"Muitas vezes do inesperado,
nasce o que se espera uma vida inteira."
Agradeci por ela estar acordada ainda, mexendo em seu laptop. Sentei-me ao seu lado e respirei fundo, pronta para jogar milhares de palavras para fora.
— Eu conheço essa respiração funda. — Falou. — O que está acontecendo?
E então eu contei que mamãe e Teresa estavam na cidade por conta de Lorenzo, e que havia arrumado um apartamento muito bom para que morássemos. Lhe avisei sobre ela ir conosco para morarmos todas juntas.
Valerie estava bastante pensativa, quem sabe suas dúvidas seriam se mamãe aceitaria seu relacionamento, e então eu a tranquilizei que não precisava se preocupar com isso.
— Podemos arrumar as coisas nesse sábado e domingo, será sua folga, certo? — Perguntou.
Balancei a cabeça em concordância e ela continuou me olhando com os olhos semicerrados.
— Diga logo o que está a incomodando. — Mandou.
— Acho que estou começando a gostar do Lorenzo. — Contei. — E o pior de tudo ele é meu chefe.
— Na verdade ele é o filho do seu chefe. — Retrucou.
— O senhor Riccardo foi muito claro em dizer que não queria seu filho se relacionando com alguém do trabalho. — Contei. — Que atrapalha no restaurante.
— E o que você vai fazer? — Perguntou curiosa.
— Tentar me afastar. — Respondi. — Não posso nem sonhar em perder esse emprego, principalmente agora que mamãe e Teresa estão aqui e temos aquele apartamento para pagar.
A minha ideia era me afastar. Optar por me distanciar no início de um possível relacionamento, facilitava as coisas para ambos os lados. Isso permitiria que não déssemos continuidade em possíveis sentimentos que estavam surgindo.
Sabia que seria difícil por trabalharmos juntos e por agora morarmos no mesmo prédio, dificultaria um pouco nosso afastamento.
A minha sorte era que agora havia minha família estava ali para me manter ocupada e tinha a mudança.
Uma semana morando no novo apartamento e sentia a minha vida voltando aos eixos. Ter mamãe e Teresa por perto dava um novo significado a tudo, como se as coisas começassem a se resolver. Manter elas próximas a mim, deixava-me mais tranquila para viver a minha vida.
Mamãe estava atrás de uma escola para matricular Teresa, havia de ser algo próximo onde morávamos, de preferência para que ela pudesse ir a pé e manter-se os custos menores possíveis.
Valerie havia feito uma lista de escolas na região que eram de qualidade e gratuitas, mamãe começaria suas pesquisas por ali. A partir do momento que ela encontrasse a escola, passaria a procurar um emprego.
Estava estudando o caderno de receitas que Lorenzo havia passado para mim, na próxima semana teríamos dois novos pratos no cardápio.
Foi difícil me manter distante durante essa semana, onde ele fazia questão de me dar uma carona para ir ao trabalho e para voltar até nosso apartamento.
Lorenzo estava reparando em toda a distância que estava colocando entre nós. Estava evitando trocar olhares com ele, mesmo quando a minha vontade era me manter por perto.
Encontrava-me cansada de mais um dia de trabalho, aproximei-me do balcão, encarando Álvaro terminando de lavar os copos, enquanto isso Lorenzo terminava de fazer alguma coisa em seu escritório e logo iríamos.
— Por que está tão desanimada? — Álvaro perguntou.
— Isso se chama cansaço. — Respondi.
— Lorenzo te deixa tão cansada assim? — Perguntou com um olhar traiçoeiro, como se quisesse deixar algo com suas palavras.
— Você sabe muito bem que não temos nada. — Afirmei.
— Mas gostaria! — Afirmou rindo, em seguida desviando seu olhar para algo atrás de mim.
Olhei com o canto dos olhos e percebi meu chefe caminhando atrás de mim, isso quer dizer que havia chegado a nossa hora de ir embora.
— Até amanhã linguarudo. — Falei ao me despedir.
Álvaro jogou um beijo no ar e eu saí atrás de Lorenzo até seu carro.
Encostei a cabeça na janela e encarei as pequenas gotículas de chuva que começavam a cair do lado de fora.
Senti sua mão tocar a minha coxa, o que me fez mudar a direção dos meus olhos para a sua mão. Sentia falta do seu toque, isso eu não poderia negar. Suspirei e voltei a olhar para a janela.
— Por que sinto que temos um problema? — Perguntou me despertando dos meus devaneios.
— Do que está falando? — Perguntei me fazendo de desentendida.
— Você está tão estranha essa semana. — Comentou. — Tão ausente.
Engoli a vontade de chorar. Para uma pessoa como Lorenzo sabia que era difícil demonstrar sentimentos, não queria tornar as coisas mais difíceis ainda.
Se eu havia entendido bem nossa última conversa, ele estava nutrindo sentimentos por mim, assim como eu sentia por ele.
— Deve ser a correria da mudança. — Menti. — Tanta coisa para organizar.
Estávamos subindo pelo elevador em silêncio. Parte de mim só desejava um banho quente e a minha cama.
— Vem comigo? — Pediu tocando a minha mão.
A porta do elevador estava aberta e ele estava ali entre sair para o andar onde morava e me esperar.
Nossas mãos estavam entrelaçadas e eu só conseguia pensar na loucura que seria ir com ele, quando na verdade eu estava tentando me manter distante.
— A minha mãe deve estar me esperando, está tarde. — Falei soltando nossas mãos.
— Vamos lá Giullia, você é bem grandinha. — Falou sorrindo. — Se não quer vir, é só falar que não está afim.
E mais uma vez, optando pela escolha mais estúpida que me faria acordar arrependida amanhã, fui com ele.
Enquanto Lorenzo se preocupava em responder alguns e-mails de fornecedores e realizar alguns últimos pedidos para as próximas semanas, eu preparava um banho quente em sua banheira.
Ele havia me liberado usá-la essa noite, para combater meu cansaço excessivo.
Estava com a cabeça encostada na banheira, com meus olhos fechados, aproveitando da água quente em meu corpo. Eu merecia muito esse banho, meu corpo estava tenso.
Ouvi um barulho e antes de abrir os olhos, senti a minha mão ser tocada e assim que minhas pálpebras se abriram dei de cara com Lorenzo sentado no chão.
Seus olhos estavam em mim como de costume. Havia um sorriso em seu rosto, como se estivesse me apreciando.
— Venha relaxar todas as noites se quiser. — Avisou.
— Não quero ficar m*l acostumada. — Afirmei rindo.
— Será sempre um prazer tê-la nua em minha banheira. — Falou rindo.
Me perguntava qual fora a última vez de ter encarado seus olhos, eles eram tão lindos que era muito triste ficar evitando-os. Ele tinha o dom de me hipnotizar com seu olhar.