Capítulo 1

802 Palavras
Paola Dias atuais  Desperto assustada, suando, fazia muito tempo que não tinha pesadelos, mas acho que a tensão que estou sentindo nos últimos dias, foi um gatilho para isso. Olho no relógio e ainda são cinco da manhã, minha entrevista está marcada para às nove horas. Ainda tenho bastante tempo, mas como não conseguirei dormir mais, acabo me levantando para fazer um café, assim não preciso gastar dinheiro na rua. A entrevista que farei será para o cargo de Secretária Executiva Júnior, em um conceituado escritório de advocacia, onde a sede fica na Turquia, o país que sonho em conhecer, desde quando comecei a assistir séries turcas aos meus quinze anos. Após largar a faculdade de engenharia da computação, optei por fazer o curso na área de secretariado, talvez porque, em sua grande maioria, as salas eram predominantemente femininas, não confio em homens por perto, minha cota de macho escroto já é muito extensa. O colégio onde estudei era de alto padrão, então inglês e espanhol, eram matérias obrigatórias, e hoje com a internet, converso com pessoas do mundo todo, treinando os idiomas, assim me conservo fluente. Já trabalhei em empresas de pequeno porte, mas essa vaga pode mudar tudo para nós, meu pai precisa se aposentar. O senhor Agenor sempre foi muito guerreiro, mas já está com a idade avançada, para isso, teremos que nos mudar, porque se não for mais o zelador, não poderemos morar na casa que é propriedade do colégio. — Bom dia, Paola! — Minha irmã Cecilia entra na cozinha, com certeza para pegar a mamadeira do meu lindo sobrinho Gael de dois aninhos. Sim, ela é mãe solo e tem apenas vinte anos. — Bom dia, Ceci! — Acordou cedo. Sua entrevista não é mais tarde? — É, sim, nove horas. Mas estou muito ansiosa e não consegui dormir direito. — Não esquenta Paola. Tenho certeza que dará tudo certo! — Espero que sim, Ceci. Vamos torcer para isso. E o Gael já acordou? — Está resmungando, vim pegar a mamadeira dele. Assim já enche a barriguinha e dorme até mais tarde — ficamos em um silêncio confortável, enquanto ela faz a mamadeira. — Boa sorte Pa! — Obrigada, Ceci — agradeço, ela vem, me dá um beijo e volta para o quarto. Tomando meu café, repasso tudo que possa ser perguntado na entrevista, sei que não tenho experiência em grandes empresas, mas tenho qualificações. Darei o meu melhor. Coloco a saia-lápis cinza e a camisa branca, que comprei em três vezes sem juros, exclusivamente para essa entrevista, faço um coque alto, com alguns fios propositalmente soltos, brincos imitando pérolas e um scarpin nude, estou me sentindo muito executiva, autoestima é tudo. Saio de casa duas horas mais cedo, assim tenho certeza que não chegarei atrasada, a pior coisa a se fazer em uma entrevista de emprego é chegar cansada, suada e em cima da hora. Ou pior, atrasada, quero chegar tranquilamente. Vou de metrô até a zona sul da cidade, onde fica a sede da empresa no Brasil. Que bom que saí com tempo de folga, porque hoje o transporte está muito lento. Demoro mais de uma hora para realizar o trajeto que em dias normais seria realizado em quarenta minutos. Avisto o prédio que está do outro lado da avenida, é lindo, imponente, todo espelhado, demonstrando o quanto é luxuoso. Tem alguns bancos próximo a uma praça, decido sentar lá um pouco, afinal ainda faltam trinta e cinco minutos, aguardarei até faltar quinze, não quero chegar em cima da hora, mas também não quero chegar muito cedo. Fico sentada observando as pessoas passando, todas muito apressadas. Fico inventando histórias para elas na minha cabeça, sou mais de observar, do que me envolver, não faço amizade fácil, tenho tendência a desconfiar da maioria das pessoas. Faltando quinze minutos para a entrevista, me dirijo até o prédio, levanto minha cabeça, nessas horas temos que demonstrar confiança, mesmo que por dentro eu esteja querendo sair correndo dali. Falo com a recepcionista, pego um crachá de visitante e me dirijo até o elevador. Quando as portas estão se fechando, uma mão grande se enfia no vão e as portas voltam a se abrir, fico contrariada, mas, falo um bom dia, o homem, só resmunga em resposta. Que grosso! Se eu soubesse, nem me daria ao trabalho de gastar minha saliva cumprimentando esse ser m*l-educado. Parece que está tudo bem e que logo as portas se abrirão no andar da minha entrevista. Continuo repassando tudo que possa ser perguntado em minha mente, estou bem nervosa, preciso que tudo dê certo nesta entrevista. Só que como tudo na minha vida parece uma piada, com um solavanco o elevador para e as luzes se apagam. Isso não pode estar acontecendo comigo, só pode ser uma piada de mau gosto do universo.
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