"Muitas vezes do inesperado,
nasce o que se espera uma vida inteira."
Fazia tempo que não corria tanto de um lado para o outro, após tomar um banho quente, desabei na cama como se tivesse o dobro do peso, sentia meu corpo pesado.
— Como foi seu primeiro dia de trabalho? — Valerie perguntou em pé no batente da porta.
— Exaustivo. — Respondi cansada. — Eu acho que criei uma inimizade com a sub chef, e além do mais, estou no cargo de garçonete.
— Não está podendo escolher muito agora. — Opinou. — Mas logo terá sua chance de trabalhar na cozinha.
Balancei a cabeça positivamente e a agradeci por me receber em sua casa. Ela fez a gentileza de apagar a luz antes de se retirar do quarto para que eu dormisse.
Havia chegado mais cedo do que o habitual no restaurante, isso porque queria me redimir com Caterina pela noite de ontem. Por conta disso, mesmo não indo muito com a cara dela, havia passado em uma loja para comprar um vinho em um pedido de desculpa.
Não tinha muito dinheiro para comprar um vinho muito refinado, como provavelmente ela poderia estar acostumada pelo local onde trabalhava. Porém, esperava que a minha tentativa de pedir desculpas, fosse o suficiente para aceitar o vinho de bom grado.
Sabia que ela ainda não havia chegado, porque segundo Álvaro, ela costuma chegar perto do horário do restaurante abrir, e faltavam pelo menos meia hora.
— Por que chegou tão cedo ragazza? — O senhor Riccardo perguntou ao sair de seu escritório, eu nem ao menos achei que ele já estivesse ali.
— Tentando me adaptar melhor com os afazeres. — Respondi.
— Soube do problema que aconteceu ontem à noite. — Contou ao sentar-se em uma banqueta em frente ao balcão. — Você acreditaria se eu dissesse que há quarenta anos atrás estava no meu primeiro dia de trabalho e que quebrei cinco pratos e três taças?
Rimos com sua breve história sobre o seu primeiro dia de trabalho que com certeza foi muito pior que o meu. Afinal, senhor Riccardo derrubou uma travessa inteira em dois clientes importantes onde também trabalhava como garçom.
— Sempre ensinei meu filho e meu sobrinho que independente de onde estejamos, devemos levar a humildade conosco. — Contou. — Ambos foram garçons assim como eu, antes de irem para a cozinha.
— O senhor é muito correto, gosto disso. — Afirmei.
— Boa sorte para hoje. — Saudou antes de sair.
Lorenzo e Caterina entraram juntos dando risadas. Essa era a minha oportunidade de fazer as pazes. Peguei a pequena embalagem que o moço da loja fez a meu pedido, e caminhei em sua direção, ficando na frente de ambos.
— Senhorita Caterina, gostaria de pedir desculpas pela noite de ontem, trouxe isso para você. — Falei ao esticar o braço em sua direção.
Caterina relutou um pouco antes de pegar a embalagem de presente e abri-la ali mesmo. Analisou o rótulo do vinho e seu desgosto foi perceptível ao olhar para sua cara. Ela deu uma risada debochada e colocou o vinho sobre o balcão.
— Você poderia ter sido um pouco menos mão de vaca. — Debochou ao pisar duro andando para a cozinha.
Senti meu chão desabar, com certeza estava vermelha, Lorenzo não havia ido a cozinha como o esperado, estava parado me analisando. Essa noite ele não poderia me ver chorar, precisei olhar para o teto e respirar algumas vezes para não permitir que nenhuma lágrimas caísse.
— Boa noite senhor Lorenzo. — Saudei indo para trás do balcão.
Assim que coloquei a mão na garrafa, outra mão a segurou também, fazendo com que meus olhos fossem atraídos pelos olhos de Lorenzo.
— É um dos meus vinhos preferidos. — Afirmou. — Era um dos que eu podia comprar quando comecei a trabalhar, ao contrário do que todos pensam, meu pai não pagava meus luxos.
— O senhor pode ficar com ela, se quiser. — Afirmei dando de ombros e soltando-a.
— A guardarei no escritório e abriremos para comemorar algo. — Afirmou, retirando-se com ela.
Por que ele estava sendo tão bom comigo? A sua fama aqui dentro não era muito boa, ele não tratava ninguém m*l, mas não era amigável; não criava laços com ninguém, a não ser com Caterina.
Álvaro se aproximou de mim, mais do que o esperado, perto o bastante do meu ouvido, fazendo um calafrio percorrer meu corpo.
— Vão comemorar algo? Uau. Chamou a atenção do chefinho. — Falou com a voz provocativa.
— Ele deve ter ficado com pena de mim. — Afirmei. — Até o seu coração de pedra se amoleceu com o tratamento da Caterina.
A cara de Álvaro era como se estivesse vendo uma assombração, de repente ele havia ficado pálido. Seu olhar era destinado a algo ou melhor, alguém atrás de mim. Virei-me lentamente e encarei Lorenzo me olhando com as sobrancelhas arqueadas, havia escutando quando falei sobre seu coração de pedra.
— Mais trabalho e menos conversa. — Afirmou alto e em bom tom, indo para a cozinha logo em seguida.
Merda. m***a. m***a. Eu havia pisado na bola de novo, o que ele pensaria de mim? Que fico falando sobre os meus chefes em horário de trabalho?
Dessa vez, por mais lotado que estivesse o restaurante, as coisas estavam mais calmas.
Giovani saiu correndo de repente da cozinha, atravessando o salão às pressas e indo embora. Ninguém sabia o que estava acontecendo, mas logo Caterina saiu de lá de dentro e apontou para mim.
— Você, vem rápido. — Avisou.
Evitei correr seguindo os conselhos de Lorenzo, mas caminhei a passos rápidos. Assim que adentrei a cozinha, olhei do lado esquerdo onde acreditava ser a parte de Giovani, um caos.
— O que precisam que eu faça? — Perguntei sem querer detalhes do que havia acontecido, por mais que estivesse curiosa.
— Tem experiência em fazer sobremesas? — Lorenzo perguntou sem nem ao menos me olhar, seus olhos estavam focados na panela que estava no fogão a sua frente.
— Sim. — Afirmei.
Ele simplesmente apontou para a bancada de Giovani, onde algumas pessoas trabalhavam montando os pratos de sobremesas que já estavam prontas.
Eu não poderia dizer que produzir as sobremesas era a minha especialidade, porém, papai me ensinou tanto a parte de doces quanto salgados. Papai não fazia sobremesas no restaurante em que trabalhava, mas aprendeu a preparar um pouco de tudo.
Dei uma rápida lida nas receitas que estavam pregadas no armário, nada muito difícil, nada que me levaria muito tempo.
Pelo que havia visto na listagem de pedidos que já haviam sido preparados e nos que ainda estavam para ser feitos, a sobremesa mais pedida era ZABAGLIONE.
Aos poucos as pessoas foram indo embora, e louça começara a ser lavada. Passei a limpar e organizar toda a bancada onde até então eu estava trabalhando.
— Você não precisa fazer isso. — Lorenzo falou ao se aproximar. — Temos pessoas para essas tarefas.
— Só estou tentando adiantar o trabalho. — Respondi.
— Você trabalhou muito bem hoje. — Afirmou. — Giovani teve um problema com sua mãe que está doente e precisou correr para socorrê-la.
— Será que está tudo bem? — Perguntei preocupada. Só de pensar em mamãe longe e podendo passar qualquer desconforto que fosse, meu coração já doía.
— Ele mandou uma mensagem há poucos minutos informando que está tudo bem. — Respondeu.
Estava um pouco mais cansada do que o normal, mas de certa forma estava-me sentindo mais animada por ter trabalhado na cozinha no meu segundo dia de trabalho.
Seria uma noite de sono bem mais tranquila, mesmo não conseguido ter feito as pazes com Caterina, que ficou me olhando atravessado o restante da noite inteira na cozinha.
O meu primeiro dia de trabalho dentro da cozinha havia sido um sucesso, sem nenhum problema.
Algumas expressões/palavras/frases utilizadas na história e seus significados:
Per favore= Por favor
Aspettare= Espere
Grazie= Obrigado
Buonasera= Boa noite
Ma dai!= Não acredito
Mi dispiace= sinto muito
Ragazza= menina