"Muitas vezes do inesperado,
nasce o que se espera uma vida inteira."
Havia três momentos do dia em que eu e Valerie nos encontrávamos em dia de trabalho normal. Durante o café da manhã onde ela saía de casa para trabalhar; o momento em que eu terminava de me arrumar para ir ao trabalho e quando eu retornava dele caso ela ainda estivesse acordada. Aos sábados e domingo isso não acontecia porque ela não trabalhava, então nos víamos desde o horário em que acordávamos até o horário que eu saía para trabalhar.
Chegar em seu apartamento e não ter sua presença era um tanto r**m, porque esse era o momento que eu tinha para conversar e desabafar. Era necessário conversar para entender tudo que estava sentindo sobre tudo que estava acontecendo, não era fácil lidar com os meus problemas, imagina com os problemas dos outros.
Como Teresa estudava no horário da tarde, aproveitei o período matutino para fazer uma ligação para casa. Infelizmente não poderia ser chamada de vídeo porque mamãe estava com o único celular que possuía a tecnologia, e neste momento estava trabalhando. Uma senhora conhecida de mamãe ficaria em nossa casa até que Teresa fosse para a escola, para que ela não ficasse sozinha.
"Quer almoçar comigo?" Giovani
Eu praticamente havia acabado de chegar em casa e nem havia dado tempo suficiente para relaxar o corpo e já estava sendo convidada para almoçar fora.
"Estou um pouco cansada, podemos deixar para outro dia?" Giullia
"É que estava passando pela sua rua e estou aqui em baixo." Giovani
Caminhei até a grande janela do apartamento e procurei por seu carro pela rua, e lá estava ele. Estacionado do outro lado da rua, pela distância em que estávamos não era possível ver seu rosto.
"Aguarde dez minutos para que eu possa trocar de roupa e me arrumar." Giullia
Embora não estivesse com muita vontade de sair, estava fazendo uma nova amizade. Para isso, era necessário momentos juntos; momentos de compartilhamento; de troca; então mesmo cansada, decidi aceitar seu convite para almoçarmos fora.
Quando cheguei em seu carro, havia passado três minutos do tempo que havia estipulado para ficar pronta. Giovani batucava uma música que tocava na rádio em seu volante.
— Como você está? — Perguntou ao me cumprimentar com um beijo na bochecha.
— Estou bem, grazie. — Respondi.
— Como Lorenzo ficou? — Perguntou preocupado. — Ele parecia bem m*l ontem.
— Conversei bastante com ele, conseguiu se acalmar. — Expliquei.
Ele sorriu com a minha resposta e ligou seu carro. Tentaria evitar entrar em detalhes com ele sobre a vida de seu primo, ele não gostava muito que falassem sobre sua vida particular e isso poderia afetar a minha aproximação com ele. Também evitaria falar que havia dormido em sua casa naquela noite, não queria que começassem a especular inverdades.
Giovani nos levou até um restaurante no centro da cidade. Ele parecia bastante caseiro, mas ao mesmo tempo refinado. As pessoas estavam bem vestidas, perto do vestido de flores que eu estava usando.
Ele puxou uma cadeira para que eu me sentasse e assim fiz.
— Como sua mãe está? — Perguntei preocupada.
— Na mesma para ser sincero. — Respondeu. — Não sei ao certo quando tempo ainda passaremos por isso.
— Aproveite cada segundo. — Aconselhei.
— Às vezes ela me pede para ficar sozinha, só quer a presença da enfermeira que meu tio contratou para cuidar dela. — Contou. — É como se não quisesse que eu a veja nesse estado.
Eu não poderia dar um conselho sobre um assunto tão delicado que nunca havia vivido antes. Essa era uma questão mais particular de sua mãe, e eu não a conhecia o suficiente para dizer o que possivelmente ela poderia estar sentindo ou pensando. A única coisa que eu poderia era estender a minha mão e estar ali ao seu lado quando ele precisasse.
Coloquei a minha mão em cima da dele que estava pousada em cima da mesa, e acariciei a mesma em um gesto de acalento.
— Tudo ficará bem. — Afirmei. — Saiba que pode me ligar a hora que precisar.
Assim que levantei meus olhos, avistei Lorenzo e Caterina sentados a duas mesas ao nosso lado. Eu nem ao menos havia reparado suas presenças quando chegamos ao restaurante. Seus olhos estavam em nossa mesa, mais precisamente na minha mão que estava em cima da do seu primo.
Retirei a minha mão da forma mais natural possível, disfarçando ao pegar o copo de suco que estava a minha frente e bebendo. Terminamos de almoçar rapidamente e optamos em tomar um sorvete no outro lado da rua.
Enquanto eu havia escolhido um sorvete de creme, Giovani havia optado pelo de chocolate. Caminhamos até o final da rua e nos sentamos em um pequeno banco em uma minúscula pracinha que havia ali.
— Garanto que sua mãe e irmã amarão vir para Gênova. — Giovani afirmou.
— Nós temos boa parte da nossa família aqui, apesar de eu ainda não ter visto ninguém. — Contei. — Elas não se sentirão tão só com tanta gente aqui.
— Assim como eu tive a sorte de ter tio Riccardo e Lorenzo em minha vida. — Comentou. — Quando mamãe partir, eu terei alguém.
Vez e outra sentia vontade de perguntar sobre o seu pai, mas como poderia ser um assunto muito delicado e particular, permanecia calada. Se em algum momento ele quisesse compartilhar tal assunto comigo, eu estaria ali para escutar.
— E nesses anos todos em Gênova você não encontrou a sua metade da laranja? — Perguntei rindo, visto que nunca havia ouvido sobre um alguém em sua vida.
— Teve uma pessoa há um tempo atrás. — Respondeu. — Ficamos juntos por uns sete ou oito meses, mas ela foi embora para a França.
Geralmente as pessoas têm motivos para ir embora. Nem sempre elas simplesmente decidem ir e se vão. Imagino que havia algo por trás da sua ida para lá.
— Ela me pediu para ir junto, mas eu tinha a minha mãe e todo o tratamento dela aqui, não poderia simplesmente largar tudo e partir. — Explicou.
Acredito que agiria da mesma forma se fosse eu, se tivesse que escolher entre a minha família e alguém, ainda mais em uma situação tão difícil, onde sua mãe se encontra doente, não poderia escolher partir.