15 // Atraso

1158 Palavras
"Muitas vezes do inesperado, nasce o que se espera uma vida inteira." Entrei correndo no restaurante, estava bons minutos atrasada, talvez cerca de meia hora e me xingando mentalmente por não ter me organizado para o meu primeiro dia de curso que havia sido espetacular. Não esperava que tantas pessoas houvessem se inscrito para o curso de culinária, a maioria delas eram mais velhas do que eu, e em sua maioria homens. Muitos já atuavam na área, e estavam apenas aperfeiçoando seus conhecimentos. Basicamente o primeiro dia foi de apresentações. O chef que dava o curso passou a mostrar todos os utensílios de cozinha e a explicar a utilidade de cada um. Havia muitos deles que eu não tinha em casa, mas que costumava improvisar com os que tinha. Eu havia me empolgado na palestra que uma chef famosa da região deu, e havia me perdido com o horário, porque após a palestra que finalizava a aula todos ficaram conversando e tirando suas dúvidas, então, eu havia me atrasado completamente. Por conta da correria, acabei soando mais do que esperava, fazendo-me necessitar urgente de uma ducha antes de ir trabalhar. Álvaro me olhou com as sobrancelhas arqueadas e me mandou correr. Era uma bela noite para o senhor Riccardo estar trabalhando e ver minha irresponsabilidade. Adentrei o banheiro dos funcionários com pressa, retirando minhas roupas e as deixando pelo chão. Corri de baixo do chuveiro o mais rápido possível e agradeci por ter sabonete líquido disponível, não era uma opção compartilhar um sabonete em barra. Era um banho muito rápido, não poderia me atrasar ainda mais. Enrolei-me na toalha que havia em minha mochila e passei a pentear e prender meu cabelo. Quando menos esperava a porta foi aberta. Merda, entrei tão apurada no banheiro que não lembrei de trancar a porta. Segurei a toalha enrolada em meu corpo assustada. Lorenzo olhou-me de cima a baixo ao entrar, trancando a porta atrás de si e encostando suas costas nela a seguir. Olhou o relógio em seu punho e arqueou as sobrancelhas, olhando novamente para mim. — Está atrasada dona Giullia. — Lembrou. — Senhor, eu peço mil desculpas por isso, mas eu estava no meu curso e teve uma palestra. — Estava gesticulando como tudo aconteceu, e nem ao menos percebi ter soltado a toalha e a mesma foi de encontro ao chão. Lorenzo riu de uma maneira bastante sensual, passando seus olhos pelo meu corpo. Ele mordiscou seu lábio inferior, e passou a mão sobre seu cabelo, o jogando para trás. Ajuntei a toalha rapidamente envergonhada, tampando todo o meu corpo. Dei alguns passos para onde uma parede iria nos separar e passei a vestir meu uniforme rapidamente. — Que vergonha. — Falei enquanto terminava de amarrar o tênis. — Você está bem atrasada. — Falou. — Eu não estou falando disso agora. — Afirmei encarando seu rosto. — Não tem nada o que se envergonhar aí. — Falou rindo referindo-se ao meu corpo. Quando estava entrando na cozinha, onde Lorenzo encontrava-se ao lado de Caterina, não esperava que tivesse voltado a trabalhar ali. Eles notaram a minha presença ali e Caterina riu me olhando debochada. — Dormiu um dia com o chefe e já acha que irá assumir o meu lugar? — Perguntou sarcástica. Não esperava ouvir algo assim, ainda mais porque a cozinha estava cheia de funcionários, meus colegas de trabalho que poderiam passar a entender as coisas de maneira errada. Não queria ninguém pensando que eu estava dormindo com o chefe ou atrás dele para conseguir um lugar importante na cozinha. Esperei que Giovani que assistia toda a cena do seu setor dissesse algo ou então Lorenzo, porque eu nem ao menos sabia sobre quem ela estava falando. Será que estava achando que eu estava dormindo com Giovani por ter nos visto juntos almoçando? Ou Lorenzo havia contado que havíamos passado uma noite juntos? Passei a mão sobre o olho, limpando a lágrima que havia caído e girei meus calcanhares retornando para de trás do balcão. — O que aconteceu com você? — Perguntou Álvaro ao encarar meus olhos, os sentia marejados a ponto de chorar. — Não é nada importante. — Respondi ao limpar a bancada. — O senhor Riccardo esteve aqui perguntando sobre você. — Contou. Merda. m***a. Ele sabia que não estava no meu ambiente de trabalho na hora que deveria. Foi uma noite tranquila, houve pouco movimento perto do esperado. Não havia chuva, realmente poucas pessoas haviam feito reservas. Estava sentindo um pouco de dor de cabeça, minhas pernas estavam trabalhando mais devagar que o esperado. — Querida, você está se sentindo bem? — Nem ao menos havia notado a presença do senhor Riccardo encostado no balcão. — Deve ser o cansaço. — Respondi ao colocar taças em cima do balcão para que Álvaro levasse até uma mesa. — Você está pálida. — Afirmou, colocando sua mão em minha testa na tentativa de checar minha temperatura. — Está febril, sente-se um pouco para descansar. Ele puxou uma cadeira e eu me sentei. Logo um copo com água chegou até mim, a seu pedido, onde Álvaro acatou rapidamente. O que estava afetando minha saúde era o meu emocional. Era lidar com pessoas tão diferentes de mim, enquanto eu era acostumada a distribuir amor e bondade por onde passava, os outros me retribuíam com a maldade, o desinteresse. O senhor Riccardo não me deixou mais voltar ao trabalho, perguntou se eu havia comido algo após o almoço e eu nem ao menos consegui mentir, porque eu era péssima nisso. E quem sabe, ver a preocupação estampada em sua face, fazia com que eu visse um pouco de meu pai nele, como a forma que parecia querer cuidar de mim. Ele adentrou a cozinha e de lá retornou com um prato muito sugestivo de macarrão à bolonhesa, deliciei-me como se aquela fosse a minha última refeição da vida, recebendo olhares dele em mim, como se quisesse se certificar que eu fosse mesmo comer. — O senhor é muito bom comigo. — Elogiei. — Agradeço muito o que tem feito por mim, um dia pretendo conseguir recompensar o senhor. — Tenha a certeza que nada que eu faça por você é pensando em receber algo em troca, querida. — Falou carinhosamente. Limpei uma lágrima que insistiu em cair e senti tapinhas nas minhas costas, como se tentasse me consolar. Ouvi o barulho da porta da cozinha ser aberta e Lorenzo se aproximou de mim, tocando meu ombro. — Vamos? Vou te levar em casa. — Chamou-me. Fiquei em dúvida se aceitava ou não sua carona, mas Riccardo estava com uma cara de pidão, e não pude discordar. Antes de ir peguei todas as minhas coisas no armário e depositei um beijo na bochecha do senhor Riccardo antes de partir. Fechei meus olhos no instante que senti o impacto do meu corpo ao banco do seu carro, que era tão confortável quanto a minha cama.
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