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1398 Palavras
— Vou chamar Monique e Sebastian, eles vão lhe mostrar tudo — disse a secretária do diretor indo até a próxima sala . Eu apenas assenti, agradecendo, e logo depois vi surgir no corredor duas figuras distintas. Monique chegou primeiro. Devia ter por volta de 37 anos, com os cabelos presos num coque simples e uma expressão que parecia carregar o peso de muitas histórias. Apesar do olhar cansado, seus olhos sorriram quando ela se aproximou. — Oi, Marcela, seja bem-vinda — ela falou, me dando um aperto de mão caloroso.— Vou te ajudar no que precisar, tá bom? Nos primeiros dias, tudo parece confuso, mas a gente vai aos poucos. — Obrigada, Monique — respondi, me sentindo um pouco mais segura com a gentileza dela. Logo atrás dela vinha Sebastian, um homem mais velho, de rosto fechado mas não hostil. Os cabelos grisalhos bem aparados e a postura ereta me deram a impressão de alguém que já tinha visto muita coisa na vida. Ele me cumprimentou com um aperto de mão firme e um sorriso de canto. — Sebastian. Enfermeiro aqui há um bom tempo — ele disse, me olhando de cima a baixo como se estivesse surpreso. — Você é muito jovem pra ser médica, hein? Eu ri de leve, tentando disfarçar a pontada de nervosismo que ainda sentia. — Pois é… Mas tô pronta pra encarar, Sebastian. — Isso que eu quero ver. Vai precisar dessa coragem aqui dentro — ele respondeu, e apesar da fala meio ríspida, senti que ele estava apenas me testando. Como quem quer ver até onde você aguenta. Monique me explicou como seria o início dos meus dias: um tour pelo local, a apresentação dos setores e uma conversa rápida com o diretor para alinhar minhas funções. Enquanto ela falava, eu absorvia cada detalhe ,os horários, os procedimentos de segurança, o que eu poderia e não poderia fazer. Tudo era novo e exigia uma atenção quase obstinada. Sebastian me acompanhava com aquele olhar experiente, fazendo comentários pontuais. — Aqui a gente tem que ser mais do que enfermeiro ou médico — ele disse em certo momento, olhando diretamente nos meus olhos. — A gente tem que ser alguém em quem eles confiem. Ou pelo menos que respeitem. Eu concordei, sentindo o peso da responsabilidade. Enquanto me guiavam pelos corredores brancos, passando por portas de ferro e câmeras de vigilância, eu me lembrava das palavras de Ricardo naquela manhã. Ele tinha razão: eu estava pronta. Mesmo com o coração disparado, mesmo com a ansiedade pulsando no peito, eu estava ali e eu ia dar conta. Monique me levou até a enfermaria, uma sala simples, mas organizada, com macas alinhadas e um armário de medicamentos trancado com cadeado. A iluminação fria e os cheiros de antisséptico me lembravam os plantões no hospital universitário mas ali tudo parecia mais silencioso, mais contido, como se a vida toda respirasse com cuidado. — Essa é a enfermaria — explicou Monique, sorridente. — Aqui você vai atender a maioria dos casos, geralmente problemas de saúde simples, mas sempre tem que ficar atenta. — Ela me mostrou o armário e os materiais de primeiros socorros. — Eu e Sebastian vamos te ajudar nos primeiros dias. Você vai pegar o jeito. — Certo — assenti, tentando absorver cada detalhe. O nervosismo ainda estava ali, mas eu queria parecer confiante. Depois, ela me levou para ver o quadro de horários. Uma folha plastificada, afixada na parede do posto de enfermagem, onde estavam escritas as consultas e as visitas médicas agendadas. — Segunda, quarta e sexta você começa às sete da manhã e vai até às duas da tarde. Terça e quinta das nove da manhã às cinco da tarde, lembra? — Ela sorriu. — Aqui está tudo anotado. Tem as consultas de rotina e eventuais emergências. Mas sempre tem que ficar de olho, especialmente quando o diretor chamar para atender algum preso específico. Eu olhei para a folha, tentando decorar os horários, o nome dos internos e suas condições. Havia nomes riscados, datas e horários preenchidos à mão e, de repente, me senti parte de algo muito maior. — Vai se acostumar — disse Monique, como se adivinhasse meus pensamentos. — E quando tiver dúvidas, pode contar comigo e com o Sebastian. Enquanto andávamos de volta pelo corredor, respirei fundo e ajustei o jaleco. Eu sentia medo, claro, mas também sentia uma estranha excitação, como se cada passo fosse um lembrete de que, mesmo em um lugar tão fechado e controlado, eu ainda tinha liberdade para fazer a diferença. E isso me deu forças para seguir em frente. Monique me lançou um olhar sério enquanto caminhávamos para fora da enfermaria, suas palavras carregadas de uma cautela que eu jamais tinha escutado antes em hospitais. — Nesses primeiros dois dias será a sua fase de adaptação — ela explicou, mantendo a voz calma. — Então não vão trazer nenhum detento para o atendimento. É mais pra você se acostumar com a rotina e o ambiente. — Ela deu de ombros, como se fosse uma regra simples, mas eu senti o peso daquelas palavras. — Aqui temos mais dois médicos além de você — continuou. — O Willian cobre o plantão da tarde, logo depois de você. E tem o Robson, que faz alguns plantões de manhã e à tarde. Acho que vão coincidir com seus horários de vez em quando. Mas uma coisa é certa: nunca, em hipótese alguma, temos médicos à noite. Nunca. — Por quê? — perguntei, surpresa. — Porque nunca se deve confiar nos detentos — Monique falou sem hesitar. — Durante o dia, tudo é mais controlado, tem mais agentes por perto. À noite… bom, à noite as coisas podem mudar. Você vai entender com o tempo. — Ela sorriu de novo, como se quisesse tirar a tensão do momento, mas a gravidade permanecia nos olhos dela. — Vai dar tudo certo, doutora. Você vai ver. Assenti em silêncio, respirando fundo. Ali, no corredor frio e silencioso, senti o primeiro arrepio de medo — mas também uma estranha força dentro de mim. Era ali que eu ia começar. E estava pronta para isso. — Agora vamos te apresentar ao restante da equipe de enfermagem — disse Monique, me guiando pelo corredor comprido e cinzento que levava à outra parte do setor de saúde. Enquanto caminhávamos, percebi como o prédio parecia ainda mais frio ali, quase como se cada passo ecoasse pelas paredes de concreto. Chegamos a uma sala de descanso pequena, com uma mesa retangular no meio e algumas cadeiras ao redor. Na parede, um relógio antigo marcava as 8h20. Alguns enfermeiros estavam sentados, conversando baixo, tomando café em copos descartáveis. — Gente, essa aqui é a doutora Marcela Vasconcelos — anunciou Monique, me dando um sorriso encorajador. — Ela vai começar hoje. Um homem alto, de pele morena e cabelo raspado, se levantou primeiro. Ele tinha um olhar tranquilo, mas sério. — Prazer, doutora. Sou o Emerson, sou técnico de enfermagem e cubro as manhãs e algumas tardes. — Oi, Emerson. Muito prazer — respondi, sorrindo, ainda que o nervosismo me deixasse um pouco rígida. Uma mulher loira, de r**o de cavalo e olhar curioso, acenou com a cabeça. — Eu sou a Aline. Trabalho aqui faz cinco anos, quase a minha segunda casa. Se precisar de alguma coisa, pode contar comigo. — Obrigada, Aline — falei, sentindo um alívio por ver a simpatia dela. Outro rapaz, de óculos e semblante sério, levantou a mão num cumprimento contido. — Sou o Jonas. Fico no turno da manhã também. Seja bem-vinda. Monique fez um gesto em direção a outro rapaz que estava de costas, mexendo num armário. — E ali é o Murilo. Ele é meio calado, mas ótimo profissional. Murilo virou-se e me deu um breve sorriso. — Prazer, doutora. — Bom — disse Monique, me olhando. — Esse é o pessoal que vai estar mais próximo de você durante os turnos. Cada um sabe como é a rotina aqui, e todos nós entendemos que trabalhar nesse ambiente exige muito jogo de cintura. Se tiver alguma dúvida ou precisar de algo, pode falar comigo ou com qualquer um deles. Eu agradeci, sentindo o calor de estar sendo acolhida. Mesmo assim, no fundo do peito, a ansiedade ainda borbulhava. Eu sabia que os dias seguintes iam ser de aprendizado e talvez de muitas surpresas também.
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