Hoje o dia tinha sido cheio, às vezes, me pegava pensando se o tempo ali dentro se estica de uma forma diferente, mais densa, mais pesada. Atendi mais dois detentos, não eram casos graves como Wagner. Mas precisavam de atendimento, um deles um homem de quarenta e poucos anos com o rosto marcado por anos de privação e preocupação, estava se queixando de dores abdominais agudas há dias. O exame de sangue, que eu havia solicitado com alguma dificuldade burocrática, confirmou minhas suspeitas: uma infecção estomacal.
Infelizmente eu não tinha os insumos necessários para tratá-lo. A constatação da falta de insumos me atingiu como um soco no estômago. Diagnosticar uma infecção estomacal e não ter o remédio adequado para tratá-la era uma tortura silenciosa. A frase de Monique ecoava em meus ouvidos: 'Esses remédios nunca chegam na nossa unidade'. Não era apenas a falta de um medicamento; era a falha de um sistema que negligenciava a saúde de seus detentos, uma realidade que eu já começava a sentir na pele. A dor daquele paciente seria amenizada com o Buscopan composto, que felizmente tínhamos em estoque na pequena e precária sala de medicamentos. Injetado, o analgésico faria seu trabalho temporário, sim, mas a infecção continuaria ali, corroendo-o por dentro, enquanto eu me sentia de mãos atadas, presa na teia da burocracia e da escassez.
Cada atendimento me mergulhava mais fundo na dura realidade do sistema penitenciário. Via nos olhos dos detentos não apenas a doença, mas a resignação, a desesperança. O ar pesado do presídio parecia carregar o peso de histórias não contadas, de dores não tratadas. A escassez de medicamentos, até mesmo os mais básicos para dor, era um lembrete constante da fragilidade da vida ali dentro.
Os ponteiros do relógio pareciam conspirar contra mim, acelerando e desacelerando em uma dança c***l para que meu plantão de caloura nunca terminasse. Faltavam apenas trinta minutos para a tão esperada liberdade, e eu já visualizava a porta de saída, o ar fresco, a sensação de dever cumprido ou quase dever cumprindo. Foi então que leves batidas, quase imperceptíveis no silêncio da sala, interromperam meus pensamentos. Um paciente agora, tão perto do fim do meu turno, seria inviável. Eu estava exausta, meu corpo pedia descanso, e minha mente clamava por um alívio daquele ambiente opressor. Mas a palavra "recusar" simplesmente não existia no dicionário de uma recém-chegada. Respirei fundo, tentando manter uma calma que meu coração não sentia, pronta para o que viesse .
— Pode entrar — falei calma, olhando diretamente para a porta. A porta se abriu e mostrou um homem, de jaleco branco e camisa social, tinha um sorriso agradável no rosto, receptivo.. Era alto, esguio, com um corte de cabelo social impecável que emoldurava um rosto que aparentava seus trinta e cinco anos ou mais, mas com uma vitalidade que o fazia parecer ainda mais jovem. Havia algo inesperado e acolhedor em sua presença, um contraste gritante com a severidade do lugar. Ele irradiava uma leveza que eu não sentia desde que pisei nesse presídio.
Ele fechou a porta atrás de si com uma suavidade inesperada para um ambiente tão ruidoso.
— Você é a doutora nova ? — Perguntou e sua voz era tão agradável quanto seu sorriso.
— Sou sim. — digo sendo gentil, tentando parecer profissional, embora meu coração tivesse acelerado um pouco.
— Prazer Willian, sou o médico do turno da tarde. — disse estendendo a mão para mim. Sua pele era quente ao toque, e eu senti uma onda de alívio por encontrar alguém que parecia amigável naquele ambiente tão hostil.
— Prazer Marcela — digo enquanto nos cumprimentamos.
— Então, o que está achando de trabalhar em uma penitenciária ? — perguntou olhando para mim. Abriu uma porta para a sinceridade que eu não esperava compartilhar tão cedo.
— olha … nem sei definir ainda mas a primeira palavra que me veio à mente foi desafiador. — confessei, rindo um pouco, um riso que parecia estranho naquele lugar.
— Sempre é no início, mas você vai se acostumar – disse amigável . Não pude deixar de olhar seus olhos azuis, eram bem claros. — Você é bem jovem. Esperava uma mulher mais velha … — diz sorrindo.
Fui pega de surpresa. Aquilo era um flerte? Ou ele estava apenas genuinamente abismado com a minha idade? Meu rosto corou, e eu não soube o que responder diante daquele comentário.
— Desculpa … acho que deixei você sem jeito — ele disse, percebendo meu silêncio e o rubor em minhas bochechas. Um riso abafado escapou dele. — Eu sou meio tagarela mesmo. Mas seja bem vinda a nossa equipe.
— Muito obrigado. — digo sorrindo. William parecia uma boa pessoa, e com certeza, alguém com quem eu poderia me dar bem. Ele se despediu, deixando um rastro de leveza no consultório, e eu voltei a preencher os prontuários, finalizando tudo no exato momento em que meu plantão se encerrava.
Arrumei minha bolsa, tirando o jaleco com a sensação de quem se livra de um peso. Fechei o consultório e caminhei até a recepção, onde deixei a chave, cada passo ecoando a liberdade que se aproximava. O ar frio do lado de fora do presídio me atingiu, e eu respirei fundo, expulsando o cansaço do dia. Hoje tinha sido exaustivo, sim, mas havia uma satisfação peculiar em trabalhar e a segurança de ser uma concursada amenizava o peso. Era um dia a menos na jornada, um passo a mais na construção de minha carreira.
[...]
Cheguei ao apartamento com uma necessidade quase primordial de tomar um banho. Sentia-me suja, não apenas fisicamente, mas como se o clima pesado do presídio e o cheiro hospitalar tivessem impregnado minha pele. Ricardo ainda não havia chegado; seu plantão só terminava às seis da noite, então ele estaria em casa em cerca de uma hora. A perspectiva de vê-lo era um bálsamo, mas eu precisava desse momento só para mim.
Despi-me de todas as minhas roupas, deixando-as cair no chão como se fossem o peso de todo o dia, e entrei no chuveiro. A água fria, inicialmente um choque, começou a relaxar meus músculos tensos. Fechei os olhos, deixando que a corrente levasse o cansaço, a frustração pela falta de medicamentos, e a estranha sensação do encontro com William. A água parecia purificar não apenas meu corpo, mas também minha mente. Era um ritual diário, um banho de descompressão, um momento de introspecção antes de enfrentar o resto da noite.
Mas mesmo sob a água purificadora, um pensamento se impôs, persistente e inquietante: Cyber. Aquele homem. Ele era impulsivo, sim, e eu me peguei pensando como havia sido puxada para o seu jogo psicológico. Por que eu permiti que ele estivesse no controle da situação? A imagem de como ele me encarou, de como seus olhos escuros e intensos me fitavam e me seguiam a cada movimento, como se quisesse desvendar cada parte de mim, cada camada da minha essência, ressurgiu vívida em minha mente. Era um olhar que parecia me despistar, me consumir, ao mesmo tempo em que me desafiava. Ele era perigoso, eu sabia, e também, inegavelmente, bonito de uma forma selvagem e indomável. A água escorria, mas a sensação de seu olhar, a energia contida que ele irradiava, queimava em minha memória, um lembrete constante de uma conexão estranha e talvez proibida. Eu me perguntava se algum dia conseguiria apagar aquela imagem, aquele sentimento.