CAPÍTULO — O TREINO QUE TRINCOU O PRÍNCIPE

1185 Palavras
O amanhecer em Astreon nunca vinha ao som de pássaros, nem com poesia. Vinha com sirenes, vapor quente nos becos e o som das máquinas despertando. Mas naquela manhã, antes mesmo do sol tocar os telhados de ferro, alguém já estava acordada E treinando. Kaela acordava cedo, em sua casa os fracos não sobreviviam. Então ela se forçava para ser forte, mesmo sendo uma mulher. O pátio inferior oficialmente proibido para campeões antes da primeira prova. estava vazio e silencioso. ela havia encontrado uma brecha no muro do setor, e como boa predadora, aproveitou. Ali, entre sombras e ferrugem, ela se movia. Ela não treinava como os outros lutadores do reino, não com golpes grandes e movimentos pesados. Ela treinava como um animal selvagem. Rápida. Baixa. Precisa. Furiosa. O corpo dela girava, mergulhava, avançava com violência perfeita. As lâminas curtas dançavam em sua mão como se fossem extensões dos dedos. E cada vez que ela exalava forte, o ar parecia estremecer em rendição O príncipe havia acordado antes do horário coisa que ele nunca fazia. com a mente cheia da imagem daquele par de olhos felinos. Ele precisava esclarecê-la. Ou confrontá-la. Ou… talvez só vê-la de novo. Ele caminhou pelos corredores silenciosos, descendo até níveis onde nobres não pisavam. Escutou algum cintilar familiar, de espada E então em uma brecha no muro a viu. Kaela estava de costas, o capuz jogado no chão. O cabelo preso em trança de cima até o fim de suas costas, A pele brilhando com suor. Os músculos definidos tensionando a cada golpe. Aiden ficou parado. Sem conseguir respirar. Ela era… Meu Deus, muito linda… ela era uma tempestade feita de carne. Uma mulher esculpida pela sobrevivência e pela raiva. Linda de um jeito brutal. E quando ela avançou com um salto perfeito, caindo de joelhos e girando as lâminas num movimento que nenhum guerreiro nobre conseguiria copiar, ele murmurou sem perceber: — Por todos os deuses… Kaela ouviu. E em um piscar de olhos, virou o corpo totalmente e arremessou uma das lâminas. A lâmina passou a um centímetro do rosto do príncipe… e cravou na parede, vibrando. Aiden nem piscou. Kaela caminhou até a parece de ele estava, ela com passos lentos, como uma fera avaliando intruso no território. — Espionando? — ela perguntou, a voz baixa, rouca de esforço. Aiden sorriu.. com aquele sorriso dele… pesado, quente, perigoso. — Não consegui evitar — ele disse. — Você luta como ninguém que eu já vi. Kaela ergueu o queixo, felina. — E você sempre entra onde não deve? — Só quando algo… — ele a olhou dos pés à cabeça — me interessa. Ela estreitou os olhos. Uma ameaça. Um aviso. Uma promessa. — Cuidado, príncipe. Kaela passou por ele, roçando de leve o ombro no dele. — Curiosidade demais matou o gato. Aiden virou o rosto para segui-la com o olhar. E sorriu de novo, encantado, possuído, completamente fisgado. Kaela voará o canto da arena, limpando o suor da testa com uma toalha que estava em cima de uma mesa de madeira. Aiden ainda encostado na parede, completamente vidrado, tentando entender como aquela mulher podia ser tão perigosa e tão linda ao mesmo tempo. Mas antes que ele pudesse abrir a boca para provocar de novo… Um som metálico ecoou. CLANK. CLANK. CLANK. A porta de ferro se abriu, e da sombras saiu Lyria, a campeã da Casa II. A armadura dela refletia o pouco de luz do amanhecer, e o visor estreito focou direto em Kaela. Atrás dela, vieram: Ragnor, o Colosso, Nadia, a Serpente Dourada, Korven, o mercenário, Dois generais E… Aiden cruzou os braços, ficando do lado, só pra assistir Todos atraídos pelo rumor: A campeã encapuzada do Distrito Baixo estava treinando onde não devia. Lyria caminhou até Kaela, cada passo dela ecoando como uma ameaça formal. — Treinar antes da prova é proibido, plebeia — disse a voz abafada atrás da máscara. Kaela não se moveu. Nem um músculo. — Se quiser me impedir… venha tentar. O pátio inteiro ficou mudo. Aiden sorriu. Korven assobiou, achando deliciosa a provocação. Nadia inclinou o rosto, interessada. E Ragnor riu alto. — Mata ela, Lyria — provocou — mostra que o trono não é lugar de vadias sem linhagem. Kaela virou o rosto lentamente para ele. E aquele olhar dela… era puro veneno. Ragnor empalideceu mordendo o canto interno de sua bochecha. O DESAFIO Lyria ergueu a espada. — Você está desobedecendo às regras. — E quem vai me fazer segui-las, você ? — Kaela respondeu. A campeã da Casa II avançou com a espada na direção de Kaela, rápida, precisa, perfeita, como uma máquina de guerra. Kaela girou o corpo para o lado, desviando por milímetros, o cabelo voando. Nadia murmurou: — Isso vai ser bom… Aiden não piscava. Lyria atacou de novo. E de novo. E de novo. Movimentos calculados. Treinados. Matemáticos. Kaela defendia com as lâminas curtas, sem o menor esforço aparente, como se estivesse dançando na borda de uma espada. — Você é lenta — Kaela resmungou. Lyria rosnou. A campeã blindada então investiu com força total, tentando esmagar Kaela contra a parede. Kaela saltou, girou no ar e caiu por trás dela, deslizando a lâmina pelo recorte da armadura, perto do pescoço. Um fio de sangue quente escorreu. O pátio reagiu: Korven: — c*****o… Nadia: — Elegante. Aiden (sem esconder o fascínio): — Incrível… Mas Lyria não aceitou. Ela rugiu e avançou outra vez, agora usando golpes mais pesados, caóticos, tentando quebrar Kaela no braço. Kaela sorriu. Ela adorava quando o inimigo perdia a paciência. A LUTA EXPLODE O som das armas ecoou pelo pátio. Lyria desferiu um golpe que rachou o chão. Kaela girou por baixo da lâmina, chutou o joelho de Lyria, fez a campeã vacilar. Ragnor recuou um passo. Nadia abriu um sorriso torto. Korven mordeu o lábio, e******o com a violência. E Aiden… Aiden se inclinou pra frente, completamente consumido. Kaela correu, usou a parede como impulso e atacou por cima — Lyria ergueu o braço e bloqueou. As duas travaram as lâminas no ar, os rostos quase encostados. Lyria sibilou: — Você não merece estar aqui. Kaela respondeu: — Eu não mereço… A lâmina dela pressionou mais, o olhar cravou. — Eu conquisto. Com um torque perfeito, Kaela fez Lyria perder o equilíbrio e cair de joelhos. A campeã da Casa II tentou se levantar — Kaela colocou o pé no peito dela e a empurrou para trás, derrubando-a no chão frio. Silêncio. SILÊNCIO TOTAL. Kaela apontou a lâmina para o visor da armadura. — A próxima vez que vier me ameaçar… eu arranco essa máscara com sua cabeça dentro. Lyria respirou pesado, derrotada… mas viva. Kaela deu dois passos para trás, virando as costas — algo que guerreiro nenhum ousava fazer. Foi aí que Aiden exalou fundo, como se estivesse segurando a respiração o tempo todo. — Isso foi… — ele passou a mão nos cabelos, chocando até a si mesmo — absolutamente magnífico. Kaela limpou a lâmina, sem olhar pra ele. — Se veio assistir… assistiu o suficiente. Aiden ainda chocado, engoliu a seco.
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