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1325 Palavras
Acordei com a luz do sol iluminando o quarto. O meu sono foi leve. Por um momento, senti o peso da dúvida pairar sobre mim, questionando se deveria estar agindo assim com Ricardo, se minha rigidez não era excessiva. Mas o cansaço da semana me venceu logo em seguida, e a escuridão da noite me engoliu. Me espreguicei, sentindo a brisa leve da manhã. Olho para o lado e o espaço ao meu lado está vazio. Ricardo não está na cama. Por um instante, pensei que ele já tivesse ido para mais um plantão, mas um clique no meu cérebro me lembrou: hoje era sábado, dia de folga para ele. O que significava que eu passaria o dia inteiro tendo que ver sua cara fechada, o ar pesado entre nós. A ideia já me cansava. Tentaria ignorá-lo. Afinal de contas, foi ele quem me destratou. Saí da cama, arrumando os lençóis, ajeitando os travesseiros e respirando fundo para encontrá-lo no próximo cômodo. Quando chego na cozinha, ele não está. Vou até a sala, ele também não está. Concluí que ele deve ter saído. Uma pontada de curiosidade, quase um fisgão, pairou sobre mim. Para onde ele tinha ido? Minha mente começou a formular cenários, mas me forcei a frear. Quando ele chegasse, eu não perguntaria, até porque isso daria uma brecha para ele. E eu queria conversar sobre nossa discussão, é mais do que isso: eu precisava que ele se desculpasse. De verdade. A raiva me queimou por dentro. Pensar que ele me via apenas como um corpo bonito para exibir ou controlar, e não como a médica competente e profissional que eu era, me deixava com um gosto amargo na boca. Logo ele, que deveria ser meu maior apoio, era quem mais me desvalorizava. E isso me fazia ter outro pensamento: o ambiente hostil e despretensioso que era o presídio, e mesmo assim, alguém como Cyber me via como uma profissional que podia o ajudar. [...] Estava fazendo o café quando escuto o barulho da porta. Era Ricardo. Continuei o que estava fazendo sem nem ao menos olhar para trás. Eu sabia que ele viria para a cozinha, o centro da casa, onde ele esperaria que eu estivesse. Não demorou muito para ele entrar. Senti o peso do seu olhar em minhas costas, como se me sondasse, mas uma vez não falou nada. Abriu a geladeira e tomou água. Pelo tênis e pela roupa esportiva, ele deve ter ido correr. Ele não saiu de dentro da cozinha, ficou parado me olhando, e eu podia sentir seus olhos queimando em mim, esperando que eu iniciasse a conversa. O silêncio dele era uma tática. — Você pode fazer uma torrada para mim? — perguntou calmo, passando as mãos no cabelo e em seguida tirando a camisa, exibindo seu corpo definido. Não iria deixar isso me distrair, embora uma parte de mim sentisse o calor sutil que seu corpo exalava. Concentrei-me no pão. — Posso — falei seca. Não iria me deixar levar apenas pelo seu corpo. Falei, indo pegar mais um pão para fazer a torrada. Ele ficou parado encostado na bancada. Ouvi ele suspirar. — Você vai ficar assim comigo até quando? — perguntou despretensiosamente, seu tom de voz estava calmo. Olhei para ele, meus olhos estreitos de pura incredulidade. Como ele ousava fazer essa pergunta, como se eu estivesse com raiva sem motivo, como se ele não tivesse feito absolutamente nada para merecer meu descontentamento? Essa era a tática mais irritante de Ricardo: inverter a culpa, sugerindo que a minha raiva era o problema, e não a causa dela. — Até quando você decidir me pedir desculpas de verdade — falei grossa e desviei o olhar. Ele sorri, um sorriso de desdém que eu conhecia bem, como se achasse graça da minha teimosia. O que me irritou ainda mais. — Qual é a graça? — questionei, minha voz já começando a tremer de frustração. — Você. Você está com raiva. E eu não entendo o porquê — falou, com uma calma que me irritou até a alma. Como ele ousava? Como podia ser tão cego ou tão propositalmente c***l? — Como você ousa dizer isso?! — Minha voz explodiu, mais alta do que eu pretendia, carregada de toda a frustração e mágoa que eu vinha guardando. — Ricardo, você me magoou. E acima de tudo, não acreditou em mim como profissional! Você deveria estar ao meu lado, me apoiando, mas em vez disso, só me viu como ‘um corpinho bonito’, que estava ‘querendo chamar atenção’! — As palavras saíram em um fôlego, carregadas de anos de ressentimento acumulado, não apenas daquela manhã. Eu nem olhei para ele. Por fim, eu ouvi ele respirando profundamente, o som um pouco trêmulo, mas controlado. Para ele, aquele suspiro e aquele movimento eram uma resposta de frustração e, sim, de derrota. Era a primeira vez que sua tática habitual de manipulação falhava tão claramente. Ele pensou que estaria no controle, assim como todas as outras vezes. Mas dessa vez, eu não cedi, e ele percebeu isso. Ricardo se aproximou de mim e, por fim, me abraçou por trás. — Eu sei. Eu sei que te magoei. Me desculpa, não foi por m*l — disse baixo, e senti seu hálito quente encostar no meu ouvido. Não sabia se ele estava dizendo aquilo apenas para me desarmar, para me fazer "ficar de boas" com ele e seguir em frente. Ou se estava dizendo realmente a verdade. Bastava eu querer acreditar nos meus sentidos para decifrar ele, e eles gritavam que aquilo era uma performance, que ele estava recitando um roteiro que sabia que me agradaria, sem a verdadeira intenção de mudar. — Você me magoou — repeti, minha voz um sussurro cansado. — Eu sei, Marcela. Eu sei que errei. Você não é só um corpinho bonito. É uma profissional. Uma excelente profissional. — disse ele, me dando um beijo no pescoço. Ainda não decifrei se isso era verdade ou se ele só estava dizendo palavras nas quais sabia que eu queria ouvir. Eu senti o toque dos seus lábios na minha clavícula, e seus braços apertaram-me mais forte contra ele. Por um breve instante, meu corpo relaxou, cedendo ao conforto familiar. Uma onda de alívio fugaz me invadiu, e eu quase me perdi naquele toque. Mas, tão rápido quanto veio, a clareza me atingiu novamente. Minha guarda se ergueu de novo. Virei-me para ele, desvencilhando-me de seu abraço, e encarei-o. — Eu estou falando sério, Ricardo. — Minha voz era firme, apesar do turbilhão interno. — Eu fiquei magoada com suas palavras, e eu quero que você seja realmente sincero com suas desculpas. Ele olhou para mim. Seus olhos, geralmente tão fechados ou frios quando discutíamos, carregavam agora um requisito de arrependimento que me pegou de surpresa. Era sutil, quase imperceptível, mas estava lá. — Marcela, eu sei que errei, ok? E estou falando a verdade. — Ele falou sério, a voz desprovida de qualquer zombaria ou manipulação, demonstrando realmente que estava arrependido. Ainda o olhei por um longo momento, tentando penetrar além da superfície de suas palavras e da expressão séria. O arrependimento em seus olhos era novo, desarmava parte das minhas defesas, mas a desconfiança, construída em anos de desculpas rasas, não se dissolvia assim. Era um terreno minado, e eu sabia que precisava pisar com cautela. Não havia um abraço imediato, um sorriso fácil de perdão. Eu apenas acenei com a cabeça, um gesto pequeno que, para mim, significava: "Entendido, mas não esquecido." Minha voz ainda era um sussurro, mas com um toque de alívio. — Certo. Eu sabia que as palavras eram importantes, mas as ações seriam ainda mais. Aquele sábado ainda estava apenas começando, e a verdadeira prova da sinceridade de Ricardo viria com o tempo e com o quanto ele estaria disposto a mudar. Inclinei-me levemente e dei um selinho rápido nos seus lábios, uma trégua cautelosa, mas não um esquecimento.
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