"Muitas vezes do inesperado,
nasce o que se espera uma vida inteira."
Finalmente havia me programado para o curso. A primeira aula seria sobre o cozimento correto das massas. Haviam diversas delas prontas em cima da bancada, tanto as caseiras preparadas na hora, quanto as já industrializadas dentro dos pacotes fechados.
Meu caderno de anotações já estava repleto delas. Havia muitas palavras sublinhadas e rabiscadas, assim como desenhos que imitavam os formatos de macarrões.
Por sorte consegui pegar um ônibus no horário programado para chegar a tempo, ou até mesmo antes do meu horário de trabalho iniciar.
Basicamente havia passado uma semana desde que Lorenzo havia cuidado de mim em seu apartamento. Não houve conversa sobre o nosso beijo e sua frase sobre eu não poder me relacionar com seu primo.
Mas não posso negar que havia sido uma semana boa. Caterina estava trabalhando na cozinha, mas segundo uma fofoca de Álvaro que havia escutado uma conversa do senhor Riccardo e de Lorenzo, ela passaria apenas mais duas semanas conosco.
— Está feliz hoje. — Álvaro falou ao me ver entrar radiante pela porta. Minhas bochechas chegavam a doer de tanto que havia sorrido admirada com a aula de hoje.
— Foi um bom dia de curso. — Contei.
Giovani, Riccardo e Lorenzo estavam sentados em uma mesa repleta de papéis. Provavelmente estavam tendo uma pequena reunião, mas pareciam meio atentos a nossa conversa.
— Gosto de vê-la assim, sorrindo. — Senhor Riccardo falou animado.
— Estou me sentindo muito feliz fazendo o curso e trabalhando aqui, senhor. — Afirmei. — Mais uma vez, muito obrigada pela oportunidade.
Retornei para de trás do balcão e passei a polir as taças e organiza-las sobre as bandejas para que todos os garçons pudessem pegar.
— Agora me diz, não tem nenhum cara nesse curso? — Perguntou curioso. — Fala sério, essa sua felicidade não pode ser só por uma aula.
Levantei os olhos para onde os três estavam, e encontrei os olhos de Lorenzo em mim, como se estivesse esperando por uma reposta para a pergunta de meu colega de trabalho. Voltei a encarar as taças em minhas mãos e sorri sem jeito.
— Eu sabia! — Álvaro falou confiante. — Você está caidinha por alguém, estão juntos?
— Estamos no nosso trabalho, não vou ficar falando sobre isso aqui. — Desconversei.
Uma equipe de filmagem estava gravando pelas redondezas e fizeram grandes reservas para essa noite. Pelo menos dez mesas estavam separadas somente para eles. Ou seja, aquele restaurante estava um caos.
Todos falavam com todos, estava uma loucura. Riam alto em suas mesas, fazendo com que todos os clientes que estavam ali ouvissem basicamente todas as conversas deles.
Entradas, pratos principais e sobremesas. Apesar de amar comida, eu não estava mais tão empolgada levando aqueles pratos as mesas.
No final da noite meus calcanhares já doíam, assim como provavelmente de todos os outros garçons, andávamos demais de um lado para o outro.
Encostei a testa no armário onde estavam as minhas coisas e respirei fundo, recuperando o fôlego do dia exaustivo.
— Acho que alguém está cansada. — Ouvi a voz de Giovani e ao olhá-lo ele estava encostado no batente da porta.
— Quando tem curso eu fico mais cansada do que o normal. — Contei. — Mas é um esforço necessário.
— Quer uma carona para ir para casa? — Giovani ofereceu.
Antes mesmo que eu pudesse responder sua pergunta, alguém respondeu por mim.
— Não precisa cara, já havia combinado que levaria ela. — Lorenzo falou ao parar ao seu lado, fazendo-me arquear as sobrancelhas em sinal de surpresa.
Nem concordei, nem discordei, apenas deixei um beijo na bochecha de Giovani e sussurrei um "obrigada", seguindo Lorenzo pelo restaurante até seu carro.
Apesar de basicamente não termos nos falado durante a semana toda, não esperava que fosse me oferecer uma carona, mas aceitar um conforto nunca é demais, afinal, meus pés agradeciam o convite.
— Então quer dizer que encontrou alguém interessante no curso? — Lorenzo perguntou do nada, me fazendo rir internamente.
— Não acho que essa é uma conversa para ter com o meu chefe. — Desconversei.
— Você disse que havia se aproximado de Giovani porque queria fazer amizades aqui, eu também posso ser seu amigo. — Explicou.
— Certo, se você está me perguntando como amigo, não tenho interesse em ninguém do meu curso. — Afirmei, olhando-o deixar um pequeno sorriso escapar.
Dessa vez Lorenzo me perguntou meu endereço, e não demorou muito para que chegássemos, afinal, estávamos de carro agora. Ele parou em frente ao prédio laranja e o olhou com as sobrancelhas arqueadas.
— Não é nada comparado ao prédio em que você mora, eu sei. — Falei rindo.
Lorenzo olhou para mim como se quisesse me dizer com o olhar que não se importava com o que eu estava dando a entender.
— Muito obrigada por me trazer, eu estava realmente cansada hoje. — Agradeci, deixando um beijo em sua bochecha, bem perto da sua boca por sinal, quem sabe propositalmente.
Senti a mão dele tocar minha coxa no instante em que minha mão tocou a maçaneta, encarei ele procurando o motivo pelo qual havia feito isso.
— Você pode ficar ou vir comigo, o que você quer? — Perguntou.
Seus olhos estavam pegando fogo. Era óbvio pela sua fisionomia que estava ardendo de desejo por dentro, assim como eu também estava. Olhei da maçaneta para seus olhos repetidas vezes.
— Até amanhã Lorenzo. — Falei por fim saindo de seu carro.
Embora não fosse essa a minha vontade, sabia que precisava estabelecer limites com ele. Uma hora dizia querer ser meu amigo, na outra me humilhava em sua cama, Lorenzo não fazia ideia do que queria e eu não estava ali para que brincasse comigo.
Eu não estava com tempo para joguinhos, nem sequer vim para Génova pensando em um relacionamento, isso afetaria meu desempenho tanto no curso, quanto no trabalho, não que eu não me dedicasse por estar namorando, mas eu era muito intensa e a não reciprocidade me afetaria com certeza.
Eu ansiava para que o outro se doasse da mesma forma que eu. E eu sabia que Lorenzo não era do tipo para namorar, esse não era o seu interesse, afinal, ele tinha a Caterina, ela o queria como namorado.