— Então… — falei, mudando de assunto de propósito. — Como você está se sentindo hoje? Algum sintoma que eu deva saber?
Ele suspirou fundo, como se fosse a coisa mais entediante do mundo.
— Ah, doutora… você vai mesmo começar por aí? — perguntou, e depois, com um meio sorriso. Antes de responder de fato, ele abaixou o olhar para o meu crachá, que balançava levemente no meu jaleco branco. — Marcela… — disse, num tom baixo, arrastando o nome como se estivesse saboreando cada sílaba, testando a pronúncia, explorando cada consoante e vogal — Belo nome pra uma médica qualquer.
Meu estômago deu um salto, um nó apertado no lugar onde deveria estar a calma profissional. Ele não só leu o meu crachá, como parecia me despir com o olhar, uma invasão silenciosa que me pegou desprevenida. Senti a pele do pescoço arder, um calor incômodo que subia até as maçãs do rosto, como se ele tivesse me encurralado de alguma forma que eu não conseguia explicar, mesmo que estivesse a metros de distância. Meu nome era Marcela, sim, e meu crachá era para identificação, não para um convite à i********e. O nome dele era apenas um número, um código em um prontuário, mas o meu… o meu parecia ser algo que ele fazia questão de memorizar, de possessivamente reter. Forcei um sorriso, tentando desesperadamente recuperar a compostura, o ar de profissionalismo que me era tão caro.
— Obrigada… senhor… — deixei o final da frase em aberto, já que ele não tinha se apresentado e eu não fazia ideia de como chamá-lo.
Ele ergueu uma sobrancelha, claramente se divertindo com o meu desconforto.
— Ah, doutora… aqui dentro todo mundo me chama de Cyber. — Ele disse o apelido como quem se gabava de um título honorífico, e um arrepio gélido percorreu minha espinha, mais um daqueles calafrios que não nasciam do frio ambiente da sala. Não era um nome, era uma declaração.
Meus olhos involuntariamente se dirigiram para o papel em minhas mãos, onde o número do prontuário dele, um conjunto de dígitos banais, parecia tão insignificante comparado à força que ele impunha com aquele apelido autoimposto. Cyber. A palavra reverberou na minha mente, trazendo consigo imagens de algo artificial, controlado, mas ao mesmo tempo perigosamente autônomo. Uma máquina, talvez, com falhas na programação, ou talvez, um ser humano que escolheu se esconder por trás de uma identidade quase desumana.
Eu anotei algo no prontuário, a caneta arranhando o papel com uma força desnecessária, apenas para não ter que encará-lo de volta. Meus dedos, que antes seguravam o formulário com uma firmeza profissional, agora tremiam levemente, um sinal de traição do meu próprio corpo.
Eu me forcei a respirar devagar, o ar parecendo mais pesado na sala. Ele, no entanto, continuou me observando, como se cada movimento meu, cada tremor disfarçado, fosse digno de nota, uma peça de um quebra-cabeça que ele estava montando. Eu sentia o peso do olhar dele queimando na minha pele, um calor incômodo que se recusava a ser ignorado, uma pressão invisível que me lembrava que, apesar de eu estar no controle da situação, ele era quem ditava o ritmo daquela dança. Mas eu não ia recuar.
Não ia deixar que ele visse o medo ou o desconforto que latejava dentro de mim como um tambor ininterrupto. Eu não era uma novata. Tinha lidado com pacientes difíceis antes, homens agressivos, mulheres desequilibradas, mas nenhum deles possuía essa aura de poder silencioso que Cyber emanava. Era como se ele soubesse exatamente o que estava fazendo, e isso me irritava e me intrigava na mesma medida.
— Preciso anotar algumas informações básicas… — murmurei, tentando não desviar o olhar para a intensidade com que ele me encarava. — Idade?
Ele ergueu uma sobrancelha, como se achasse graça na formalidade do meu tom.
— Tenho vinte e seis — respondeu, com aquela voz grave e lenta que parecia querer arrancar uma reação de mim.
Eu anotei no formulário, as mãos tremendo levemente. Vinte e seis anos. Ele era só um ano mais velho do que eu. Um detalhe que me deixou ainda mais desconfortável, quase um lembrete de que, apesar de tudo, ele ainda era jovem.
— Peso? — continuei, sem levantar o olhar dessa vez.
— Setenta e oito quilos.
— Altura?
— Um metro e oitenta e dois — disse, como se fosse algo que ele tivesse ensaiado, a voz carregada de um orgulho quase infantil, mas ao mesmo tempo, um orgulho que soava perigoso.
Eu só conseguia me concentrar no som grave daquela voz, na forma como ele parecia deliberadamente arrastar as palavras. Fechei o formulário, mantendo o foco em minhas anotações, evitando encarar aqueles olhos que pareciam me atravessar. Ele se inclinou um pouco na cadeira, como se quisesse ver o que eu estava escrevendo.
— Vai anotar também que eu sou um problema? — provocou, com um sorriso enviesado. Eu respirei fundo, tentando manter a compostura.
— Não — respondi, firme. — Isso não está no protocolo.
Mas, por dentro, sentia um calor estranho subir pela minha pele. Não era só medo, era algo indefinido, que me confundia.
— Certo — falei por fim. — Se não há nada físico a relatar, vamos só seguir com a rotina de hoje.
Ele deu de ombros, com um meio sorriso, mas então se inclinou um pouco para frente, esticando os braços.
— Bem… — disse ele, a voz baixa, quase num sussurro. — Tem uma coisinha, doutora.
Eu franzi a testa, confusa, até que vi quando ele virou as mãos, mostrando os punhos machucados. A pele dos nós dos dedos estava avermelhada, arranhada, e havia pequenos cortes que ainda pareciam recentes. Um deles tinha um filete seco de sangue.
— O que aconteceu? — perguntei, a preocupação no meu tom era quase automática, o instinto de médica falando mais alto.
Ele deu de ombros como se não fosse nada, mas havia um brilho estranho no olhar dele, como se se orgulhasse do que quer que tivesse feito.
— Digamos que um muro ou… alguém… me irritou. — Ele sorriu, mas o sorriso não alcançou os olhos. — Mas fique tranquila, doutora. Não dói tanto quanto parece.
Eu senti um aperto no peito.
— Posso limpar e cuidar disso, evitar infecção. — falei, com firmeza. Ele me olhou de novo, como se testasse minha determinação.
— Você quer mesmo pôr as mãos em mim, doutora? — provocou, a voz carregada de um desafio sutil. A pergunta não era sobre a ferida, mas sobre o limite que eu estava disposta a cruzar. Por dentro, meu estômago se revirou. Mas respirei fundo e mantive o olhar firme.
— Quero, sim. Eu sou médica e isso faz parte do meu trabalho — falei, pegando meu kit de primeiros socorros na prateleira ao lado. O kit era familiar, um refúgio de rotina em meio àquele caos emocional. Abri a caixa, o cheiro de álcool e antisséptico preenchendo o ar, um aroma que, por um instante, me trouxe de volta à realidade do meu propósito ali.
Quando voltei para ele, Cyber não desviou o olhar em momento algum. Suas pupilas dilatadas me acompanhavam a cada movimento, a cada passo. Eu fiquei em frente à cadeira onde ele estava, peguei uma gaze estéril e um frasco de antisséptico. Com cuidado, comecei a limpar os machucados. A pele dele era quente debaixo da minha mão, e eu percebi que estava tensa, como se a qualquer momento algo fosse acontecer, como se ele fosse reagir de forma inesperada. Eu me concentrei nas feridas, na pele arranhada, nos pequenos filetes de sangue seco, usando a precisão de meus movimentos para me ancorar. Ele ficou em silêncio, mas eu podia sentir seu olhar fixo em mim, estudando cada respiração que eu dava, cada contração dos meus músculos, cada batida do meu coração que eu sabia que ele, de alguma forma, percebia. E eu, apesar de todo o medo que insistia em crescer dentro de mim, mantive meus dedos firmes, o toque profissional e resoluto. Não ia ceder. Não ali, não agora.
— Está melhor assim. Vou fazer um curativo.
Ele apenas sorriu, aquele sorriso lento e calculado. Ele parecia ter gostado da experiência, da minha proximidade forçada.
— Obrigado… Marcela — disse o meu nome de novo, com a mesma reverência provocativa. — ou melhor, doutora Marcela.
Fiquei paralisada por um instante, incapaz de responder. Ele parecia confortável com o silêncio, como se pudesse ler cada respiração minha e cada batida do meu coração. O guarda abriu a porta e anunciou que era hora de levá-lo de volta.
Cyber se levantou devagar, como se não tivesse pressa. Antes de sair, virou-se para mim com um último olhar intenso quase brincalhão, mas que tinha algo de sombrio. Eu desviei o olhar, me sentindo exposta. Só quando a porta se fechou atrás dele é que consegui finalmente respirar fundo.
Soltei o ar devagar, sentindo o peito afrouxar. Ele tinha algo diferente e eu não sabia dizer se era perigoso ou apenas irresistível. Mas era impossível ignorar a presença dele, a forma como parecia enxergar além do que eu mostrava. Algo nele chamou minha atenção de um jeito que eu não sabia explicar. E mesmo que eu tentasse me convencer de que era só um paciente, a verdade é que eu estava curiosa para vê-lo de novo.