Capítulo 12

1391 Palavras
FELIPE Observei com atenção Manuela se afastar, indo em direção a uma mesa cheia de jovens. — Você foi rápido, Felipe. Nem deu tempo de eu ir no banheiro direito — Luciano brincou ao meu lado, chamando a minha atenção para ele. — Do que você está falando? — inqueri. — Está com perda de memória agora, cara? Sobre escolher alguém para ser sua noiva — explicou como se fosse a coisa mais simples do mundo. Não era. — Até perguntou se ela tem namorado. — Está maluco, Luciano? A Manuela é minha secretária. — Melhor ainda, Felipe — remexeu-se na cadeira, determinado e animado. — Pensa comigo, cara. Você já a conhece e provavelmente é alguém em quem você confia. Não tem erro. — Como não tem erro? Luciano, você está se esquecendo do detalhe que casamento é algo muito sério. E mais importante, você não está levando em conta a opinião dela. — Escuta bem, Felipe — falou pausadamente. — Você precisa de uma noiva e não de uma esposa. Conversa com ela e conta toda a situação... não vai ter casamento, nem igreja, nem flores... Balancei a cabeça completamente desacreditado em tudo que ouvi esta noite. Resolvemos dar a noite por encerrada e voltarmos para nossa casa. Antes de eu sair, meus olhos recaíram sobre a mesa que Manuela estava rodeada de mais pessoas. Todos ali pareciam estar se divertindo muito, mas eu tinha a impressão de que ela se sentia um tanto quanto deslocada naquele meio. Como se estivesse com vontade de silêncio e um lugar tranquilo. Claro que poderia ser só impressão, afinal eu não conhecia a minha secretária tão bem assim. Domingo passou num piscar de olhos e no mais completo silêncio. Ana fora convidada para uma festa de aniversário de uma amiga da escola e voltaria no final da tarde. Era engraçado em pensar que soubera da existência de uma irmã caçula há pouco tempo e tivemos a chance de conviver poucos dias até então. Mas que conseguiu me deixar com a sensação de sua ausência naquela casa, mesmo que pelas poucas horas que não estava lá. Ivonete folgava aos domingos, então, naquele momento, era apenas eu naquela casa enorme. Corrigindo... tinha mais alguém lá sim. Uma bola de pelos que caberia com facilidade na minha mão. Escutei o barulho delicado e ritmado das suas patinhas batendo contra o piso da casa, dando-me a noção de que ele estava se aproximando do cômodo em que eu estava. Eu estava finalizando meu café da tarde preparado por mim mesmo, quando Bola de Neve entrou no meu campo de visão. Seus pequenos olhinhos pretos me encaravam com desconfiança, mas, pelo menos, não estava no seu modo assassino para querer vir em cima de mim. Até que algo que nunca imaginei que fosse acontecer entre aquele cãozinho e eu: ele começou a abanar o rabinho e se aproximar de mim com uma cara amigável. Eu deveria me preocupar com isso? Ao parar próximo de mim, ele focou toda a sua atenção no pão que eu estava comendo. Certo, era isso. Claro que Bola de Neve iria dar uma trégua ao pé de guerra que ele vivia comigo por um bem maior... que no caso era a sua barriguinha cheia. E não duvidava em momento nenhum que ele estava procurando por alguém naquela casa para pedir comida. Estava aceitando qualquer – qualquer um mesmo – ao ponto de se aproximar de mim e começar a se esfregar na minha perna. Rindo do interesse daquele cachorro, levantei-me da banqueta e fui em direção ao local que eu sabia que sua ração ficava guardada. Os latidos de comemoração que ecoavam pela casa, davam-lhe o poder da vitória em saber que se agisse daquela maneira sairia no lucro. Enchi um dos potinhos que encontrei por lá e coloquei no chão. Ele mais que depressa se aproximou do seu alvo começando a fazer a festa com a sua vitória. — Posso considerar que a gente pode tentar ser amigo, carinha? — perguntei, encostado na parede vendo-o se alimentar. Bola de Neve parou o que estava fazendo, como se minha voz quebrasse esse momento sagrado e tirasse a sua concentração em devorar todas as bolinhas da sua ração. Mudando totalmente o comportamento, o fofinho de instantes atrás, mostrou seus dentes em evidência e começou a rosnar em minha direção. — Acho que não. Trégua finalizada pelo jeito — murmurei, levantando as mãos e me afastando do seu ritual canino antes que ele preferisse me atacar. Era ridículo que um pedacinho de pelos daquele tamanho tivesse um temperamento que contradizia o seu semblante fofinho. Retornei à cozinha para finalizar o meu lanche e depois resolvi me enfiar em meu escritório para trazer de volta o assunto que estava presente nos últimos dias. Mesmo querendo negar, a ideia de Luciano começava a criar raízes na minha cabeça, deixando-me com uma pulga atrás da orelha. Conseguir uma noiva falsa? Isso não poderia ser considerado crime, mas ainda era algo que não me agradava em levar adiante. Novamente o rosto de Manuela surgiu junto com essa ideia. Será que ela tinha ouvido quando eu sussurrei sobre o casamento? Espero que não. O local estava barulhento e eu levemente bêbado, que se acaso ela escutou, com certeza não teria dado créditos às minhas palavras. Tentando deixar isso para ser resolvido no dia seguinte, reli pela décima vez o contrato que Ramon Luquesi me mandara naquela manhã. Tudo muito detalhado sobre o evento que se aproximava e cada clausula mais explicita impossível. Inclusive, no parágrafo cinco, tópico três em negrito, sublinhado em letras maiúsculas – para que ficasse realmente muito evidente – as seguintes palavras: NECESSÁRIA A PRESENÇA DA NOIVA DE FELIPE BASEGGIO! Pelo visto, se eu quisesse mesmo aquela parceria, teria que levar aquela mentira para frente, mesmo que eu fosse me enrolar completamente. Pensar em tudo que me aguardaria nos próximos dias trouxe consigo uma dor de cabeça que parecia que não me abandonaria tão cedo. Inclusive, acordei com ela no dia seguinte. — Felipe, eu quero visitar o papai — Ana pediu quando estávamos na mesa tomando nosso café da manhã. — Amanhã eu te levo — Não pode ser hoje? Eu sonhei com ele essa noite e tô com saudades. — Hoje eu estou atrasado. Amanhã nós vamos — rebati, no momento que uma dor mais forte fez minha cabeça latejar. — Mas vai ser rapidinho. Por favor e... — hoje ela tinha tirado o dia para insistir sem saber o que significava não? — Chega, Ana! — esbravejei, levando uma das mãos à minha têmpora, como se isso fosse amenizar a dor que insistia em aparecer. — Será que você não consegue entender que hoje não dá? Levantei impaciente, deixando o meu café inacabado sobre a mesa e não esperando para saber se a sua insistência ia continuar por mais tempo. Escutei latidos agudos me seguindo, imaginando que o pequeno animal queria defender a sua dona depois do que aconteceu. Mas hoje eu não tinha paciência, humor e nem vontade para lidar com ele. Entrei no meu carro, dando partida rumo ao trabalho e a maior das dores de cabeça que ainda me aguardava. Entrei em silêncio sem nem olhar para os lados, e foi assim até estar dentro da minha sala. Com um suspiro pesado, joguei-me na minha cadeira como se meu corpo pesasse mais do que o normal. O dia seguiu agitado e me afundar em planilhas, papéis e futuras campanhas, foi o que me manteve concentrado por boa parte do dia. Batidas suaves na porta chamaram a minha atenção, desviei os olhos do computador e autorizei a entrada. — Com licença, senhor Felipe — Manuela entrou, fechando a porta em seguida. — Já passamos das seis da tarde e estou indo embora. O senhor precisa de alguma coisa? Suas palavras me surpreenderam e olhei no cantinho do monitor, constatando que realmente tinha passado do final do expediente e eu nem me dei conta. — Manuela, eu queria te falar uma coisa e... — ia tentar me explicar pelo que acontecera na noite de sábado, confirmar se eu tinha falado mais do que me lembrava, mas fui impedido pelo toque do meu celular que estava em cima da mesa. E mais uma vez, um telefonema seria o responsável por tirar meu chão.
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