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1215 Palavras
O terceiro dia no presídio começou com um nervosismo que eu não conseguia disfarçar. O despertador me tirou do sono muito antes do necessário, e mesmo assim eu me levantei num salto, o coração batendo forte no peito. Dessa vez, não haveria só adaptação ou burocracia, eu iria atender detentos de verdade, ver de perto o que estava escondido por trás daqueles muros. Vesti o jaleco branco, ajeitei a gola com cuidado e prendi o cabelo num coque apertado, como se isso fosse suficiente para me proteger do que eu estava prestes a enfrentar. Meu reflexo no espelho parecia determinado, mas eu sabia que era só fachada. Os olhos denunciavam o frio na barriga, o suor nas mãos. Atravessei o corredor principal do bloco médico com passos rápidos, tentando não parecer insegura. Cada vez que escutava o barulho das portas de ferro se fechando atrás de mim, o som reverberava no peito, um lembrete de que não havia saída fácil. Quando cheguei ao consultório, a sensação de aperto só aumentou. A sala era pequena, quase sufocante. As paredes pintadas de um verde desbotado não ajudavam em nada a dar vida ao ambiente. Uma maca encostada na parede parecia tão desconfortável quanto o clima de tensão que pairava no ar. Havia uma mesa simples de metal, desgastada, e duas cadeiras de plástico, uma pra mim, outra pro paciente. No canto, uma prateleira com alguns poucos instrumentos médicos, quase todos com etiquetas de patrimônio público coladas às pressas. Eu tentei me concentrar no relógio pendurado na parede, marcando 8h03. Senti minha garganta secar, e o som dos segundos se arrastando parecia quase tão alto quanto o meu coração. Monique avisou que viria o primeiro detento hoje. Ela ficaria na salinha ao lado caso precisasse de ajuda. Eu estava nervosa. Já tinha atendido alguns pacientes durante a residência médica. Sempre fui calma, cautelosa e sempre priorizei o bem-estar do paciente. Mas hoje era diferente. Querendo ou não, era um detento. Eu tentava empurrar esse pensamento para longe, lembrando a mim mesma que antes de ser chamado de detento, eu lidava com uma pessoa. Uma vida, uma história. Foi então que escutei o som pesado da porta de ferro sendo destrancada. O estalo metálico ecoou pela sala, como se anunciasse algo inevitável. Meu corpo inteiro ficou tenso. Eu sabia que estava prestes a encontrar não só o primeiro detento do dia mas o primeiro detento que eu realmente iria atender como médica. E mesmo que eu repetisse pra mim mesma que era apenas mais um paciente, no fundo eu sabia que ali nada era “só mais um”. O ranger da porta de ferro se abriu devagar, como um aviso. Segurei a respiração por um segundo, o ar preso no peito, esperando para ver quem entraria. E então eles apareceram, dois guardas, uniformizados e rígidos, segurando um homem algemado entre eles. — Bom dia, doutora. Trouxe o detento número 804. — disse ele, em um tom quase amistoso. Chamá-lo por um número soou tão impessoal que me causou um certo aperto no peito. Eram pessoas, não números. Mas respirei fundo, enterrei esse pensamento, e forcei um sorriso. — Pode entrar — falei. O guarda entrou primeiro, e logo depois, o detento. Assim que ele cruzou a porta, um calafrio percorreu minha espinha. Ele era jovem, talvez da minha idade ou um pouco mais novo. A pele bronzeada, um cavanhaque bem aparado, o cabelo curto, o corpo definido, mesmo sendo magro, parecia alguém que cuidava do físico. Mas não era só isso: havia algo no modo como ele caminhava, como se fosse dono do lugar, como se nada pudesse tocá-lo. Uma tatuagem no pescoço capturou meu olhar por um instante, mas logo voltei a fitar seus olhos castanhos claro. Tinha algo ali… algo que parecia me provocar sem nem dizer palavra. O guarda tirou as algemas dele, num gesto quase mecânico. — Doutora, estarei do lado de fora caso precise — avisou, e eu apenas assenti. O guarda saiu, fechando a porta atrás de si, e o silêncio pareceu engolir a sala. O detento não disse nada. Só olhou ao redor, como se estivesse avaliando cada detalhe. Depois, passou a língua pelos lábios devagar, e quando finalmente pousou o olhar em mim, senti um arrepio. Era como se ele me despisse com os olhos, e o ar pareceu ficar pesado. Dei um pequeno sorriso, tentando esconder o desconforto que me consumia por dentro. Eu não queria demonstrar medo, mas não podia negar que ele me intimidava. — Bom dia. Sente-se, por favor — disse, tentando manter o profissionalismo na voz. Ele não respondeu. Apenas me encarou, e então caminhou até a cadeira, com passos lentos, quase provocadores. Sentou-se de maneira despojada, recostando-se e cruzando as pernas. Enquanto mascava chiclete, me fitava como se tentasse decifrar cada centímetro de mim. Eu sentia meu coração bater mais rápido, mas mantive a respiração sob controle. — Você é psicóloga? — perguntou ele, a voz grave e arrastada. Aquela pergunta, tão simples, soou como um desafio. Senti um calafrio na espinha, mas mantive o tom calmo. — Não. — respondi, tentando soar firme. Ele balançou a cabeça, um sorriso quase imperceptível no canto dos lábios, mas os olhos continuavam frios e penetrantes. — Eu pedi uma psicóloga. Não uma médica qualquer. — falou, num tom baixo, como se fosse um aviso. A provocação estava clara, e aquilo me atingiu. Quem ele pensava que era para me desmerecer assim? Eu podia sentir a tensão no ar, como se estivéssemos em um duelo silencioso. Por um momento, minhas sobrancelhas se uniram em confusão. “Ele pediu?”, pensei, sentindo um nó na garganta. Desde quando um detento tinha o direito de pedir alguma coisa? E mais do que isso: quem era ele para achar que podia escolher quem o atenderia? Essa certeza de que podia exigir, como se tivesse algum tipo de poder, me deixava intrigada e um pouco assustada. Mas eu não podia deixar transparecer isso. Eu precisava manter a postura profissional, mesmo quando ele parecia determinado a me testar. Levantei o queixo um pouco, sem desviar o olhar. Olhei para ele com desdém, mas por dentro eu estava tentando reorganizar as palavras na minha mente. Respirei fundo antes de responder, tentando manter a calma que sempre me caracterizou. — Sinto muito, mas hoje você vai ter que se contentar comigo. — falei, firme, tentando soar confiante. Ele arqueou uma sobrancelha, como se achasse graça. Um sorriso discreto apareceu nos cantos dos lábios, e ele encostou o corpo na cadeira, cruzando os braços de maneira relaxada. — Vai me dizer que vai resolver minha cabeça, doutora? — A voz dele soou quase debochada, mas tinha algo nela que me fazia estremecer. Como se ele estivesse me desafiando, medindo cada palavra minha. Eu não queria mostrar medo. Não ali, não para ele. — Vou fazer o que for necessário para que sua saúde esteja em dia. É meu trabalho, e é isso que eu vim fazer. — Cruzei as mãos sobre a mesa, tentando demonstrar segurança. Ele me olhou por mais alguns segundos, silencioso. O som do chiclete sendo mastigado parecia mais alto naquele consultório que nunca fora tão silencioso. Depois, ele inclinou a cabeça levemente para o lado, como quem está curioso.
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