me virei para chamá-lo.
Só não imaginava encontrar outra pessoa atrás de mim.
Uma mulher.
Que eu costumava ver todos os dias na BG.
— Certo, você quer ser minha noiva?
Quando dei por mim as palavras tinham saltado da minha boca sem aviso, sem preparação para que eu pudesse segurá-las.
Olhos azuis e surpresos me encaravam de volta.
Também não era para menos. Eu tinha acabado de pedir minha secretária em casamento.
Acabei de fazer o pedido para a Manuela.
O que estava acontecendo comigo?