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1462 Palavras
Quando cheguei em casa, larguei a bolsa na cadeira da cozinha e fui direto para o quarto. Tinha sido um dia longo, cheio de novidades e de tensão, mas eu sentia que, apesar de tudo, estava onde deveria estar. Peguei o celular e disquei para Sarah. Precisava compartilhar aquilo com alguém que me conhecesse de verdade. — Alô? — ela atendeu rápido, com a voz animada. — Oi, amiga! — suspirei, aliviada de ouvir a voz dela. — Só queria te contar como foi o primeiro dia. — Me conta tudo! — Sarah disse, empolgada. — E aí, como foi? — Foi... intenso — comecei a falar. — Conheci o pessoal da saúde, vi a enfermaria, entendi a rotina. Ainda não atendi nenhum preso, mas só de estar lá já me deu um frio na barriga. Sarah riu do outro lado da linha. — Eu imagino. Mas você foi incrível, tenho certeza. — Eu tô tentando, sabe? — eu disse, sorrindo. — Hoje a Monique me mostrou cada cantinho do lugar, falou dos horários, das regras. É tudo tão diferente de onde eu já trabalhei… — E você? Tá mais calma? — ela perguntou. — Um pouco. — Suspirei de novo. — Eu ainda sinto aquele medo, mas ao mesmo tempo… sei lá. Eu sinto que eu consigo. — Claro que consegue, Marcela. — Sarah falou com firmeza. — E eu tô aqui pra ouvir tudo. Quero detalhes de cada coisa! Conversamos por mais alguns minutos. Eu falei dos colegas, do diretor, até das portas pesadas do presídio. Sarah me escutou com paciência, às vezes rindo, às vezes soltando aqueles suspiros dela de preocupação. Eu sabia que ela não entendia muito bem por que eu tinha aceitado esse trabalho, mas mesmo assim, era bom ter o apoio dela — pelo menos por enquanto. A adrenalina do primeiro dia ainda estava no meu corpo, mas ao mesmo tempo, sentia um cansaço delicioso, como se cada músculo estivesse grato por finalmente poder relaxar. Decidi ir tomar banho para tentar soltar essa tensão. Entrei debaixo do chuveiro quente, a água escorrendo pelos meus ombros e levando embora o cheiro de hospital, o calor abafado dos corredores do presídio. Fechei os olhos, tentando me lembrar de cada detalhe: o som dos portões se fechando atrás de mim, o olhar curioso de Sebastian, o sorriso cansado de Monique. Tudo parecia tão intenso. Quando saí, vesti um pijama leve de algodão, um shortinho e uma camiseta branca velha que era macia contra a pele. Deixei o cabelo úmido caindo pelos ombros e caminhei descalça até o quarto. Peguei o celular, deitei na cama e comecei a rolar distraidamente o feed de fotos, mas não estava prestando atenção em nada. Minha mente ainda estava no presídio, nas histórias que Sarah ia querer ouvir depois, nas pequenas vitórias que eu queria comemorar. Foi quando ouvi a fechadura girar e o barulho pesado da porta se abrindo. Um arrepio percorreu minha coluna, não de medo, mas de expectativa. Era Ricardo. Ele entrou no apartamento com passos duros, a mochila pendurada num ombro e a expressão carregada de frustração. Por um momento, nossos olhares se encontraram e eu senti aquele vazio dele me puxar para dentro — como se fosse um buraco n***o de mau humor.Eu me levantei da cama, ainda segurando o celular. — Oi, amor — falei num tom doce, quase como quem tenta acalmar uma fera. — Como foi o seu dia? Ele não respondeu logo. Largou a mochila no sofá com um baque seco e foi direto para a cozinha, abrindo a geladeira e ficando ali parado, encarando as prateleiras como se não enxergasse nada. — Foi cansativo — disse, finalmente, com uma voz que parecia um grunhido. Eu senti um aperto no peito fui até ele, parando a poucos passos de distância. O azulejo frio da cozinha gelava meus pés, mas eu nem ligava. — Quer que eu prepare alguma coisa pra você comer? — ofereci, tentando manter a calma. Ele fechou a geladeira com força e me olhou de lado. — Não — disse, seco. — Eu só preciso de um banho e de silêncio. A forma como ele falou me fez morder o lábio. Eu me encolhi um pouco, mas mesmo assim não consegui ficar calada. — Ricardo… — chamei, minha voz um fio. — Eu tô aqui, se você quiser conversar. Você parece tão… distante. Ele ficou parado por um momento, respirando fundo. Quando se virou para mim, vi que a testa dele estava vincada, os olhos pareciam exaustos, como se carregassem muito mais do que só o cansaço físico. — Desculpa, Marcela — disse, com a voz mais baixa. — Eu sei que às vezes sou grosso. Mas não é com você. É o trabalho, só isso. Ele se aproximou mais de mim, colocou uma mão suave no meu rosto e, num gesto carinhoso e quase automático, beijou a minha testa. Foi um toque rápido, mas cheio de ternura. Depois, soltou um suspiro e se afastou, andando direto para o banheiro. Fiquei parada no meio da cozinha, ouvindo o som do chuveiro sendo ligado e a água correndo. Meu coração ainda batia forte no peito, confuso. Eu sabia que Ricardo sempre tinha sido sério e um pouco fechado, mas, naquela noite, ele parecia ainda mais distante, como se algo estivesse corroendo ele por dentro. Fechei os olhos e respirei fundo. “É o trabalho”, repeti mentalmente, tentando me convencer de que era só isso, os plantões intermináveis, a pressão dos casos, o cansaço acumulado. Mas uma pontada de dúvida ainda me cutucava, como um sussurro que eu tentava ignorar. Quando Ricardo saiu do banheiro, percebi que ele parecia mais calmo. Vestia um moletom escuro, o cabelo ainda úmido pingando levemente. Ele me encontrou sentada no sofá, onde eu tinha me jogado para tentar relaxar. Sem dizer nada, ele caminhou até mim e se sentou ao meu lado. Depois, deitou a cabeça no meu colo, como um menino cansado buscando abrigo. — Desculpa mais uma vez, meu amor — murmurou, a voz mais suave agora. — Eu não queria ter sido tão ríspido. Só tô esgotado. Passei os dedos devagar pelo cabelo dele, sentindo o calor do corpo dele sobre minhas pernas. Um carinho quase automático, mas que também me acalmava. — Eu sei — falei baixinho. — Tá tudo bem. Ele suspirou outra vez, fechando os olhos, e eu fiquei ali, acariciando a cabeça dele, sentindo o peso de tudo que ele carregava e, talvez, de tudo que eu ainda não sabia. Depois de um silêncio que pareceu longo demais, ele abriu os olhos e me olhou, um pouco mais presente, como se de repente lembrasse que eu também precisava de atenção. — E o seu dia? — perguntou com a voz suave, quase um sussurro. — Como foi lá no presídio? Tá tudo bem? A pergunta me pegou de surpresa, mas ao mesmo tempo trouxe um calor bom no peito. Era um gesto de cuidado, mesmo que pequeno. — Foi bom — contei, tentando resumir. — Conheci Monique e Sebastian, eles vão me ajudar nessa fase de adaptação. E fui ver a enfermaria, os horários, essas coisas… Foi tranquilo, apesar do nervosismo. Ele sorriu de leve, aquele sorriso de canto de boca que eu sempre amei. — Eu sabia que você ia dar conta — falou, com uma convicção que me confortou. — Você é incrível, Marcela. Vai ser uma médica sensacional lá. Eu sorri também, sentindo as palavras dele se espalharem pelo meu corpo como um abraço. — Obrigada, amor — falei, apertando de leve o ombro dele. Ele se virou um pouco, como se quisesse se aproximar ainda mais, e passou o braço em volta da minha cintura, segurando firme. — Eu tô aqui pra você, tá? — murmurou, quase como uma promessa. — Sempre. E, por um instante, tudo pareceu calmo outra vez. Porque, antes, quando ele tinha sido tão frio e tão duro comigo, eu senti um aperto no peito, como se eu fosse só mais um fardo na vida dele. Eu fiquei me perguntando o que eu tinha feito de errado, se era algo que eu disse ou se eu tinha apenas me tornado um incômodo e foi difícil não pensar nisso enquanto eu estava ali, sozinha na sala. Mas agora, com ele deitado no meu colo, a voz suave, o toque carinhoso, era como se aquela insegurança tivesse sumido. Como se o mundo, por um momento, fosse só nós dois e tudo estivesse no lugar certo. Eu fechei os olhos e respirei fundo, deixando esse momento me envolver completamente. Talvez, no final, fosse só o peso do trabalho mesmo. E eu escolhi acreditar nisso porque eu ainda queria acreditar que tudo ia dar certo.
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