06 // Curiosidade

1296 Palavras
"Muitas vezes do inesperado, nasce o que se espera uma vida inteira." O apartamento de Valerie estava precisando de uma faxina, então, aproveitei que ela não estava em casa e coloquei tudo que estava no chão para cima e limpei todo o chão. Decidi sair para almoçar fora, em um restaurante bastante simples que havia no fim da nossa rua, afinal, após fazer tanto trabalho braçal no apartamento, agora era necessário descansar um pouco. Apesar de amar cozinhar, não me restava forças para ir para de trás do fogão. Pedi um bom e generoso prato de massa e um copo de suco, escolhi uma mesa que ficava na calçada para aproveitar o lindo dia ensolarado que estava fazendo em Gênova. Estava atraída pelos carros que passava, quando não reparei Giovani se aproximar. — Posso acompanhá-la no almoço? — Perguntou ao puxar a cadeira para sentar-se. — É claro senhor, fique à vontade. — Pedi. Mesmo que ele tivesse a minha idade ou fosse só um pouco mais velho, sentia a obrigação de chamá-lo de senhor, era uma questão de respeito, afinal, ele era meio que meu chefe. — Fiquei sabendo que assumiu meu lugar ontem à noite, grazie! — Agradeceu. Giovani pediu o mesmo prato que o meu, e passou a contar um pouco sobre sua mãe estar com câncer. Era um câncer de mama, no seio esquerdo. Infelizmente o câncer não estava no início quando descobriram, e então desde que passara a fazer as sessões de quimioterapia ela passa muito m*l após todas elas. Contou um pouco mais sobre como seu tio tem o ajudado, meio que o adotado como filho, e dado essa oportunidade no restaurante onde estava há cinco anos. — E qual a sua história? — Perguntou curioso. E então foi a minha vez de contar a triste história de papai ter morrido e nos deixado. E então sobre meu sonho, e ter deixado minha irmã e mãe em Potenza para vir atrás dele. — Infelizmente chega uma hora que as pessoas precisam morrer. — Falou. — Eu amo muito minha mãe, e a vejo sofrer todos os dias, mas sei que chegará um dia em que irão me ligar e eu não estarei preparado para me despedir. Estava terminando de trazer todos os vinhos que Álvaro havia me pedido que buscasse na adega, quando deparei-me com Lorenzo saindo do banheiro que os funcionários costumavam usar. Nunca o havia visto usá-lo, mas sabia que havia um motivo para ter ido até lá: o chuveiro. Era o único banheiro do restaurante que contava com um chuveiro, o que era ótimo. Muitos dos funcionários vinham de bicicleta; alguns da universidade e assim podiam tomar uma ducha antes de iniciar o trabalho. Lorenzo estava com as madeixas molhadas, era possível ver algumas gotículas de água caindo em seu avental de chef. Larguei as últimas garrafas no balcão, fazendo com que Álvaro as colocasse na mini adega que ficava atrás do balcão, para facilitar o trabalho dos garçons de servir às mesas. — Bem que eles poderiam me chamar para a cozinha novamente. — Afirmei ao adentrar o bar. — Vai tirando o cavalinho da chuva. — Álvaro falou rindo. Em alguns momentos não sabia descrever a minha relação com Álvaro. Em alguns momentos sentia que ele gostava de mim, outras vezes seu sarcasmos e suas piadas me deixavam confusa. Mas ainda preferia acreditar que parte dele gostava de mim. Com o fato de uma forte chuva ter atingido Gênova, algumas reservas foram desmarcadas em cima da hora. Por conta disso, o salão não ficou cheio como nas outras noites, apesar de eu considerar um bom movimento, perto do restaurante que papai trabalhava em Potenza. Ah papai, quanta falta você faz. Catarine saiu rebolando sua b***a que nem era perceptível por conta da roupa que estava usando, afinal, o avental a cobria da cintura para baixo. Caminhou até uma mesa próxima ao balcão e lá ficou por alguns minutos. Havia um casal que possivelmente poderia ter a idade do senhor Riccardo, e um homem que poderia ter a idade de Lorenzo. Ela estava se divertindo muito naquela mesa. Vez e outra trocava olhares intensos e nada discretos com o rapaz, fazendo tanto eu, quanto Álvaro estranhar todo aquele assanhamento. Caterina falou algo em seu ouvido e saiu rebolando novamente para a cozinha. — Essa não perde por esperar. — Álvaro falou entre os dentes. — Megera assanhada. Ri do seu comentário, porém preferi me manter calada. Descobri mais cedo que ficar quieta era a minha melhor escolha. Assim evitaria muitas surpresas indesejadas. Retirei os últimos pratos da mesa e os levei para a cozinha, colocando sobre a pia onde três mulheres estavam empenhadas em lavar. — Vocês precisam de ajuda? — Ofereci. Elas olharam em volta, como se procurassem por alguém, e assim que constataram que não havia mais ninguém ali, balançaram a cabeça positivamente. A medida que elas lavavam os pratos, eu os secava e os colocava direto no carrinho que iria para o canto da cozinha de modo que não atrapalharia o andamento da preparação da janta do dia seguinte. Estava andando quando ouvi um barulho no chão e ao olhar deparei-me com uma corrente de ouro. Me parecia masculina pelos desenhos e grossura. Havia um pequeno pingente oval, e assim que abri vi uma foto pequena de uma mulher. Tentei analisar na tentativa de lembrar alguém, mas não se tratava de ninguém que trabalhava ali. Guardei o colar no bolso e me retirei da cozinha. Assim que recolhi minha bolsa no armário, ouvi um barulho e vi novamente Lorenzo sair do banheiro dos funcionários. Ele estava com uma calça de moletom clara e uma camisa branca que marcava muito bem seu corpo definido. Deus, retira esses pensamentos insanos de mim. Assim que o vi colocar a mão no pescoço, como se procurasse algo, lembrei do colar que havia recolhido no chão. Aproximei-me com cuidado quando o vi retornar para o banheiro. Abri a porta e adentrei o banheiro, antes disso dei dois toques, que não parecem ter feito efeito, porque não pude ouvir nenhuma permissão do outro lado. Lorenzo estava agachado como se olhasse em todo o chão. — Senhor? — O chamei, fazendo com que ele se assustasse e levantasse a cabeça rapidamente, batendo na pia do banheiro. Aproximei-me com pressa e o ajudei a levantar. — Aí minha cabeça. — Reclamou passando a mão sobre ela. — Senhor, eu não quis assusta-lo. — Afirmei. — Vim entregar isso ao senhor, achei no chão da cozinha. Retirei do bolso de trás o colar e despejei em sua mão. Ele segurou o colar como se estivesse protegendo a sua vida, e o levou até a sua boca. — Muito obrigado por isso. — Agradeceu. — Senhor, deixe-me ver sua cabeça, por favor. — Pedi, aproximando-me dele, fazendo com que o mesmo se abaixasse um pouco, uma vez que era mais alto que eu. Toquei sua cabeça com a ponta dos dedos e o escutei suspirar, ao olhar para meus dedos havia um pouco de sangue ali. — Acho que você precisa de um curativo. — Falei preocupada. — É um corte pequeno, não será necessário. — Explicou. — Se o senhor viesse até o apartamento da minha prima, eu tenho um kit de primeiros socorros. — Afirmei lembrando-me do kit que mamãe havia me ensinado a fazer. Lorenzo soltou um sorriso muito bonito, de lado. Encarou meus olhos e o colar em sua mão novamente. Antes que ele me desse uma resposta, Caterina surgiu nos olhando como se fosse impossível estarmos juntos naquele banheiro. Algumas expressões/palavras/frases utilizadas na história e seus significados: Per favore= Por favor Aspettare= Espere Grazie= Obrigado Buonasera= Boa noite Ma dai!= Não acredito Mi dispiace= sinto muito Ragazza= menina
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