Chego no apartamento por volta das 22h. Talvez Ricardo já esteja dormindo, e eu esperava mesmo que ele estivesse. Ainda estava chateada com ele. Não queria ter que encarar a expressão fechada dele, que eu já sabia que encontraria. Assim que entro, ouço a TV ligada, ou seja, ele estava acordado. Suspiro pesadamente e passo pela sala. Ele está sentado no sofá, e ao sentir minha presença, vira a cabeça. Seus olhos me fitam por segundos que parecem uma eternidade, um olhar frio que não revela nada, antes que ele volte a atenção para a TV. Ele me ignorou, não trocando uma palavra sequer comigo. Por um momento, pensei em falar, mas não queria dar o braço a torcer nessa situação. Ricardo tinha que perceber que errou e que falou algo que me magoou.
Eu estava cansada o suficiente para debater mais com ele. Não valia a pena, pois ele sempre iria querer ter razão. Eu conheço Ricardo.
Ricardo sempre espera que eu diga que estou errada, que ele está correto e que eu o adule para voltarmos a nos falar. Mas hoje, isso não vai acontecer. Eu estou cansada mentalmente e fisicamente. Essa foi minha primeira semana no presídio e, apesar de tudo, eu deveria estar feliz por finalmente conseguir manter o controle, por ter sido uma profissional à altura no meu trabalho.
Vou até o banheiro, tiro a roupa, tomo uma ducha fria rápida, saio do box, prendo meu cabelo, escovo meus dentes e passo, como de praxe, o hidratante corporal.
Saí do banheiro enrolada na toalha, sigo até o quarto e tenho uma surpresa desagradável: Ricardo está lá. Ele não está na sala assistindo TV, mas no quarto. Meu corpo enrijece. Seus olhos sobem e descem pelo meu corpo, e vejo ele travar o maxilar, uma tensão que reflete a dele. Ele percebe que estou olhando para ele com a cara fechada, fazendo assim ele desviar o olhar novamente para o celular.
Vou até a cômoda e pego uma camisola de seda branca e visto. Não daria a ele a chance de interpretar m*l a situação ou de usar minha nudez para tentar uma reconciliação que eu não desejava. Retirei a toalha por baixo da camisola, peguei uma calcinha confortável e a vesti.
Vou até a cama e me deito, desligando o abajur da escrivaninha. Puxo o lençol para mim e me viro de costas para ele. Se ele não falasse comigo, eu também não faria questão de falar com ele.
Sinto o colchão afundar um pouco atrás de mim. Ele se deitou. O cheiro familiar do seu sabonete, que antes me acalmava, agora me parecia estranho. Por um instante, senti o calor de seu corpo se aproximar, e uma mão se estendeu para tocar meu ombro. Uma pontada de familiaridade e, confesso, um vislumbre fugaz de fraqueza, me percorreu. Eu quase cedi, quase me virei para ele, para o conforto fácil de um toque que não exigiria palavras nem pedidos de desculpa.
Mas, naquele mesmo instante, a clareza veio como um choque. Ele não estava buscando me confortar ou se desculpar; ele estava tentando uma reconciliação por meio do toque, pulando a conversa que eu precisava ter, esperando que eu esquecesse tudo apenas pela proximidade física. Ele só estava fazendo isso porque queria que eu cedesse.
Meu corpo permaneceu rígido. Eu não me movi, não dei um sinal. A mão dele hesitou por um segundo, e então, se afastou. Mas Ricardo era persistente. Poucos segundos depois, senti sua respiração em meu pescoço, e um beijo leve e morno foi depositado em meu ombro. Uma onda de algo que eu não queria admitir, uma vontade imensa de me virar e beijá-lo, de me render à familiaridade do seu toque e ao calor do seu corpo, me atingiu. Era o caminho mais fácil, o fim imediato daquela tensão exaustiva. No entanto, a mágoa e a convicção de que ele não estava realmente arrependido, apenas buscando o controle de volta, me ancoraram. Permaneci imóvel, o corpo tenso sob o lençol, não cedendo.
O silêncio parecia se arrastar, pesado, quase sufocante. Pensei que ele havia desistido, mas então sua voz, baixa, quebrou a quietude.
— Eu gosto dessa camisola.
Ele não estava pedindo desculpas, não estava sequer falando sobre a discussão. Era uma tentativa clara de desviar o foco, de me atrair para um terreno de i********e onde ele se sentia no controle. Meu corpo, apesar de ainda rígido, sentiu um calor momentâneo com o elogio, uma resposta automática. Mas a razão gritou mais alto. Virei a cabeça apenas o suficiente para que minha voz chegasse até ele, ainda de costas.
— Que bom que você gosta, Ricardo. Pena que ela não apaga as coisas que você disse hoje de manhã.
Ele apenas soltou um suspiro pesado, um som de frustração contida, e se virou para o outro lado, dando-me as costas. Para ele, aquele suspiro e aquele movimento eram uma resposta de frustração e, sim, de derrota. Era a primeira vez que sua tática habitual de manipulação falhava tão claramente. Ele pensou que estaria no controle, assim como todas as outras vezes. Mas dessa vez, eu não cedi, e ele percebeu isso.
O silêncio voltou a preencher o quarto, agora mais gélido do que antes.