Capítulo 15

1562 Palavras
*Elisa* Quando chegou na casa de Jamaica na quarta-feira, Elisa soube que algo não estava bem. E nem foi porque a cozinha, ao contrário do habitual, estava bagunçada, com a pia cheia de louça suja e três panelas diferentes com restos de leite sobre o fogão. Era pela expressão no rosto dele. Se o esgotamento tivesse uma cara, seria a que Jamaica expressava naquela manhã. — Tá tudo bem? — perguntou devagar, deixando o celular sobre o sofá e se aproximando dele, que vagava pela cozinha como um zumbi. Ele esfregou o rosto com as mãos, alisou os dreads para trás e suspirou como se ponderasse se era melhor dizer a verdade ou optar pelo genérico “tudo bem” e evitar uma explicação maior. — Acho que a Bea tá doente — murmurou, desviando um olhar preocupado para a bebê — Ela não dormiu de ontem para hoje, ficou inquieta a noite toda, não parava de chorar, mas não era cólica, nem fome, nem... — Por que não me ligou? — ela interrompeu sem conseguir controlar, já que de repente na sua mente fazia todo o sentido ele lhe ligar em um momento como aquele. Só que bastou Jamaica parar e a encarar um tanto perdido, para ela se dar conta que, não, aquilo não fazia sentido, não devia fazer nem mesmo na sua mente, porque apesar de ter passado os últimos dias cuidando da bebê, eles não eram próximos o bastante para que fosse acionada em emergências. Caramba, aquela constatação fez um vazio estranho se instalar no seu peito. — Eu liguei pra Índia — ele murmurou, levando a mão à nuca — ela disse que era melhor eu esperar, levar um bebê na emergência só porque ele não dorme, não é uma opção. Elisa assentiu devagar, engolindo como a atitude dele fazia sentido. É claro que tinha pedido ajuda a Índia e não a ela. Além de não ter experiência com crianças, ela não era mesmo próxima assim dele. Ainda assim, a sensação de vazio no peito continuou presente, Lis tentou se convencer que o problema era todo o tempo que estava passando com ele e com Bea, que vinha confundindo sua cabeça e borrando os limites que ela mesma construiu. Era só isso, um pouco de confusão misturada ao estado já estranho em que sua mente se encontrava ultimamente. — Acha que precisa levar ela ao médico agora? — indagou, tentando ignorar a sua parte que continuava se lamentando com o desejo de ter recebido uma ligação quando Bea não se sentiu bem. Céus, precisava parar de se envolver tanto. — Sinceramente, se eu pudesse tinha levado de madrugada, mas ela não tem documentos. O que você acha que ia acontecer se eu chegasse em um pronto socorro de madrugada com um bebê aos berros e sem nenhuma documentação? — ele meneou a cabeça — Ia dar o maior B.O, se o povo já aponta o dedo pra mim só pela minha cor e pela minha cara de flagrante, imagina o que iam fazer se eu aparecesse em uma situação suspeita dessa. Lis suspirou, infelizmente ele tinha razão. Um cara n***o, tatuado e claramente favelado com um bebê sem documentos? Aquilo podia gerar uma enorme confusão até que se provasse que a bebê era dele. — Você precisa registrar ela — observou o óbvio. Jamaica desviou o olhar. — Eu sei, mas como pai solteiro, não é tão fácil só registrar, principalmente sem o documento do hospital atestando o nascimento dela — ele voltou a passar as mãos no rosto, mais cansado do que antes — Não sei o que fazer. Elisa absorveu a cena. Não importava quantos anos tenham se passado ou como se sentia em relação a mentira dele, ainda odiava vê-lo daquele jeito, por isso, ignorou o bom senso e toda disciplina auto imposta que a obrigava manter distância, e se aproximou dele. — Que tal dar um passo de cada vez? — sugeriu, indo até Bea, que apesar de não chorar, esfregava os pezinhos um no outro em agonia — Primeiro vamos garantir que ela tá bem — fez uma pausa, aconchegando a bebê inquieta no colo. Hesitou mais um pouco antes de continuar — Depois a gente garante que você está bem. — Eu tô bem... — ele começou a protestar, ela meneou a cabeça. — Parece que você foi atropelado por um ônibus e pisoteado pela torcida inteira do Bahia — Lis quase sorriu quando ele fez uma careta. — Não é para tanto, eu só não dormi direito hoje... e ontem, mas ontem foi porque tava resolvendo um problema com as vendas... não que isso faça diferença, não é nada demais... — O que acha que vai fazer hoje no morro? — ela ignorou o papo furado dele. É claro que não dormir por duas noites era algo demais, ainda mais para alguém que precisava estar alerta no trabalho. — Repassar uns valores, fazer uns pagamentos fora... — Nem pensar. Você não pode sair do morro assim. — Claro que posso... — Você tá parecendo um zumbi — ela usou um tom que não permitia ser contradito — Vai sair do morro pra ficar dando vacilo no asfalto? Não mesmo. — É? Então diz isso pro Baroni, ele tá doido de se livrar dos pagamentos do mês... Antes que ele terminasse a frase, ela já estava indo até o sofá. — Tá fazendo o quê? — Jamaica veio logo atrás, como uma sombra. Ele era irritantemente persistente quando se tratava de trabalhar, mas Lis sabia muito bem como cortar o m*l pela raiz. — Tô ligando pro Lucas. — Tô te dizendo que o Baroni não vai me liberar, ele quer... — Alô — ela disse assim que o irmão atendeu, ignorando os protestos de Jamaica — O Tiago não pode sair do morro hoje. — Que papo é esse? — seu irmão soou atento do outro lado da linha. — A Bea não tá bem e eu preciso que ele fiquei por perto. Ouviu um murmúrio de conversa do outro lado, no momento seguinte, a voz de Camila soou agitada: — O que a Bea tem? Se Elisa achava que era desesperada quando se tratava de ver pessoas conhecidas doentes, é porque ela não levava em conta o nível de desespero de Camila à qualquer menção a enfermidades. — Ela tá bem — tentou tranquilizar a outra — Só não dormiu a noite, tá inquieta e eu estou achando ela meio quente. Vou medir a temperatura e se tiver com febre, a gente vai levar ela no hospital. Houve uma breve pausa antes da amiga rebater: — Ele está liberado, não precisa nem vir trabalhar hoje. Lis ouviu o irmão protestar com um “que história é essa?” antes do som de algo atingindo alguém, seguido por um palavrão de Lucas. — Ele não precisa trabalhar — Camila enfatizou, mais para Lucas que para Lis, que permanecia calada ouvindo a interação dos dois — Ele precisa ficar em casa com a Lis. Ah, certo. Inacreditável que até em uma situação daquela, Camila estava imaginando coisa onde não existia. — A Bea tá doente — Camila continuou para Lucas — Vai mesmo fazer ele vim? — Claro que não — a voz do irmão rebateu, seguido do som de um beijo estalado — É só você explicar a história que eu entendo, patroa. A risadinha de Camila fez Elisa revirar os olhos. — Ótimo que vocês concordam — falou para chamar a atenção dos dois. — Se a Bea precisar de qualquer coisa, liga — seu irmão deu a ordem, ela até já tinha se acostumado com aquele tom autoritário dele. Lis murmurou algo em concordância antes de encerrar a chamada. Jamaica a encarava com atenção. — Você acha que a Bea tá com febre? — ele se aproximou mais, tocando a testa da bebê ainda inquieta. — A gente tem que medir a temperatura dela — Elisa consertou a menina nos braços. Era como se toda sua capacidade cognitiva estivesse direcionada a ajudar Bea, era uma sensação estranha, urgente, algo que ela não devia sentir, mas não podia evitar — Você tem um termômetro? — Não — Jamaica pareceu ainda mais aflito — Que tipo de pai não tem uma coisa dessas em casa? — Um pai que foi pego de surpresa — quando ele começou a negar, ela o interrompeu, firme: — Você é um pai incrível, não é um termômetro que vai mudar isso. Sabe quantos caras por aí abandonam os filhos? E você tá aqui, criando a sua sozinho mesmo sem ter esperado por ela. Então não comece com essa porcaria de duvidar de si mesmo. A Bea tem sorte de ter você. Quando terminou de falar, além de perceber que acreditava em cada palavra dita, notou como os olhos dele brilhavam com emoção antes dele desviar o olhar e pigarrear. — Vou comprar um termômetro, não vou demorar, qualquer coisa me liga — ele disse sem olhá-la. Já estava na porta quando acrescentou: — E, Lizzie — quando ela fixou o olhar no seu, ele abriu um dos sorrisos mais lindos que ela já havia visto na vida — Obrigado. Foi mais ou menos naquele momento que Lis percebeu que não se envolver com a história dele e de Bea, não era mais uma opção.
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