Capítulo 11

1269 Palavras
MANUELA Sabe aquela impressão de quando alguma coisa interfere no que você ouviu? Isso era comum de acontecer, não é mesmo? Até porque o bar Mix estava muito barulhento naquela noite e com certeza esse foi um fator muito grande para o que tinha acabado de escutar. Ele tinha... o senhor Felipe Baseggio... o meu chefe tinha... tinha acabado de me pedir em casamento? Não, claro que não. Essa era a piada do século. Parecia que ele até tinha escutado a brincadeira que o Márcio lançou sobre só pedir o número de telefone e que não seria um pedido de casamento. O senso de humor dos dois era horrível... e estranho também. Ou poderia ser a bebida, claro. Tanto para o que ele falou sem pensar, quanto para o que eu pensei que ouvi. — Desculpa, eu... — como se tivesse voltado a si, Felipe tomou a iniciativa em falar. — Está tudo bem, senhor Felipe — desconversei. Até porque eu não precisava de justificativas e queria cortar aquele clima que se tornou desconfortável nos últimos segundos. — O que você está fazendo aqui? Nossa, Manuela! Parabéns! Querendo acabar com o momento da vergonha com uma pergunta i****a dessas. Tinha como eu fazer um buraco no chão e me esconder dentro dele pelos próximos... vinte anos, talvez? — Acho que pelo mesmo motivo que você, talvez espairecer e beber — respondeu, dando de ombros. Estava prestes a dar a desculpa barata que tinha confundido meu chefe com outra pessoa, quando alguém entrou no meu campo de visão. — Boa noite — um sorriso gentil foi lançado em minha direção. — Sou Luciano, amigo do Felipe, muito prazer — estendeu a mão e eu não demorei em retribuir o cumprimento. —Muito prazer, Luciano. Eu sou a Manuela e... — A Manuela também trabalha na BG — senti que Felipe falou isso no intuito de finalizar aquela conversa. Além do mais a intrusa ali era eu e os dois poderiam estar em alguma reunião importante. — Bem, eu vou voltar para a mesa dos meus amigos, então e... — olhei para a mesa da qual o pessoal esperava que eu retornasse e os dois homens seguiram o meu olhar. Meus amigos olhavam para a gente sem piscar e quando perceberam que estavam sendo observados, desviaram a atenção para a primeira coisa que pensaram. Nossa, que sutil! — Alguns deles é seu namorado? — estranhei a pergunta, ainda mais por ter vindo da boca do meu chefe. — Não, eu não tenho namorado. Dei um sorriso – ou o mais perto que consegui chegar de um –, pedi licença e me afastei da mesa dos dois sem nem olhar para trás. — Poxa, Manu, você demorou... — Márcio acusou assim que me aproximei da mesa que estávamos juntos com as demais pessoas. —Conseguiu o número de telefone? — Teoricamente sim. Na prática, não — respondi, sentando novamente na minha cadeira e encarando o meu amigo responsável pelo desafio. — Como assim? Você ficou um bom tempo conversando com ele e até chegou o outro bonitão e... — um sorriso malicioso surgiu em seu rosto. — Você conseguiu o número dos dois, né, gata? — O meu desafio era só com um... — rebati. — E nem foi preciso perguntar qual era o número dele. — Por que não? — todos os olhares estavam voltados em minha direção, evidenciando a curiosidade dos presentes. — Porque você me desafiou a pedir o telefone do meu novo chefe. — Opa! Quer dizer que aquele deus grego alto e de lindos olhos azuis é seu... chefe? A empresa não está contratando, não? Porque eu iria gostar muito de ser o mais novo contratado de lá — todos da mesa riram da brincadeira de Márcio, que exagerava em fazer o gesto de abanar o rosto. — Me passa o telefone do chefinho, então. — Desculpa, Márcio, mas nem pensar — dei de ombros. — Eu não posso sair divulgando o número do meu chefe. Não seria ético da minha parte. — Sei, espertinha. Você está querendo ficar com ele todinho para você. Mas tudo bem, eu não julgo, viu? — Deu uma piscadinha cúmplice e sem nem esperar por uma réplica minha, pegou a caneta e girou novamente sobre a mesa, dando continuidade à brincadeira. Bem, dizem que no amor e no jogo vale tudo... e eu coloquei isso na prática. No caso do jogo, é claro. Bem, eu não tinha o número do celular do meu chefe – até porque não éramos tão próximos para isso –, mas eu tinha o telefone da empresa e poderia ser considerada – quase – a mesma coisa. Foi assim que consegui sair mais ilesa possível de uma brincadeira de verdade ou desafio. Isso sem contar o pedido de casamento que eu acho que tinha ouvido. Mas que eu me enganara. Foi por causa do barulho muito alto. Certeza... Acabamos ficando no barzinho por mais uma hora e logo as despedidas começaram a surgir. Notei que Felipe e Luciano foram embora depois de um tempo. Monique e eu fomos uma das últimas que se levantaram, indo de encontro ao aniversariante da noite para mais um abraço. — Tenha um bom dia de trabalho na segunda, Manuzita — Márcio cochichou no meu ouvido, dando um beijo estralado na minha testa. Apenas ri do seu comentário e me despedi. Porque eu conhecia – e muito bem – esse meu amigo. E discordar dele seria um caminho sem volta para ele me aporrinhar pelo resto das nossas vidas. Evitar isso a todo custo era mais que preciso, era uma necessidade. Ajudei a amparar uma versão muito bêbada de Monique assim que descemos do táxi. O porteiro daquele turno – o simpático Jair – abriu o portão assim que nos viu, entendendo o quanto essa atitude era de grande ajuda. Cumprimentei-o e também agradeci assim que passei pela cabine da portaria. O nosso bloco era o segundo a partir da guarita, então era uma pequena caminhada. Entramos no elevador e consegui pescar com a mão livre a chave da porta no bolso da minha calça jeans. Agradecendo mentalmente por ter sido tão fácil. Entramos no apartamento e eu a conduzi até o sofá, voltando para fechar e trancar a porta. Olhei no relógio pregado na parede e constatei que tinha acabado de passar da meia-noite. Monique foi para o quarto se arrastando, negando completamente a minha ajuda. Tomei um banho, coloquei uma camisola fresquinha e – enfim – me vi deitada na minha cama. Algo que eu esperei pela noite inteira. Não que eu não gostasse de sair com meus amigos, mas ficar em casa relaxando era mais a minha cara Peguei o livro que estava na mesinha de cabeceira ao lado da minha cama e abri aonde tinha pausado a minha leitura na noite anterior. Eu estava no último capítulo da história, quando o mocinho pede à sua amada em casamento de uma maneira muito romântica. Foi aí que perdi totalmente a concentração no que eu lia. Como se eu atravessasse as páginas e tentasse enxergar além. Meus pensamentos voltaram para algumas horas atrás, quando um pedido de casamento fora lançado no ar. Sacudi a cabeça na tentativa de afastar essas lembranças. Ao contrário do livro que eu lia, o pedido era um engano que meus ouvidos pensaram ter ouvido. Algo que eu fazia questão de esconder. Até porque, eu não iria confirmar a pergunta para meu chefe. Imagina eu... sendo pedida em casamento por Felipe Baseggio, o meu novo chefe da BG. Histórias assim só aconteciam nos livros...
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