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1240 Palavras
Eu ainda tentava recuperar o fôlego quando Monique entrou na sala. Ela me olhou de cima a baixo, notando meu semblante claramente tenso. — E aí, doutora, como foi o primeiro atendimento? — perguntou com a voz sempre doce, mas carregada de curiosidade. — Foi… interessante — respondi, sentindo minhas mãos umedecidas. — O primeiro detento que atendi… Ele se apresentou como Cyber. Monique ergueu as sobrancelhas, como se o nome não fosse novidade. — Ah, Cyber… — ela suspirou e se encostou à porta. — Ele já está aqui há uns três anos. Não é fácil lidar com ele de primeira, mas você vai ver… Ele tem um jeito diferente. — Diferente? — perguntei, tentando controlar minha curiosidade. — É, meio desafiador — ela disse com um sorriso enigmático. — Mas também educado, inteligente… E sabe como conversar. Ele sempre trata todo mundo bem, mas não se engane, tem um lado sombrio. Foi condenado por criar um verdadeiro império digital do crime: um site clandestino que vendia drogas, armas, e movimentava milhões em criptomoedas. Em menos de um ano, saiu da periferia para o topo da hierarquia do tráfico. — Nossa… — murmurei, surpresa com a gravidade disso tudo. — É, ele foi pego, claro — continuou Monique. — Mas a sentença dele foi reduzida porque colaborou em algumas investigações. Inteligente, sabe? Ele sempre teve um jeito de ver além das coisas… Mas, mesmo assim, ainda é perigoso. — Três anos… — repeti em voz baixa, tentando processar a informação. — Ele… me deixou nervosa. Não falava muito, mas o jeito como me olhava… Parecia que queria me decifrar. Monique sorriu, cruzando os braços. — Ele faz isso com todo mundo. Acho que gosta de ver as pessoas desconfortáveis. Mas não se preocupe, doutora Marcela — falou meu nome devagar, como para reforçar que estávamos juntas nessa. — Você vai se acostumar. Se quiser, posso ficar aqui no começo das consultas com ele. Mas, sinceramente, você pareceu lidar bem. Só… cuidado para não deixar que ele te leia demais — completou com um tom de aviso carinhoso. Assenti, embora não tivesse certeza do que sentia. Ele parecia um enigma, e a cada fala de Monique, esse enigma só crescia. Mesmo assim, algo nele me atraía. E eu odiava admitir isso mas não conseguia evitar nesse nosso primeiro contato. O próximo paciente chegou logo em seguida. Antes mesmo de o guarda bater à porta, ouvi as vozes baixas no corredor, algo tenso pairando no ar. Quando a porta se abriu, dois policiais entraram junto com o detento, um homem de aparência dura, talvez com uns trinta e poucos anos. Os braços dele eram cobertos por tatuagens, o olhar era frio e pesado. E, inequivocamente, o motivo da consulta se denunciava no curativo improvisado na lateral do abdômen, uma mancha escura de sangue seco que contrastava com a pele pálida. Por um instante, meu coração bateu mais rápido, um ritmo acelerado e irregular que ecoava em meus ouvidos. Eu sabia, racionalmente, que os guardas estavam ali, que eu estava em um ambiente controlado e seguro. No entanto, não deixava de ser assustador ver, tão de perto, alguém ferido por uma faca, alguém que claramente tinha vivido, e talvez causado, violência de uma forma que eu, em minha vida protegida e acadêmica, m*l podia conceber. A adrenalina começou a bombear em minhas veias, um misto de medo instintivo e uma estranha excitação profissional, o desafio de um caso real e cru. Respirei fundo, sentindo o ar pesado e com um cheiro peculiar de mofo e desinfetante que parecia impregnar a própria estrutura da prisão. Ajustei minha postura, firmando os pés no chão e projetando uma imagem de calma e autoridade. Eu era médica e não podia, em hipótese alguma, deixar o medo transparecer. Minha função era cuidar, não julgar ou fraquejar diante da realidade brutal que se apresentava. — Bom dia — falei com um tom neutro, enquanto ele se sentava na maca com a ajuda dos guardas. — Preciso registrar seu nome no prontuário — falei, pegando a prancheta. Minha voz saiu firme, apesar do aperto que senti no peito. Ele me lançou um olhar frio, mas respondeu sem hesitar: — Wagner. Anotei rapidamente, sem demonstrar a tensão que queimava dentro de mim. Depois continuei com o atendimento. — Eu preciso ver o ferimento, tudo bem? Ele apenas assentiu com um movimento lento da cabeça, sem falar nada. Os guardas estavam atentos, um de cada lado, as armas no coldre, mas as mãos já posicionadas para qualquer emergência. Eu, com luvas colocadas e o rosto sério, retirei o curativo sujo com cuidado. O cheiro de sangue, metálico e adocicado, misturado ao odor azedo e pungente de pus, invadiu minhas narinas, me fazendo prender a respiração por um instante. A textura úmida e pegajosa do tecido se descolando da pele ferida foi audível no silêncio da sala. O corte era profundo, uma f***a vermelha e roxa na pele pálida, que se estendia por alguns centímetros, mas já começava a cicatrizar, indicando que a briga havia ocorrido há mais tempo do que o curativo provisório sugeria. O sangue estava seco e coagulado, formando crostas escuras, mas ainda havia um pouco de pus amarelado, viscoso, um sinal claro de infecção. — Vou precisar limpar de novo e trocar o curativo. Está sentindo dor? — perguntei, tentando manter a voz firme. — Muita — ele murmurou com a voz rouca, mas não de fraqueza. Era o tom de alguém acostumado a suportar. Fiz perguntas básicas para registrar no prontuário: alergias, doenças, uso de medicamentos. Ele respondia seco, mas respondia. Depois limpei o ferimento com solução fisiológica, usando movimentos calmos e precisos. Ele se contorceu um pouco, mas não reclamou. — Isso pode arder um pouco — avisei, aplicando o novo curativo. — Vou te dar um analgésico para a dor. Quando terminei, ele olhou para mim por um instante, como se quisesse medir meu rosto, mas logo desviou o olhar. Os guardas o ajudaram a se levantar, e eu entreguei o comprimido para um deles, que o observou engolir. Assim que a porta se fechou e o silêncio voltou ao consultório, soltei um suspiro longo. O ar parecia pesado, como se tivesse visto um lado da vida que antes só imaginava em manchetes de jornal. Agora, estava ali. Era real. Eu sempre soube, racionalmente, que a violência, a dor, o medo, tudo isso existia. Mas ver de perto o resultado de uma briga de faca, sentir o cheiro de sangue ainda fresco, me trouxe uma nova dimensão. Eu não podia negar: por um momento, meu estômago revirou e minhas mãos tremeram de leve. Mas logo lembrei que não podia me dar ao luxo de fraquejar. Eu era médica. Era o que eu tinha escolhido ser, o que eu havia estudado, o que me impulsionava desde a adolescência. Mesmo ali, em um lugar onde as pessoas eram reduzidas a números de identificação, a códigos de barras em um sistema prisional impessoal, eu precisava ver além disso. Ver a pessoa por trás da ficha criminal. O ser humano, por mais que sua humanidade parecesse obscurecida pelos atos e pelo ambiente. O sofrimento, por mais que fosse disfarçado por uma fachada de dureza. E ao mesmo tempo… algo em mim despertou. Uma força diferente, como se eu tivesse descoberto um novo limite dentro de mim. Um que não conhecia, mas que agora fazia parte de quem eu era.
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